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http://pt.scribd.com/doc/241121770/Mensagens-Trocadas-Entre-Edmauro-e-Um-Soldado-Da-PM

 

REVELAÇÕES INÉDITAS SOBRE A GUERRILHA DO VALE DA RIBEIRA

Mensagens trocadas entre o ex-guerrilheiro Edmauro Gopfert e um soldado PM da região onde ocorreu a Guerrilha do Vale da Ribeira

Durante dois meses no começo de 1970, o Vale do Ribeira, interior paulista, foi cenário de perseguições, emboscadas, fugas, tiroteios, prisões, torturas e uma execução – até hoje presentes na memória dos moradores. Comandados pelo capitão Carlos Lamarca (1937-1971), os homens que arriscaram suas vidas naquela região acreditavam que a revolução começaria pelo campo.

A troca de mensagens entre Edmauro Gopfert e um soldado da Polícia Militar que mora e trabalha na região onde ocorreu a guerrilha, é um importante documento sobre o período e desmonta as versões que são espalhadas por pessoas e grupos saudosistas da ditadura.

Edmauro foi preso no Vale da Ribeira em maio de 1970 e em junho foi trocado, juntamente com outros 39 presos políticos, pelo embaixador alemão no Brasil.

O nome “Júlio” dado ao soldado da PM nas mensagens é obviamente fictício. Mas a conversa é esclarecedora e acho que contribui com a verdade.

 Edmauro – Júlio, um dia a gente se vê aí no Sul Maravilha. Eu estou na Chapada Diamantina e com filhinhas pequenas. Gostaria de saber as histórias que ainda contam por aí sobre a gente. Estive no Vale do Ribeira faz uns 15 anos e ouvi histórias tão fantásticas, que até resolvi que iria escrever um livro que seguiria o curso da história real, que nós vivemos. Mas o relato viajaria pelas histórias que as pessoas da região “inventaram”, como um mito muito mais interessante que a história real. Depois, o Marcelo Paiva escreveu o “Não verás país nenhum” e eu desanimei. Abraço e obrigado pelos elogios, nem tão merecidos. Bom dia!

 Júlio – Bom dia! O senhor não imagina o quanto estou feliz em receber essa mensagem

Há pouco tempo morava aqui na cidade o senhor José de Araujo Nóbrega ou mudando para outra cidade tive o prazer de conhecer Darcy Rodrigues. Estiveram no bairro da capelinha, onde em 1970 os senhores se alojaram, eu cresci ouvindo a história de Lamarca e seus companheiros essa história povoa a imaginação do povo dessa Região é incrível muitos acreditam que o Lamarca ainda esta vivo.

Hoje sou um Policial Militar e trabalho na região. Onde os senhores estiveram, ainda são localizadas bombas e outros artefatos da época. Pra mim é um orgulho muito grande e uma felicidade saber que ainda vivo no mesmo tempo que os senhores fica aqui minha eterna admiração por vocês.  Muito obrigado hoje e sempre.

Edmauro – Obrigado pelos elogios, tirando o senhor, que está no Céu. Existem muitas histórias interessantes, nem tanto da guerrilha que sucedeu ao ataque ao nosso campo de treinamento, que um dia eu te conto. Mas o que eu acho que só eu e o Nóbrega vivemos, e que pode sim te interessar, foi o que realmente aconteceu nos combates que travamos com a patrulha que guarnecia a cidade de Eldorado, onde fui ferido na cabeça, e, principalmente, com o pelotão da ROTA (recém-criada, justamente para nos combater). Se você tiver o que fazer com o relato. Acho muito importante que seus colegas de farda saibam a verdade disso tudo, bem factual, sem puxar a brasa para a sardinha de nenhum interesse ideológico.

