Top
Forças ArmadasRepressãoVPR

O cerco aos militantes da VPR no Vale da Ribeira

Compartilhe:

PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA

SERVIÇO NACIONAL DE INFORMAÇÕES

INFORMAÇÃO Nº 185/SI

OPERAÇÃO JACUPIRANGA/OPERAÇÃO GUAÇU

ACT/70

15MAIO1970

BOLETIM INFORMATIVO

Nº 1-2-3/E32-5º RM E RELATÓRIO Nº 5/70

SI/DOPS/PR

AC/SNI

Em abril de 1970, a repressão descobriu uma base de treinamento da VPR no Vale da Ribeira, local onde encontrava-se Carlos Lamarca, o comandante da organização.  1.500 homens das forças armadas cercaram os 17 militantes da VPR. 

 COMUNICADO DA DIREÇÃO DA VPR POR OCASIÃO DO CERCO NO VALE DA RIBEIRA

“Do Vale do Jucupiranga ao Vale do Ribeira

Delatada por Massafuni(1N) e Lungareti (2N)a área de treinamento de guerrilha da VPR sofreu ataque das forças armadas a partir de 21 de abril, enquanto os agentes do Dops e Oban já estavam em Jacupiranga desde o dia 19.

Dividimo-nos em dois grupos para evacuação da área; um dos grupos acompanhou os movimentos das tropas do Exército de 14h 45min do dia 21 até a´17h do dia 22, quando iniciou a marcha para o vale do Ribeira.

As forças armadas atuaram com helicópteros, aviões caças e bombardeios, tropas a pé e motorizada, patrulhas fluviais, além de agentes à paisana, num total de cerca de 20 mil homens.

Antes de iniciarmos a marcha, perdemos dois companheiros que caíram numa emboscada, quando iam ocupar um posto de observação – eram os combatentes Darcy Rodrigues e José Lavecchia, que sofreram as mais vis torturas em Registro e em São Paulo.

Diante da incapacidade das forças armadas, lenta e tranqüilamente atravessamos a serra e atingimos o vale do Ribeira, na localidade de nome Barra do Areado, onde o rio deste nome encontra o rio Batatais que é afluente do rio Ribeira. Era 8 de maio quando chegamos, ali deixamos os equipamentos e vestimos roupas comuns – conversamos apenas o armamento e a munição. Alugamos um caminhão para nos transportar a Eldorado Paulista.

Chegamos a Eldorado às 19 horas do dia 8 de maio. Ali existia um bloqueio da Polícia Militar do Estado de São Paulo, que atacamos, derrubando cerca de 6 policiais e pondo a correr os demais – tudo presenciado pela população local. Os mortos naquele combate não tiveram seus nomes anunciados na imprensa, nem houve exploração sentimental nos seus enterros – as forças armadas consideraram aquela derrota uma vergonha que não podia ser declarada.

Tomamos rumo a Sete Barras, esperávamos o encontro com as forças repressoras no caminho. Isto se deu às 21 horas, o pelotão inimigo era composto de 17 homens (1 tenente, 2 sargentos, 2 cabos e 12 soldados). Éramos 7 num caminhão. O inimigo vinha com uma caminhonete e uma viatura militar. Dru um combate de encontro, e não uma emboscada; num rápido envolvimento cercamos o inimigo. Houve um tiroteio intenso, nos seus intervalos os gritos dos inimigos feridos prenunciavam a derrota iminente. Após cinco minutos exigimos a rendição, que foi aceita incontinente, sem exigências. O herói que querem fazer do tenente Mendes, não existiu – para restabelecer a verdade, só um inimigo avançou, foi o sargento Lino, que caiu ferido com três tiros, e só um soldado fugiu para Sete Barras.

Nós, revolucionários, cuidamos dos feridos, explicamos a nossa luta aos soldados, expropriamos três metralhadoras, um fuzil e munição.

