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Santo Dias, um mártir da luta dos trabalhadores

Santo Dias

10 de julho de 2009

Por Waldemar Rossi*

Santo Dias da Silva era um trabalhador inteligente, sensível aos problemas sociais, de formação cristã na linha da Teologia da Libertação, isto é, entendia a mensagem da busca da justiça como fundamental para a vivência dos ensinamentos do Evangelho. Nasceu em 22 de fevereiro de 1942, em Terra Roxa, São Paulo, onde iniciou sua militância na fazenda em que morava com seus pais. Tomando conhecimento dos direitos elementares dos trabalhadores rurais, começou seu trabalho de conscientização dos companheiros do campo e, juntos, partiram para os primeiros enfrentamentos com o fazendeiro. Santo Dias pagou o preço de sua ousadia com a perda do trabalho e o desalojamento de toda sua família da fazenda. Continuou sua luta até mudar-se para a cidade grande, São Paulo. Consciente do valor social do seu trabalho como metalúrgico, dedicava-se em desempenhá-lo corretamente, assim como usava seu tempo para unir seus companheiros.

Começou seu trabalho industrial, ao mesmo tempo em que participava da comunidade eclesial de seu bairro. Foi quando conheceu e engajou-se na Pastoral Operária e, em seguida, conheceu a Oposição Sindical Metalúrgica de São Paulo, da qual se tornou um militante ativo.

Exploração capitalista era alvo das lutas operárias

Santo Dias tinha incomparável capacidade de coordenar sua vida familiar com as atividades na Comunidade Eclesial, nos movimentos populares da região, na Pastoral Operária e, ao mesmo tempo, na Oposição Sindical. Em todas as fábricas por onde passou, deixou a marca da organização de base e das lutas por melhores condições de trabalho, aliadas às bandeiras sindicais por salários e outras conquistas. Tinha convicção de que as lutas operárias deveriam avançar para um enfrentamento maior com a exploração capitalista, visando à construção de uma sociedade com bases nos ideais socialistas.

Ele não recuava diante das dificuldades. Reagia rapidamente diante de uma injustiça maior, como, por exemplo, na metalúrgica Alfa. Na ocasião, quando o patrão matou um companheiro de trabalho, comandou a paralisação da fábrica e todo um movimento para a condenação do assassino. Não recuou sequer diante das ameaças recebidas.

Em 1978, Santo Dias e Anísio Batista de Oliveira, também da Pastoral Operária, encabeçaram a Chapa de Oposição Metalurgia que levou à derrota do grande pelego Joaquinzão (Joaquim dos Santos Andrade), homem forte da ditadura militar no movimento sindical desde o ano de 1964. Por sua firmeza na luta da oposição, Santo Dias tornou-se uma forte referência no movimento sindical paulistano e na resistência à ditadura. Ainda no ano de 78 teve papel de destaque na greve da categoria, a primeira depois de muitos anos de chumbo. A manifestação, no entanto, durou apenas 2 dias devido à ação traidora de Joaquinzão, conforme denúncia do jornal “O Dia”.

No ano de 1979, Santo Dias teve desempenho importante na preparação e na realização de uma greve maciça e pacífica. Foi no dia 30 de outubro, em frente à fábrica Sylvânia, no bairro de Santo Amaro, que a polícia militar do então governador Paulo Maluf assassinou Santo Dias da Silva. O crime encheu de emoção e feriu os brios de mais de 200 mil metalúrgicos que aderiram espontaneamente à greve. No dia seguinte, um cortejo com mais de 10 mil pessoas acompanhou o enterro de Santo Dias.

A duração da greve estava prevista para, no máximo, 4 dias. No entanto, ela se radicalizou. Manteve-se por 10 dias e só terminou com a conquista salarial e o reconhecimento, por parte de empresas importantes, de 6 comissões de fábricas. Foi uma vitória política, impondo a grande derrota do pelego Joaquinzão.

A fragmentação do sindicalismo brasileiro

Na época de Santo Dias, o movimento sindical tinha sua força nas Oposições Sindicais. Elas combatiam a estrutura sindical de origem fascista, ao mesmo tempo em que combatia a ditadura militar e denunciava a ação do peleguismo que traía os trabalhadores. A atividade fundamental era a da organização “clandestina” de núcleos nos locais de trabalho (não somente nas fábricas), acompanhado de pequenas lutas locais. Um dos resultados mais importantes das interfábricas para o novo período do movimento sindical brasileiro, deflagrado no ano de 78 foram as Comissões de Fábricas. O movimento sindical da época tinha como objetivo também contribuir para a derrota do sistema capitalista e a construção de uma sociedade socialista. Essa acumulação de forças, desenvolvida clandestinamente ao longo de 14 anos, com muito suor, delações, demissões, prisões e assassinatos de trabalhadores, foi determinante para a eclosão das greves de 1978 e as seguintes, pois os núcleos se espalharam como se espalham sementes após a ventania.

Depois de tantas lutas e importantes conquistas, como a construção da CUT (Central Única dos Trabalhadores), seguidas de gloriosos anos de enfrentamento com o capital, o movimento sindical entra em profunda crise. O capital vem travando uma grande batalha para “domesticar” a CUT, já que as demais Centrais foram criadas para dividir o movimento sindical.

Em homenagem a Santo Dias e a tantos mártires que derramaram seus sangues para garantir conquistas de direitos, cabe aos dirigentes e militantes sindicais, fiéis ao compromisso de classe, estabelecer uma estratégia que consiga resistir, denunciar e lutar contra a traição que vem se desenrolando. É necessário que os que ainda resistem busquem parcerias no movimento popular, nas entidades comprometidas com a justiça e nas igrejas que têm na justiça um dos seus pilares de sustentação, aliados que colaborem para desenvolver a consciência crítica dos trabalhadores e que ajudem nessa luta para fazer a reversão desse quadro de derrotas econômicas e, sobretudo, ideológicas.

*Waldemar Rossi é metalúrgico aposentado e membro da coordenação da Pastoral Operária de São Paulo.

 

 

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