 Júlio – A duvida entre nós militares se refere ao encontro em que o nosso oficial então hoje Patrono da Policia Militar, Tenente Alberto Mendes Junior que por sua vez recebe o nome do Batalhão aqui da cidade de Registro teria se omitido durante o confronto entre Sete Barras e cidade de Eldorado, tendo um sargento tomado a frente de comando e o oficial após perceber que não haveria mais perigo se apresentou. Hoje esse oficial carrega infelizmente uma posição de omisso mesmo pelo fato de perder a própria vida. O sargento Lino é visto com bons olhos pela tropa, já o oficial carrega a sina de ter se acovardado. Seria isso mesmo?

Edmauro – Não foi bem assim. Já vi que é bom mesmo te escrever e contar como foi. Só pra adiantar: Na verdade, todos fomos vítimas de uma situação que nenhum dos que participaram do combate escolheu. Não houve nem covardes, nem heróis, no pelotão da ROTA. Como você sabe, eu não estava mais com o grupo guerrilheiro que executou o Tenente Mendes. Mas conversei muito com ele, e conheço bastante bem as condições em que todos se encontravam no momento desse desfecho trágico e indesejável. O que vou te escrever não procura justificar nada. Mas, com certeza, explica muito bem a situação.

Faço a você esse relato, que escrevi hoje de uma sentada, conforme lhe prometi, porque acho que os soldados da PM de hoje, têm a obrigação de saber como e para que foram usados e militarizados pela ditadura. Hoje, o comportamento dessa tropa, com as mais honrosas exceções, é o de uma força de ocupação, como se em país estrangeiro estivesse. Uma pena que assim seja. Uma lástima que tarde tanto a mudar.

Aí vai. Nada daqui é confidencial, mas peço-lhe que não publique, ainda que o autorize a usar qualquer informação aqui contida e mencionar meu testemunho, se achar isso realmente necessário.

No dia 22 de abril de 1970, os helicópteros UH-1 Iroquois (os mesmos que atuaram no Vietnã, aqueles do filme “Apocalipse Now”) de um pelotar (Pelotão Aerotransportado), protegidos por caças T6, passaram a sobrevoar a área de treinamento da VPR nas montanhas próximas ao Vale do Ribeira. Decidimos abandonar a área, depois de ter dispensado mais da metade do nosso contingente. Ficaríamos apenas Lamarca, Darcy, Nóbrega, Fujimori e eu, para esconder o armamento e demais pertences que julgávamos importantes. Como parte do pessoal não pôde mais sair em segurança, juntaram-se a nós mais cinco companheiros que deveriam ter abandonado a área pela rodovia BR-116, como se fossem civis esperando um ônibus e com documentos em ordem. Darcy e José Lavechia perderam-se do grupo principal e foram presos dias depois. Os sete que compuseram o grupo que tentou abandonar a área pela mata caminharam em direção ao norte (12° norte verdadeiro) até o dia 8 de maio, quando estavam próximos ao povoado de Barra do Areado. Decidimos por descer da montanha e fazer-nos passar por caçadores perdidos, já que nos pareceu que a repressão havia desmobilizado a grande quantidade de efetivos e armamentos com que invadiu o Vale. Ao chegarmos ao povoado, vimos sair um homem a cavalo e a galope. Suspeitamos do risco, mas continuamos o plano pois não queríamos exercer qualquer pressão ou violência contra os moradores. Além de tentarmos fazer-nos passar por caçadores perdidos na mata. Fomos muito bem tratados e correspondemos à hospitalidade, pagamos pelo que consumimos, deixamos muitos presentes, cobertores, facões e algum equipamento que, para não ter que dar explicações, prometemos voltar para buscar. Era um povoado muito pobre e os presentes foram bem recebidos.

Fretamos então um caminhão do dono do armazém local, que já estava por transportar uma carga de arroz até a cidade de Eldorado Paulista. Lá, segundo o dono do armazém, conseguiríamos uma Rural Willis que nos conduziria, por uma estrada secundária, até São Paulo. Não era um bom plano. Mas foi o que seguimos.