Decidimos libertar os prisioneiros sob a condição de ser levantado o bloqueio. Conduzimos o tenente Mendes e os feridos até junto à tropa que bloqueava Sete Barras. O tenente Mendes declarou que estava suspenso o bloqueio. Libertamos os prisioneiros e conduzimos conosco o tenente na direção de Sete Barras. Ali constamos que o bloqueio não havia sido levantado – havia uma emboscada. Desbordamos a emboscada – o inimigo percebeu e , utilizando-se dos faróis de suas viaturas, tentava nos localizar no matagal, e executava milhares de tiros a esmo. Naquela ocasião, a tropa inimiga que vinha pela estrada, na mesma direção que vínhamos antes, caiu na emboscada que havia sido montada para nós. Enquanto isto, nos afastamos, conduzindo o tenente preso. Ali os companheiros José Nóbrega e Edmauro Guerra se perderam, na escuridão, foram presos dias depois e selvagemente torturados. Marchamos dois dias e duas noites sem dormir, o tenente não agüentava mais andar, por isso paramos (dia 10 de maio). Fizemos várias perguntas ao tenente; ele considerava a derrota como culpa dos soldados, que usavam a farda como meio de vida, que não tinham amor à farda – sobre o seu procedimento no tempo em que serviu no Presídio Tiradentes, declarou que os presos não são gente – sobre a emboscada que montara, quebrando a palavra empenhada, dizia-se traído pelos seus superiores – perguntado por que a Polícia Militar espancava operários e massacrou operários na greve de Osasco, respondeu que grevistas e desempregados são vagabundos, e não respondeu quando perguntamos sobre a miséria que tinha visto no campo, e particularmente no nordeste.

Foi julgado e condenado por ser um repressor consciente, que odiava a classe operária – por ter conduzido à luta seus subordinados que não tinham consciência do que faziam, iludidos em seus idealismos de jovens, utilizados como instrumento de opressão contra o seu próprio povo, iludindo os jovens, ensinando-os a amar a farda, quando deveriam amar o povo – por ter rompido com a palavra empenhada em presença de seus subordinados – por ter tentado denunciar a nossa posição.

A sentença de morte de um Tribunal Revolucionário deve ser cumprida por fuzilamento. No entanto, nos encontrávamos próximo ao inimigo, dentro de um cerco que pode ser executado em virtude da existência de muitas estradas na região. O tenente Mendes foi condenado a morrer à coronhadas de fuzil, e assim o foi, sendo depois enterrado. Não sofreu qualquer violência ou ameaça antes do justiçamento, nem teve as mãos amarradas.

Depois de ser preso em São Paulo e ser violentamente torturado durante 15 dias, o companheiro Ariston – filho de Antônio Raimundo de Lucena – conduziu a Polícia Militar ao local do justiçamento. Consta que Ariston esteja aleijado, e ao mesmo tempo em que a repressão fazia o enterro do tenente, torturava Ariston.

Do dia 10 ao dia 18 de maio controlamos os deslocamentos da tropa que vasculhava a região de Areado (próximo a Sete Barras), Assistíamos os roubos que a tropa fazia nas plantações, e as humilhações por que passavam os trabalhadores da região.

Continuamos a marcha no dia 19, driblando facilmente as tropas do exército, que demonstrou capacidade, apenas, de aterrorizar a população. No dia 22 de maio o exército aprisionou dois camponeses, que foram fazer compras para nós, torturou-os e matou-os, e para justificar estes crimes, passaram com uma viatura sobre os cadáveres mutilados, para dar a impressão de que tinham sido acidentalmente atropelados.

Temendo que a população nos apoiasse, passaram a bombardear e queimar com napalm grandes regiões, aterrorizando assim a população que passou a abandonar a área. Vôos rasantes foram executados sobre míseras choupanas, e o matraquear das metralhadoras eram constantes. Afastamo-nos da região, evitando o combate, para a população não sofrer represálias.

