Investigação · Poder econômico no Paraná

O império dos Gulin

Uma família de Curitiba está ligada a 553 empresas e a R$ 3,3 bilhões em capital social — e move os ônibus da capital há mais de 70 anos. Mapeamos a rede inteira.

Por Rosiane Correia de Freitas · Plural · Dados: Receita Federal, TSE e Junta Comercial do Paraná

Eles não aparecem na lista de bilionários da Forbes. Não disputam eleições. Raramente falam à imprensa. Mas quando um morador de Curitiba entra num ônibus, há grande chance de estar num veículo ligado a uma única família — os Gulin. E o transporte é só a parte visível.

Um cruzamento dos dados abertos da Receita Federal com a base do TSE e os registros da Junta Comercial do Paraná revela a dimensão do grupo: 128 integrantes da família Gulin (o sobrenome também aparece grafado Golin) são sócios de 553 empresas, que somam R$ 3,3 bilhões de capital social declarado. São holdings, imobiliárias, viações, geradoras de energia, construtoras e clínicas — a maioria com sede em Curitiba.

Um alerta desde já: os Gulin não são um bloco único. São vários ramos familiares e dezenas de holdings, e nem todos têm ligação entre si — como se verá, o braço imobiliário dos herdeiros, por exemplo, não se cruza com o do transporte.

553
empresas na rede (417 ativas)
128
integrantes da família como sócios
R$ 3,3 bi
capital social somado
34
empresas de transporte, em 5 estados

No transporte, o alcance chama atenção. Em Curitiba, empresas ligadas à família estão nos três consórcios que operam a Rede Integrada de Transporte (RIT). Mas a operação vai muito além da capital: no Paraná, há linhas urbanas e rodoviárias em Ponta Grossa (Expresso Princesa dos Campos e Viação Campos Gerais), Paranaguá (Viação Rocio), Guarapuava, Toledo e Cascavel. Fora do estado, o grupo opera ônibus na Bahia (Porto Seguro e Itabuna), em Santa Catarina (Tubarão e Laguna), em Minas Gerais (Uberlândia) e em São Paulo (Marília) — ao todo, 34 empresas de transporte em 14 cidades de cinco estados.

01Um conglomerado que começa e termina em holdings

O grupo não tem uma marca única. Ele é, na verdade, uma teia de holdings de participação — empresas cuja função é deter pedaços de outras empresas. Sozinhas, elas são quase metade da rede: 247 holdings, com R$ 1,7 bilhão de capital. É essa camada que amarra parentes distantes num mesmo patrimônio e distribui o controle dos negócios operacionais.

Onde está o capital do grupo

Capital social somado por setor · 553 empresas · fonte: Receita Federal (2026-06)

Holding / Participações
R$ 1,70 bi
Imobiliário
R$ 723 mi
Transporte
R$ 486 mi
Energia
R$ 179 mi
Construção / Eng.
R$ 25 mi
Comércio / veículos
R$ 20 mi
Saúde / estética
R$ 2 mi
Além dos setores acima, o grupo tem participações menores em agropecuária, turismo e outros ramos.

02O mapa do grupo

Cada ponto no mapa abaixo é um CNPJ ligado à família, na cidade da sede. Curitiba concentra a maior parte; as empresas de transporte (em verde) se espalham pelo interior do Paraná e por outros estados. Passe o mouse para ver cada empresa — nos detalhes, citamos apenas os sócios ligados ao transporte coletivo.

As 553 empresas ligadas à família, pela cidade do CNPJ. Verde: transporte coletivo. Fonte: Receita Federal.

0370 anos movendo Curitiba

A história do dinheiro dos Gulin é a história do transporte da capital. Segundo apuração da Plural, o imigrante italiano Domenico Golin chegou ao Brasil em 1878; seu filho José Gulin, nascido em Santa Felicidade em 1879, começou com um bazar. Foram os netos que, em 1949, entraram nos ônibus — no embrião da Transporte Coletivo Glória. Nas décadas seguintes, compraram concorrentes (a Viação Redentor nos anos 1970, a Auto Viação Marechal em 1996) e se tornaram os maiores do ramo.

1878
Domenico Golin, imigrante italiano, chega ao Brasil.
1949
Filhos de José Gulin entram no transporte público (origem da Transporte Coletivo Glória).
1972
Donato Gulin é eleito vereador de Curitiba; presidiria a Câmara.
1996
A família compra a Auto Viação Marechal.
2001
Nasce a Elejor, geradora de energia, sócia da Copel e da Paineira Participações (grupo Gulin).
2009
Licitação divide Curitiba em três lotes; os três consórcios com empresas da família vencem.
2013
CPI da Câmara aponta ~68,7% dos consórcios nas mãos da família e "indícios de cartel".
2016–18
Operação Riquixá (MP-PR): denúncias por fraude em licitações de transporte em seis cidades; cerca de 10 Gulin entre os réus. Parte dos crimes prescreve.
2024
STJ invalida a delação que sustentava a Riquixá; sete das oito ações penais ficam suspensas.
2025
Prefeitura de Curitiba prorroga o contrato do transporte, adiando a nova licitação.

04Sete de cada dez ônibus — a conta da concentração

A concentração é o fato central desta reportagem. Em 2013, uma CPI da Câmara Municipal de Curitiba examinou mais de 200 páginas da Junta Comercial e concluiu que 68,7% do capital das empresas dos três consórcios de ônibus estava com a família — falando em "indícios vigorosos de formação de cartel". Aquele número tem mais de dez anos. Refizemos a conta com o dado mais concreto e atual que existe: a frota.

Como a conta é feita. A URBS publica, no processo administrativo que embasa a tarifa técnica, a frota operante de cada empresa. Em junho de 2026, o sistema tinha 1.209 ônibus, distribuídos entre oito empresas nos três consórcios. Classificamos cada operadora como ligada ou não à família, cruzando o quadro societário na Receita Federal — inclusive o controle indireto por holdings (a Auto Viação Santo Antônio, por exemplo, pertence às holdings Vivelo e Stabile, da família). A participação, então, é simples: a soma da frota das empresas da família em cada consórcio, dividida pela frota total do consórcio.

ConsórcioEmpresaFrota (jun/2026)Família?
PontualTransporte Coletivo Glória336sim
PontualAuto Viação Santo Antônio38sim (via holdings)
TransbusAuto Viação Redentor283sim
TransbusExpresso Azul135não
PioneiroViação Cidade Sorriso232sim
PioneiroAuto Viação São José97não
PioneiroVia Mobilidade58não
PioneiroViação Tamandaré30não
Total do sistema1.209889 da família
Frota operante por empresa, junho de 2026. Fonte: URBS — processo administrativo da tarifa técnica (protocolo 01-148182/2026). Classificação de controle: Receita Federal.

O resultado: a família opera 889 dos 1.209 ônibus73,5% da frota de Curitiba. No Consórcio Pontual, são 100% (Glória + Santo Antônio); no Transbus, 67,7% (a Redentor); no Pioneiro, 55,6% (a Cidade Sorriso).

Participação da família por frota, por consórcio (junho/2026)

Frota das empresas da família ÷ frota total do consórcio · fonte: URBS + Receita Federal

Consórcio Pontual
100%
Consórcio Transbus
67,7%
Consórcio Pioneiro
55,6%
Sistema (total)
73,5%
A concentração se confirma por qualquer critério. A CPI de 2013 mediu por capital social (Pontual 87%, Transbus 78,5%, Pioneiro 40,9% — total 68,7%); refizemos por capital em 2026 (total 70,7%) e por frota em 2026 (total 73,5%). Em todas as contas, ~70% ou mais — e o Pontual sempre 100%.

O Setransp, sindicato patronal do setor, historicamente nega concentração, alegando que as empresas operam de forma independente apesar do sobrenome comum. Vale registrar que o próprio Setransp é presidido por um Gulin (ver a seguir).

O controle vai além das empresas: Maurício Gulin preside o Setransp; Felipe Busnardo Gulin e Marco Antônio Gulin, a federação patronal (Fepasc). E a operação não para em Curitiba — o grupo opera transporte coletivo em 14 cidades de 5 estados: além do Paraná (Ponta Grossa, Paranaguá, Guarapuava, Toledo, Cascavel), há linhas na Bahia (Porto Seguro), Santa Catarina (Tubarão, Laguna), Minas (Uberlândia) e São Paulo (Marília).