Ao passar pelo centro do povoado de Barra do Braço, percebemos que não havia qualquer mobilização da repressão. As atitudes eram bem normais. Nós viajávamos na carroceria, entre os sacos de arroz.

Já à noitinha, ao chegarmos a Eldorado, fomos surpreendidos por uma patrulha numerosa da Força Pública (acho que já se chamava PM, mas era assim que ainda era conhecida) que nos ordenou descer da carroceria para revistar o caminhão. Em menos de dois minutos travou-se um intenso tiroteio, onde só usamos armas civis (já que os FALs e uma submetralhadora INA estavam desmontados e envoltos em pacotes). Fui ferido na cabeça, um pouco mais que de raspão e comecei a sangrar bastante, mas com consciência e podendo continuar sem maiores problemas. Deixamos alguns feridos junto ao caminhão, afastamo-nos uns 50 metros e passamos a montar os dois FALs e a INA. Dois companheiros retornaram ao caminhão (todo o local tinha sido abandonado pelos soldados, que correram após o tiroteio, deixando lá os feridos) e continuamos com ele pela estradinha que seguia até Sete Barras. Um Jipe parou na entrada da cidade e apreendemos a sua chave de ignição para que não fosse utilizado para perseguir-nos. Dissemos ao motorista que deixaríamos a chave no meio da estrada, pouco depois da entrada de Eldorado, para que ele pudesse encontra-la. Assim o fizemos. Lembro-me uma conversa cordial onde ele interessou-se pelo meu ferimento e desejou boa sorte.

No caminho paramos numa venda, à margem direita, para comprar algum alimento. Eu fiquei na cabine enquanto os demais companheiros foram até a tal venda. Pagaram o que compraram, me trouxeram uma garrafa de guaraná.

Depois de rodar por uma hora, aproximadamente, por aquela estrada, muito prejudicada pela chuva incessante, divisamos dois pares de faróis que vinham em sentido contrário ao nosso. Ariston dirigia o caminhão, eu estava no meio e Lamarca no lado direito. Os demais, quatro companheiros, estavam na carroceria onde construíram uma trincheira com alguns sacos de arroz.

Lamarca indicou a Ariston que não “fechasse” os veículos que se aproximavam, mas que não lhes desse espaço para passar, suficiente para que pudéssemos descer e toma-los, trocando pelo nosso.

Quando estávamos a cerca de dez metros do primeiro par de faróis, Nóbrega gritou bem alto que eram veículos da repressão e, ato seguido, atirou, com uma espingarda calibre.12, carregada com chumbo fino de caça, no para-brisa do primeiro veículo. Instantaneamente nosso para-brisa foi perfurado por uma rajada de metralhadora, que por sinal não atingiu nenhum de nós três.

Os companheiros saltaram da carroceria e adentraram o mato da margem esquerda, protegendo-se e atirando contra as viaturas. Lamarca desceu do caminhão pela porta direita, postou-se a poucos metros de distância dos veículos da repressão e disparou o FAL em rajada contra o caminhão que transportava o grosso da tropa; a viatura da frente era uma C-14 que, suponho, transportava o comando. Fujimori protegeu-se atrás da roda dianteira direita do nosso caminhão e disparou o FAL, tiro a tiro, contra os veículos. Eu, ferido, estava armado apenas só com um Taurus Cal. 38 que disparei contra os faróis da C-14 que nos iluminavam.