Ultrapassamos os diversos cercos até o dia 29, no dia 31 montamos uma emboscada e aprisionamos um sargento e quatro soldados do exército, que se deslocavam numa viatura. Vestimos os seus uniformes e nos deslocamos com a viatura para São Miguel Arcanjo, onde havia um bloqueio que foi ultrapassado. Chegamos a São Paulo, sem dificuldades, às 21 hora, e abandonamos os militares amarrados dentro da viatura.

As forças armadas têm à sua disposição toda imprensa que é dominada pelos americanos, e mantém diariamente para enganar o povo. Falam em segurança, mas não conseguem fazer a própria segurança – já mataram 18 pessoas que passavam em frente aos seus quartéis. Falam na Pátria e a entregam aos americanos. Conduzem para a luta os soldados, iludindo nossos jovens filhos de trabalhadores, fazendo-os de escudo dos oficiais traidores da Pátria, inimigos da classe operária. Fazem propaganda, enquanto gastam 40% da renda nacional, e enriquecem com o sofrimento do povo.

Em nossa Pátria os parasitas é que têm valor: um policial ganha cinco vezes mais que um operário, um cabo das Forças Armadas ganha três vezes mais que uma professora, um oficial inculto ganha mais que um médico, qualquer general idiota ganha mais que um cientista – a injustiça impera em nossa Pátria.

Somente pela luta armada modificaremos isto, fazendo com que as fábricas sejam dirigidas pelos operários, que a produção da lavoura seja de quem trabalha na terra e não aos donos de títulos de propriedade.

Iniciamos o processo de união das organizações revolucionárias, e a união com o povo também está em marcha. Com o povo faremos a revolução que criará um Brasil justo.

OUSAR LUTAR – OUSAR VENCER

Vanguarda Popular Revolucionária – VPR

Início da página


Notas:

(1N) Em meados de 1970, o guerrilheiro Massafumi Yoshinaga se entregou aos órgãos de repressão e o fato repercutiu intensamente na imprensa. Imediatamente libertado, Massafumi não conseguiu reconstruir sua vida e acabou enlouquecendo e se matando em 1976. Fonte: Portal Imprensa (retornar ao texto)

(2N) Celso Lungaretti era um dos mais jovens dirigentes de uma organização guerrilheira de luta armada contra a ditadura militar, no final dos anos 60 e início dos 70, quando foi preso e barbaramente torturado. Após a rendição de Massafumi Yoshinaga, a ditadura militar resolveu forçar um novo “arrependimento” logo em seguida, para maximizar os ganhos propagandísticos. Lungaretti, preso e incomunicável havia mais de dois meses, ainda submetido a torturas brutais, foi o escolhido. Um dia depois que lhe estouraram o tímpano, teve de redigir uma falsa carta de arrependimento, sendo espancado de passagem pelos agentes que entravam e saíam da sala em que uma simpatizante da VPR era torturada com choques elétricos. Depois, ao ser levado de madrugada a uma TV, ameaçaram-no de novas torturas seguidas de execução, se não repetisse diante das câmaras o que havia escrito na carta.

Acusado de ter delatado seu grupo, passou 34 anos como um renegado, até que em outubro de 2004, com os relatos e provas apresentadas por Lungaretti, a Comissão de Anistia do Ministério da Justiça concluiu que ele havia sido “duplamente atingido” pela ditadura: além da prisão, torturas e lesão permanente, ainda sofreu um terrível dano moral, ao ser obrigado, sob coação extrema, a uma exposição negativa que o prejudicou por décadas. Logo depois, descobrindo em relatórios saídos dos arquivos secretos militares as provas de sua inocência no episódio de Registro, apelou ao historiador Jacob Gorender que, após aprofundada pesquisa, atestou, em carta à imprensa, que Lungaretti não era culpado pela “queda” do campo de treinamento de Lamarca, cuja localização inclusive desconhecia. Fonte: Portal Imprensa e Geração Editorial (retornar ao texto)

Anexo: Páginas 202,203,204,205 e 206 do livro A Ditadura Escancarada, de  Elio Gaspari. Veja edição completa na seçao LIVROS deste site

 

Compartilhe:

Leave a reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *