Que Brumadinho nos ensine: é preciso educar o poder | Jornal Plural
4 fev 2019 - 0h00

Que Brumadinho nos ensine: é preciso educar o poder

O eleitor tem que parar de cobrar só o que é vistoso. Coisas “invisíveis” como fiscalização (do pãozinho à barragem) só são levadas a sério pelos políticos se nós cobrarmos.

Como mãe de três crianças, aprendi uma coisa sobre educar: é preciso ver as coisas. Explico: se peço para um dos meus filhos guardar os brinquedos, tenho que ver se ele guardou. Daí sim se elogia, se comemora. É isso que dá valor praquele ato. E aumenta as chances de ele se repetir.

Como professora, observo o mesmo fenômeno. Se a cultura do ambiente educacional vê a leitura como algo salutar e louvável, são maiores as chances de os alunos adquirirem esse hábito. Isso é o que se chama de incentivo. O esforço está onde o incentivo está.

Reconhecimento social é incentivo.

Na vida política, o meu lado repórter vê que a situação se repete. Quando o povo mostra que algo está na sua mira, nossos representantes eleitos tendem a se esforçar para mostrarem que estão atuantes naquela área.

É aqui que temos um problema sério. Porque certas coisas tendem a receber mais a atenção, serem vistas mais pelo povo, pela imprensa. E outras, não. Não dá “Ibope”, como diria minha falecida mãe.

Nossa tendência como eleitores e cidadãos é “ver” a tevê de LED na sala de espera do posto de saúde, a luminária bonitinha na calçada, os aparelhos de ginástica na pracinha. Mas não “vemos” o fiscal que garante a qualidade e higiene do pãozinho, nem as horas de qualificação e o salário do professor.

O orçamento dos governos está cada vez mais apertado. Há enormes dívidas. Há gastos imensos com pessoal. Sobra pouco para o governante eleito “deixar sua marca”. Qual a chance de ele gastar esse dinheiro com o que não é “visto”?

Quando acontece algo terrível como o desastre de Brumadinho (MG), a queda de um avião, a morte de alguém no postinho de saúde, todo mundo “vê” a tragédia e cobra providências. No entanto, o que poderia evitar tudo isso é algo invisível.

Não vemos, não cobramos. E aí somos surpreendidos novamente.

A tragédia de Brumadinho não é culpa do governo Bolsonaro. Nem do governo Zema. Mas ambos foram eleitos com o discurso vistoso e aplaudido de redução dos entraves para empreendimentos, agilização da emissão de licenças ambientais.

Os governos Lula e Dilma também, muito embora defensores do meio ambiente no discurso, cederam ao canto da sereia de serem lenientes com a atividade empresarial, porque ela gera empregos e isso sim é “visto” pelos eleitores.

Claro que garantir empregos não é algo menor. Precisamos de empregos. Mas quantos empregos Minas Gerais irá perder nos próximos dez anos por causa de Brumadinho e Mariana? Porque temos pouquíssimos técnicos para fiscalizar centenas de barragens no país todo?

A cultura de ver só o que é vistoso é a cultura do resultado imediato. Mas um país depende de políticas de médio e, principalmente, longo prazo. Nós precisamos de água potável para quando nossos filhos tiverem filhos.

A política de “emprego agora” da Vale colocou em risco a da água para nossos netos. A política de “emprego agora” da Vale é validada pela eleição de quem defende menos amarras para empresas como a Vale.

A menos que a gente mostre, como faz com uma criança, que nosso foco está em outras coisas, é essa política que vai prevalecer. E outras tragédias pequenas e grandes se seguirão.

“Ah, mas o governo do PT…” Bem, o PT não está mais no governo. Então agora é hora de educar quem está.

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