O forte tiroteio seguiu-se por apenas dois ou três minutos. Num intervalo – parece que durante essa tensão extrema, as munições acabam todas ao mesmo tempo, Lamarca pede à tropa que se renda. Eu comecei uma espécie de “guerra psicológica”, gritando que eles não iriam render-se e pedia autorização para atirar as granadas sob o caminhão (nós não tínhamos granadas). Lamarca grita para que eu espere porque eles vão se render. Uma voz, vinda dos que aparentemente estavam sob o caminhão, grita: “Nós estamos feridos, eu sou sargento e não comando a tropa”, pedindo que não atirássemos mais. Um grito vindo do mato, sempre à esquerda da estrada, mandava que ele calasse a boca, bem ao estilo militar. Era a voz do Tenente Mendes. Nesse momento havia tal pânico no pelotão da ROTA, que eles não reagiram mais. Eu e Fujimori entramos na C-14 onde, no banco dianteiro, encontrei uma grande lanterna. Ato seguido um sargento grande e corpulento passou por debaixo da cerca de arame farpado que ladeava o lado esquerdo da estrada, muito ágil, e me pediu que iluminasse suas costas que estariam “cheias de formigas”. Atendi o sargento (ele havia sido atingido pelos chumbinhos da espingarda e tinha alguns furinhos na testa, sem gravidade). A partir daí ficou o tempo todo ao meu lado (meu ferimento voltou a sangrar e ele mesmo interessou-se e me deu conselhos).

A tropa toda foi saindo do mato à esquerda da estrada, com todo seu armamento (fuzis Mauser e metralhadoras INA, além dos seus revólveres. 38). O Ten. Mendes apareceu logo em seguida, vindo do mato, por trás do caminhão militar, e passou a destratar os soldados que entregavam seu armamento longo e mantinham seus revólveres. Dizia que aquilo ia dar um grande inquérito. Eu conversei com ele na traseira do caminhão militar (onde estávamos depositando as armas longas) e lhe disse para preocupar-se com os feridos (coisa que parte de nós já estava fazendo). Havia feridos, aparentemente graves, atingidos por tiros de fuzil, que colocamos na traseira da C-14 depois de, com umas vassouras de mato, limpá-la dos cacos de vidro.

Soubemos então de uma conversa que Lamarca havia mantido com o Ten. Mendes, ao lado do caminhão, e que ele relata num texto que, meses depois enviou à imprensa internacional e que eu li em Argel. Assim foi como eu ouvi lá na estrada: nós cuidaríamos dos feridos e os transportaríamos até onde pudessem receber auxílio e transporte. Não tiraríamos os revólveres dos soldados (que continuaram com eles durante todo o tempo) e o tenente se comprometeria a não permitir que nos emboscassem no trajeto até o ponto onde escolhêssemos para deixar os feridos.

Um soldado sem camisa, ferido no braço com um tiro, aparentemente de revólver, muito assustado e chorando, me pede para procurar a fotografia da noiva que estava em sua gandola. Outro soldado me explica afinal o que é gandola e vai procurar a tal foto. O Diógenes Sobrosa diz que perdeu no mato a munição de seu 38. Outro soldado abre o tambor e lhe dá a sua munição, dizendo que depois vai declarar que atirou. Eu, fumante, peço um cigarro a outro soldado que tenta acender o seu, sentado sobre uma poça de combustível do caminhão militar. Tirei os que estavam ali e filei o cigarro. Outro soldado diz que nós estávamos bem porque nosso comandante estava junto conosco, enquanto o deles estava no “bem bom” na cidade. Outro me diz: “Nós vínhamos cantando no caminhão. Nós não temos nada que ver com a guerra de vocês”. Eu lhe digo que nós também vínhamos cantando no nosso caminhão, até chegar a Eldorado.

