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PRESOS E ARRASTADOS PELAS RUAS DE SUAS CIDADES NO INTERIOR. VIOLENCIA DA DITADURA CONTRA MEMBROS DOS GRUPOS DOS ONZE

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Logo apos o Golpe Militar de 1064, uma onda de terror varreu o RS e Sudoeste do Parana. Agricultores e comerciantes foram presos, arrastados pelas ruas das cidadezinhas onde moravam e torturados nas delegacias de policia. Sao vitimas anonimas da ignominia estabelecida pela ditadura, gente simples do interior que abracou o ideal das reformas de base e de um Brasil livre e soberano.

Abaixo segue vídeo produzido pelo sociólogo Muniz Freire e um excelente artigo de Marli Baldissera

http://youtu.be/HAb4ah-elmc

http://youtu.be/HAb4ah-elmc

 

A pedido de Brizola, milhares de pessoas se inscreveram em organização de resistência ao golpe. Mas nem sabiam do que se tratava.

Marli de Almeida Baldissera

9/6/2009

  • Os ânimos estavam exaltados e o golpe estava próximo. De um lado, a pressão por profundas reformas políticas e sociais. De outro, o crescente sentimento anticomunista. Em 31 de março de 1964, os militares depuseram o presidente João Goulart e se prepararam para uma resposta armada de guerrilheiros revolucionários. Mas ela não veio.
  • A peça-chave de resistência deveria ser o deputado federal Leonel Brizola (1922-2004), e todos acreditavam que ele não estava só. Afinal, havia organizado, de Norte a Sul do país, os chamados “Grupos de Onze”.  Semana após semana, o político divulgava ao Brasil novas listas com adesões de milhares de pessoas à sua causa: as Reformas de Base e a manutenção do Estado democrático. Caso a ordem fosse posta em risco, os alistados saberiam se mobilizar. Por que, então, isso não aconteceu?Para entender o que foi, de fato, aquela suposta “guerrilha paramilitar”, é preciso entender o papel que Brizola desempenhava naquele momento. Desde 1961, quando era governador do Rio Grande do Sul, ele se tornara uma das principais figuras políticas do país. Diante da renúncia do presidente Jânio Quadros (1917-1992), Brizola coordenou um grande movimento popular para garantir a posse do vice João Goulart (1919-1976). Batizada de Campanha da Legalidade, a iniciativa foi bem-sucedida e fez de Brizola um herói em seu estado, levando seu discurso a repercutir nacionalmente. No ano seguinte, elegeu-se deputado federal pela Guanabara e passou a exercer constante pressão sobre o presidente. Ele queria acelerar o ritmo das transformações políticas na sociedade, especialmente pela realização das chamadas Reformas de Base, um conjunto de mudanças estruturais – educacional, política, fiscal e agrária.Com esse objetivo, Brizola comandou a formação da Frente de Mobilização Popular (FMP), um conjunto de várias organizações, grupos e setores de partidos políticos que lutavam pelas Reformas de Base. A Frente adquiriu a Rádio Mayrink Veiga, na Guanabara, o que permitiu ao político fazer seus discursos e defender sua causa todas as noites. A ela somaram-se várias outras estações, cobrindo quase todo o país, com uma audiência de cerca de 10 milhões de pessoas.

    Devido às dificuldades de implantação das reformas, e pressentindo o avanço de um golpe de direita, em fins de 1963 Brizola iniciou uma nova empreitada: a convocação dos Grupos de Onze Companheiros (também chamados de Comandos Nacionalistas). Ele entendia que, como no episódio da Legalidade, o Congresso só votaria as novas leis sob forte pressão da classe trabalhadora organizada. Pela rádio, conclamou os cidadãos a se reunirem em grupos de onze. A coincidência com o número de jogadores de um time de futebol foi proposital: Brizola presumia que todos os brasileiros conheciam esse tipo de organização.

    E o chamado foi atendido em massa! A rapidez na formação dos grupos foi assustadora (principalmente para os militares), revelando o tamanho do prestígio de Brizola. Em apenas três meses, contabilizavam-se 5.304 grupos e um total de 58.344 pessoas, distribuídas pelos estados de Rio Grande do Sul, Guanabara, Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo. As listas com os nomes dos integrantes eram enviadas à Mayrink Veiga e divulgadas. A impressão era de que havia homens organizados em todo o Brasil, prontos para a luta armada.