05Quem é sócio das viações

A rede de propriedade do transporte coletivo — as 31 viações, quem as controla e quem é sócio delas. No centro, os integrantes da família (em vermelho); ao redor, as empresas de ônibus (em verde), as holdings que aparecem entre elas e os sócios associados. Clique num nó para isolar suas conexões.

Rede do transporte coletivo: 31 viações, 27 integrantes da família e 15 associados que são sócios delas, além das holdings que aparecem no controle. Fonte: Receita Federal.

Dois nomes que não são Gulin aparecem no topo das conexões com as viações: Alexandre Radtke (casado com uma Gulin) e José Luiz de Souza Cury — os associados mais presentes no quadro societário do transporte. Boa parte do controle não é direto: passa por holdings de participação, que se interpõem entre as pessoas e as empresas de ônibus.

06Quanto vale um Gulin, em 2026

Em 2023, a Plural estimou o patrimônio da família pelo capital social declarado à Junta, dividido igualmente entre os sócios de cada empresa: R$ 578,6 milhões entre 78 pessoas e 90 empresas. Refizemos a conta com a base atual da Receita — universo nacional, três anos a mais — e o total da família saltou para R$ 1,86 bilhão. O ranking abaixo mostra apenas os integrantes ligados ao transporte coletivo.

Os maiores entre os sócios do transporte

Capital estimado por pessoa (capital social ÷ nº de sócios) · base 2026 · em R$ milhões · só sócios de viações

Darci Gulin
82
Alexandre Gulin
73
Luciano Rasera Gulin
55
Luiz Norberto Gulin
50
Maurício Gulin
48
Dante José Gulin
48
Marco Antônio Gulin
46
Thiago Carvalho Gulin
44
Dalto Gulin
37
Mari Nely Gulin de Carvalho e Silva
37
Estimativa de ordem de grandeza: capital social não é patrimônio nem faturamento, e a divisão igualitária distorce empresas de capital alto com poucos sócios. Inclui apenas integrantes sócios de empresas de transporte coletivo.

07Sem urnas, com contratos

O poder dos Gulin é econômico, não eleitoral. Nenhum dos 128 integrantes foi candidato entre 2014 e 2024 (Donato Gulin foi vereador — mas em 1972). As doações de campanha registradas no TSE são poucas e pequenas: cinco pessoais, a maior de R$ 4 mil, de Donato Gulin a Ratinho Junior em 2022.

O rastro maior está nas empresas. Em 2014, antes de o STF proibir doações de pessoa jurídica, companhias ligadas ao grupo — Paineira Participações, Copava Veículos e Paviservice — doaram R$ 39 mil, quase tudo para a campanha de Beto Richa (PSDB) ao governo do Paraná. É a mesma Paineira que, três anos antes, havia se associado à estatal Copel na geradora de energia Elejor.

08A Justiça e o que ficou pelo caminho

O episódio judicial mais duro não veio de Brasília, e sim de Guarapuava, onde tramita a Operação Riquixá, do Ministério Público do Paraná — um conjunto de oito ações penais sobre supostas fraudes em licitações de transporte coletivo em seis cidades do estado (Curitiba, Guarapuava, Paranaguá, Apucarana, Foz do Iguaçu e Maringá). Cerca de dez integrantes da família Gulin/Golin figuram como réus em pelo menos uma delas.

Mas a acusação foi minguando. Boa parte dos crimes de fraude à licitação e falsidade ideológicaprescreveu. Vários dos nomes mais antigos do clã — Donato, Darci e José Mauro Gulin — sequer chegaram a ser denunciados, por prescrição em razão da idade. E, em maio de 2024, a Sexta Turma do STJ (relator Sebastião Reis Junior) invalidou a delação do advogado Sacha Reck — que não é parente da família — por ele ainda ser advogado de uma das empresas investigadas quando colaborou, anulando as provas dela derivadas.

Pelo relatório mais recente das ações penais, sete das oito estavam suspensas, à espera de uma audiência conjunta; só a de Maringá — sem nenhum Gulin entre os réus — seguia andando.