Houve uma certa pressa em sair dali e atender os feridos que não estavam nada bem. Lamarca nos diz para segui-los com nosso caminhão enquanto entra na C-14 dirigida pelo Ariston, acompanhado do Diógenes e do Nóbrega, além do Tenente Mendes. Quando tentamos segui-los verificamos que o pneu direito de nosso caminhão estava arriado, atingido por um tiro. A C-14 distanciou-se e nós ficamos na estrada, junto com o restante do pelotão (incluindo o sargento das formigas). Conversamos muito com a tropa (toda armada de revólveres, pois as armas longas continuavam no caminhão militar) até ouvimos a aproximação de um veículo que vinha do lado de Eldorado. Temendo ser da repressão, improvisamos uma emboscada, acompanhados pelos soldados. Eu fiquei junto com o sargento. Ele foi o primeiro que viu que o caminhão que se aproximava era civil e saiu na frente, ao encontro ao veículo. Fui logo atrás, subi na boleia e pedi ao dono que saísse, pois tinha havido um combate e nós precisávamos de seu caminhão. O dono acompanhado de um jovem de uns vinte e poucos anos, seu filho relutou em sair. Acho que eu pedia com cordialidade demais. O sargento subiu também à boleia e, de maus modos ao estilo da PM, disse a ele que descesse, que ali era a polícia. Não vi mais o motorista.

Despedimo-nos dos soldados, um por um, desejando encontrar-nos em momento melhor, Ariston lhes dizia que deviam sair da Força, essas coisas de jovenzinho de 18 anos. Eu tinha 19.

Quando estávamos para partir no novo caminhão a diesel, os companheiros que levaram os feridos estavam retornando a pé. Disseram que a camionete C-14 atolara na estrada, junto de outro caminhão que encontraram também atolado no barro. Lá deixaram os feridos, junto com o Tenente Mendes, pois eles tinham medo de ficarem sozinhos na noite.

Ao retornarem a pé, vindo ao nosso encontro, notaram duas canoas na margem do Rio Ribeira, próximas à estrada. Resolveram que seguiríamos com o novo caminhão até o ponto das canoas e, com elas, continuaríamos abandonando a área pelo rio.

Dividimo-nos em dois grupos, um para cada canoa. A nossa tinha muita dificuldade em seguir o rio, muito cheio, numa noite em que não percebíamos nem para que lado ele corresse. A outra canoa fazia muita água. Tornamos a reencontrar-nos na margem. Foi quando, pelos ruídos que não pudemos evitar, ouvimos a voz do Tenente Mendes, vinda da estrada, gritando, pedindo-nos licença para passar. Como não pudemos evitar que não percebesse nossa presença, voltamos à estrada e reencontramos o tenente. Ele nos disse, e eu ouvi que os feridos tinham sido atendidos, uma viatura apareceu e os levou. Ordenaram que ele voltasse para reencontrar o restante da tropa. Dizia-nos que havíamos fuzilado os soldados, muito nervoso. Parecia haver levado uma bronca do comando. Disse que queriam mandar uma viatura para nos combater, mas ele os dissuadiu “pois não era páreo para nós”. O tenente Mendes não quis uma camisa civil que lhe oferecemos (parece que havia ensanguentado demais a sua, junto com os feridos, o fato é que estava sem camisa) para “não ser confundido conosco”. Afirmou não haver nenhuma emboscada no caminho.

Retomamos o tal caminhão a diesel, colocamos o tenente na cabine (eu fui lá pra carroceria) e continuamos pela estrada, sempre no sentido de Sete Barras, até encontrarmos a C-14 atolada. Ali mesmo, atolamos também. A estrada ficou interditada pelos três veículos.

Seguimos então a pé, numa longa coluna defensiva, um homem a mais de dez metros do outro, caminhando pela margem, noite adentro. Lamarca, Nóbrega e o tenente iam à frente. Eu, que não carregava sacola com víveres, era o último da coluna e portava uma submetralhadora INA apreendida da Força Pública.

Caminhamos por mais ou menos uma hora. Num ponto do caminho, recebo a ordem de sair da estrada, pelo lado esquerdo, como se estivesse vindo algum veículo em sentido contrário. Foi o que fiz até não vir nada anormal e começar a caminhar pela borda da estrada para ter contato com o companheiro que vinha na minha frente. Acho que caminhei demais, pois, ao cochichar perguntando se estavam ali, alguém, cuja voz me pareceu ser a do Nóbrega, me diz em voz baixa que me cale.

Nisso começo a ouvir vozes que não reconhecia, na estrada, muito próximas de nós. Aguardei então qualquer outra ordem para retornar. Continuava a ouvir vozes, tudo muito estranho pois não sabia onde estávamos.

O que ocorreu, como pude perceber depois, foi muito diferente do que imaginara. Estávamos quase em cima de uma grande emboscada, formada por soldados do Exército, sob o comando do Coronel Erasmo Dias, guarnecendo a estrada no local de uma grande ponte que atravessava o Rio Ribeira. Vários ninhos e metralhadoras .30, sacos de areias e muitas viaturas estacionadas. Tão grande que não conseguiam manter silêncio e foram denunciados pelas vozes que os companheiros da frente ouviram. Assim, ao invés de parar, como eu supus, eles desbordaram a emboscada e seguiram em frente pelo mato. Eu continuava parado, esperando a ordem de voltar à estrada.

Nesse momento chega, com grande ruído, um  caminhão militar, vindo da direção de Eldorado, que para praticamente em cima de mim, escondido na parte baixa da margem esquerda da estrada. O caminhão foi crivado de balas. Uma potência de fogo imensa, que não podia ser nossa, atingia o caminhão militar. Depois de uns dois minutos de muitos tiros, alguém grita da emboscada para que se rendam, que ali estava o Exército. Os do caminhão gritam que também são do Exército. Os da emboscada não acreditam, atiram mais sobre o caminhão e pedem uma senha. Os do caminhão gritam que são do Sétimo Regimento de Guardas e que transportam os soldados da Força Pública que havíamos deixado no local do primeiro encontro. Seguem-se vozes de decepção, gente ferida, um certo caos.

Ato seguido resolvem desmontar a tal emboscada, acendem os faróis de todas as viaturas de forma a iluminarem bem a estrada e passam a parar os poucos veículos que chegam, muito nervosos, causando pânico nos civis que aparecem no meio da noite. Eu estou a poucos metros da estrada, bem ao lado do caminhão atingido pelos tiros, a cerca de vinte metros da emboscada mal feita.

Essa situação durou a noite toda, sem que eu pudesse abandonar minha posição.

Quando amanheceu o local ficou coalhado de tropas, vários helicópteros. Vasculharam tudo o que puderam, mas não me encontraram ali, encostado neles. Isso durou o dia todo, soldados conversando, sentados a menos de cinco metros de onde eu estava. Até voltar a anoitecer.

Quando acalma um pouco a situação, com o barulho que faziam ao interceptar qualquer veículo que entrasse na área, começo a abandonar o local, tentando desbordar pelo mesmo lado que me pareceu ter sido a rota do resto do grupo. Encontrei um grande pântano, que continuava por toda a extensão desse caminho, sem ter como atravessá-lo. Resolvi, então, voltar pela margem da estrada, na direção de Eldorado, até ver o que podia encontrar para tomar uma decisão de qual rota seguir. Caminhei bastante pela margem da estrada, caindo para o mato quando enxergava as luzes de algum veículo. Nada no caminho me pareceu razoável e, sem comer, com o sangue coagulado atraindo nuvens de mosquitos, encontrei uma casinha de camponês, a menos de cem metros da margem. Havia um abrigo onde se encontravam dois carros: Uma Rural e um Gordini. A porta do Gordini estava aberta e, sem fazer ruído, resolvi passar a noite dentro dele, sem chuva e sem mosquitos.