Ação penal (comarca de Guarapuava)SituaçãoO que resta em abertoRéus da família
Organização criminosa — núcleo técnico
0004080-97.2017
SuspensaOrganização criminosaFelipe Busnardo Gulin
Caso Guarapuava
0010092-64.2016
SuspensaPeculato, falsidade, lavagem (fraude prescrita)Felipe Busnardo, Delfio*, Marco Antônio* Gulin
Caso Curitiba
0011439-64.2018
SuspensaSó associação criminosa (fraude e falsidade prescritas)Acir Antônio, Dante José, Felipe Busnardo; Marco Antônio*, Wilson Luiz*, Verginia Macedo*
Caso Paranaguá
0014672-06.2017
SuspensaPeculato, lavagem (fraude prescrita)Ângelo Gulin Neto, Carlos Frederico Gulin, José Carlos Golin*
Caso Apucarana
0016768-91.2017
SuspensaUsurpação, dispensa de licitação, peculatoJosé Carlos Golin*
Caso Foz do Iguaçu
0018299-47.2019
SuspensaPeculato, usurpação, lavagemAcir Antônio Gulin*
Caso Curitiba — lavagem
0020372-89.2019
SuspensaLavagem de dinheiroDante José*, Felipe Busnardo Gulin
Caso Maringá
0002869-84.2021
Em andamentoPeculato de prefeito— nenhum
Situação das ações penais da Riquixá conforme o relatório dos autos (atualizado até 19/10/2023). * = crimes já prescritos para aquele réu. Além destes, Donato, Darci e José Mauro Gulin não foram denunciados por prescrição em razão da idade.
Prescrição não é absolvição, e a delação anulada não julga o mérito. Mas, na prática, a Riquixá está paralisada.

O momento é sensível: o sistema de transporte de Curitiba será novamente licitado, e entre as concorrentes estão as concessionárias de hoje — várias delas denunciadas pela própria Riquixá. Os réus negam irregularidades.

09A próxima geração

Enquanto a velha guarda controla os ônibus, os herdeiros olham para o alto. Alfredo Gulin Neto, engenheiro e neto do fundador, comanda a incorporadora de luxo AG7 Realty — sem participação no transporte. Seus empreendimentos, com assinatura de arquitetos renomados, partem de R$ 7 a R$ 9 milhões por unidade; na Praia do Estaleirinho, em Santa Catarina, anunciou R$ 282 milhões em investimento. Em 2025, lançou o que chamou de o condomínio mais caro de Curitiba. A incorporadora não tem relação com os contratos de transporte do grupo.

Como fizemos. A rede foi montada a partir dos Dados Abertos de CNPJ da Receita Federal (competência 2026-06): partimos das empresas já mapeadas pela Plural e expandimos para todas as companhias onde um Gulin/Golin é sócio, identificado por nome + os 6 dígitos do meio do CPF (a Receita não divulga o CPF completo). Como essa identificação pode, em tese, coincidir com homônimos, os nomes citados nominalmente foram — ou devem ser — conferidos individualmente antes da publicação. Por critério editorial, os mapas, a rede interativa e o ranking de patrimônio citam nominalmente apenas os integrantes da família e associados que são sócios de empresas de transporte coletivo — recorte de claro interesse público. As cifras agregadas por setor referem-se ao conjunto das 553 empresas e não nomeiam ninguém. As doações vêm dos Dados Abertos do TSE (2014–2024). A estimativa de patrimônio replica a metodologia da série "Quanto vale um Gulin?" (capital social ÷ nº de sócios) e é uma aproximação de ordem de grandeza. Os processos judiciais citados devem ser confirmados na origem (STF/STJ/TJPR) antes da publicação.

Fontes: Receita Federal (Dados Abertos CNPJ) · TSE (Dados Abertos) · Junta Comercial do PR · URBS (Empresas Operadoras da RIT e frota operante por empresa — processo administrativo da tarifa técnica de junho/2026, protocolo 01-148182/2026) · CPI do Transporte Coletivo (Câmara de Curitiba, 2013) · denúncia e relatório das ações penais da Operação Riquixá (MP-PR / TJ-PR, comarca de Guarapuava, atualizado até 19/10/2023) · decisão da 6ª Turma do STJ (rel. Sebastião Reis Junior, mai/2024) · reportagens da Plural: "Mas afinal, quem são os Gulin?", "A rede de empresas dos Gulin desenhada", "Quanto vale um Gulin?", "Herdeiro que quer questionar o status quo" e "STJ invalida delação e enfraquece Operação Riquixá".