Pouco antes de amanhecer, escondi a INA sob a roda dianteira da Rural e, com o revolver sob a camisa, toquei a portinha da casa. Atendeu uma velhinha. Expliquei a ela que tinha batido com a cabeça e que, com aquela confusão toda, tinha atolado meu carro na estrada. Convidou-me a entrar e esperar o café que tardava porque a lenha estava molhada. Entrei numa pequena sala onde, sob uma montanha de sacos de aniagem usados para cobrir alguma colheita, me ajeitei e esperei o tal café. Um jovem saiu da cozinha e foi até a sala conversar comigo. Contei a ele alguma explicação de que não lembro e ele voltou a desaparecer no interior da casinha. Havia passado uns quinze minutos quando vejo um olho a espiar por um buraco da porta. Ato seguido, ela é arrombada com um pontapé e um sargento do exército, com uma carabina M2, dispara uma rajada sobre mim. Nenhum dos tiros me atingiu. O sargento parecia estar com mais medo que eu, tremia, pálido como cera, acompanhado de um grupo de soldados, todos muito assustados. Começou a me pedir explicações sobre o que fazia ali. Falei bastante e me pareceu que ia conseguir convencê-lo da minha historinha. Tinha uma carteira de trabalho falsa e cerca de pouco menos que um salário mínimo em dinheiro no bolso de minha camisa. Foi à primeira coisa que ele pegou. Disse que o dinheiro era da “firma” e que ele não mexesse.

Fazendo o que achava que devíamos fazer em situações como essa, tentei timidamente empunhar o 38 escondido à minha frente, sob os panos dos tais sacos. Estava enroscado (por sorte…) e o sargento notou algo em meus movimentos. Mandou que eu saísse dali e começou a revirar os panos até dar com o revólver e eu levar a primeira porrada. Aí se seguiram muitas outras, pegou meu relógio e o dinheiro, amarrou minhas mão para trás e atirou-me para dentro da camionete que os trouxera até ali.

O que se seguiu, meu encontro com o Cel. Erasmo Dias, o comportamento dos oficiais que me interrogaram ali na barreira da grande ponte, na cova de um cemitério que existia ali numa colina junto à ponte, a minha entrega para quatro homens, que se comportavam como um bando de bandidos e diziam ser do DOPS, as torturas dentro da C-14 dos tais “bandidos”, a “recepção” na cadeia pública de Jacupiranga, onde um soldado da PM me recebeu correndo com um forte chute de coturno no joelho esquerdo, que tem uns “grilos” até hoje, e o resto das torturas ali, na Base Aérea do Galeão, para onde fui transportado diretamente de Jacupiranga, não vale a pena contar aqui. É muito comprido e sai da história do Vale da Ribeira.

Para terminar, o Nóbrega caiu de um barranco quando desbordavam a emboscada da ponte e perdeu-se do resto do grupo, vindo a ser preso quatro dias depois. Eu me perdi atrás, ele muito à frente.

O que, afinal, aconteceu com o Tenente Mendes?

Como eu não sou mais testemunha dessa parte da história vou contar, com os detalhes que conheço, toda a situação que envolveu os cinco companheiros que continuaram: Lamarca, Ariston, Fujimori, Diógenes e o Gilberto Faria Lima.

Quando a repressão invadiu o Vale, no dia 22 de abril, dois companheiros (Darcy e Lavechia) me substituíram no posto avançado de vanguarda. Como não retornavam e as comunicações por rádio estavam cortadas, Diógenes foi ao encontro deles. Ao voltar, disse ter ouvido os gritos dos dois. Acreditava que o pelotar havia deixado uma tropa de paraquedistas no caminho deles que, capturados, estavam sendo torturados. Não tínhamos como confirmar informação alguma, mas foi isso que ficou nas nossas cabeças durante toda a retirada.

Quando os companheiros desbordaram a emboscada da ponte, ouviram o intenso tiroteio travado pelas duas tropas do Exército que se estranharam, justo onde eu me encontrava. Ao perderem a mim e o Nóbrega, é fácil perceber que, para eles, aqueles tiros todos foram dirigidos a nós.

A partir daí, o tenente Mendes passou a ser o principal suspeito de ter armado a tal emboscada ou, pelo menos sabido dela. A nossa perda, a provável traição ao acordo firmado com o companheiro Lamarca e a impossibilidade de continuar com ele terminaram com seu julgamento sumário, em tempos de guerra, e na sua condenação ao fuzilamento. Para não denunciar sua posição, foi determinado que a execução se desse com um golpe fatal na cabeça, sem provocar sofrimento e sem que ele o esperasse. O resto dos detalhes só o Nóbrega pode hoje contar, além do conhecido relatório do companheiro Lamarca à imprensa internacional, sobre a campanha do Vale.

Espero que aproveite a história.

 

Júlio – Sem duvida o seu relato pra mim é motivo de muito orgulho fica aqui os meus agradecimentos e minha eterna admiração a todos vocês.

Edmauro – Pois é Júlio, a história é sempre meio mítica quando contada nos livros (pela imprensa então, pior)… quando não é mentirosa. Mas as pessoas têm que meter na cabeça que guerra não é um esporte, nem fábrica de heróis. Só se começa uma quando não há nenhuma outra saída. Todos os que participaram da luta armada, todos os que eu conheço, e são muitos, são pacifistas. Abraço.

Júlio – boa tarde! durante um patrulhamento na area rural do bairro Guarau local este que fica entre a cidade de Cajati chamou minha atenção uma chácara chamada Constantinopla

Edmauro – Não me lembro desse nome.

Júlio – Ela possui um forte esquema de segurança ao procurar saber de quem é descobri que pertence ao cunhado do coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, o qual passa finais de ano naquele local.

Eu – Cacilda! Os caras se criaram por aí. A gente, meio sem querer, mudou muito a vida no Vale. Trouxe “desenvolvimento”, os prefeitos falavam diretamente com o Delfim Neto, inventaram novas escolas para crianças e, algumas terras, que ninguém conhecia antes, podem ter sido produto de bons negócios…

Júlio – bairro Guarau é uma área rural que fica entre Jacupiranga e a cidade de Cajati

Edmauro – Bem pertinho das nossas bases, do sítio onde a Tia morava. Mas eu não conheço muito bem a região.

Júlio – ainda é muito carente essa chácara se destaca pela sua grandiosidade em local tão carente

Edmauro – Interessante uma investigação. Sei lá no que pode dar… mas, quem sabe, em nome da História…

Júlio – o cunhado do coronel dono da chácara senhor Constantino como é conhecido ligou para o coronel Ustra no dia em que fui visitar a chácara e o mesmo disse que iria me presentear com o seu livro a Verdade Sufocada. Segundo ele muitos frequentam as festas ali e nunca imaginariam que ali estaria o coronel Ustra mais a minha admiração é pela audácia e coragem e amor a o nosso Brasil ao qual vocês um dia lutaram l

Edmauro – muito obrigado.

Júlio – Parabéns e muitas felicidades

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2 comments

  1. Paulo Henrique 23 julho, 2015 at 21:36 Responder

    Fico fascinado toda vez que ouço esses relatos. Até os 20 anos morei em Jacupiranga e militei na política junto ao Nóbrega. Fomos amigos próximos. vizinho, ele chegou a frequentar minha casa. Homem de bem, nobre e honrado. Sempre evitei perguntas pois a mim pareceu que o homem não gostasse de falar desse tempo. Hoje tenho pouco contato com ele, apenas pelas redes sociais. Mas acho que ele deveria escrever um livro contando sua vida no movimento. Isso faz parte da nossa história.
    O

  2. JOSÉ SEVERINO DA SILVA 28 dezembro, 2018 at 15:47 Responder

    O pior é que a maioria do povo brasileiro desconhece episódios como A guerrilha do Vale do Ribeira e a Guerrilha do Araguaia. Tais fatos históricos são criminosamente omitidos pelas classes dominantes para que não sirvam de exemplos para a atual e futura gerações.

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