    Mas Brizola não atentou para um obstáculo crucial: à época, grande parte da população era composta de analfabetos ou semialfabetizados. Os membros dos Grupos de Onze eram pessoas simples e crédulas, que seguiam as instruções de Brizola assinando listas de adesão [ver box], mas ignorando qualquer finalidade guerrilheira. Os grupos da região do Alto Uruguai (norte do Rio Grande do Sul), por exemplo, eram formados por colonos e moradores de cidadezinhas do interior, que nunca haviam se reunido.

    As pessoas formavam os grupos de modo espontâneo. Depois de ouvirem as conclamações de Brizola pelo rádio, agricultores deslocavam-se de casa em casa por quilômetros, a pé ou a cavalo, buscando as assinaturas para a “lista dos onze”. Outros, para atender rapidamente aos apelos, botavam nomes de pessoas de sua família, incluindo idosos e crianças de poucos meses de idade. Muitos assinavam movidos por amizade ou atendendo ao pedido de alguém da família. Eram homens religiosos, que acreditavam estar contribuindo para a realização das Reformas de Base e defendendo a bandeira brasileira – corria também o boato de que ganhariam terras, tratores e insumos agrícolas em troca da adesão. Além do mais, seus nomes eram lidos na rádio pelo Brizola em pessoa, o que já lhes dava grande satisfação. Crentes que estavam aderindo a uma ação democrática que resultaria somente no bem do Brasil, os membros do Grupo de Onze de Mariano Moro (RS) chegaram a registrar sua ata de formação no cartório da cidade.

    Militares e setores conservadores da sociedade não sabiam que os famosos Grupos de Onze alardeados por Brizola eram um castelo de areia. Pelo contrário: acreditavam que a guerra revolucionária estava pronta para eclodir no Brasil. Com o golpe civil-militar e a deposição do presidente João Goulart, as listas foram confiscadas e todos os integrantes dos Grupos de Onze enquadrados na Lei de Segurança Nacional.

    Na região do Alto Uruguai, um destacamento militar formado por 100 policiais espalhou pavor entre os moradores. “O comércio paralisou e os pacatos colonos não mais se dirigem à sede de seus municípios pelo temor de serem detidos”, publicou o jornal Correio do Povo em 19 de maio de 1964. As prisões, os maus-tratos e, em alguns casos, a tortura, causaram sérios danos psicológicos às suas vítimas, tratadas como bandidos e acusadas de comunismo.

    Os ex-integrantes dos grupos lembram esse passado com muito pesar e preferem que seus nomes não sejam revelados. “Sofri muita discriminação, tanto na igreja como no comércio, por ter sido preso”. “Me chamavam de comunista porque meu pai tinha sido preso”. “Meu pai ficou muito abalado depois da prisão, ele nunca mais ficou bom, deu depressão, deu úlcera… e morreu”. “Meu pai, depois que saiu da prisão, ficou muito triste, depressivo, ficava horas sem falar nada, sem se mexer”.

    Arquimino Assman, líder de uma lista de Grupos de Onze na cidade de Gaurama, foi um dos acusados que mais tempo permaneceram na prisão. E saiu de lá com sequelas. Os vizinhos tinham o costume de se reunir em sua casa para ouvir os discursos de Brizola. “Queriam obrigá-lo a confessar que tinha armas escondidas no porão de sua casa, foi amarrado no pau de arara, surrado e torturado até com pingos de gasolina que caíam sobre sua cabeça. Também não recebeu comida nem água. Enquanto esteve preso, sua casa foi invadida por homens armados que procuravam por armas”, contaria Vitória Assman, viúva de Arquimino, ao jornal Diário da Manhã em 1998. Depois de solto, ele nunca mais teve uma vida normal. Foi internado em um hospital psiquiátrico e ficou sem trabalhar por oito anos.

    Em outras regiões do Rio Grande do Sul não há relatos de abusos e torturas como os que ocorreram no Alto Uruguai. Mas todos os envolvidos tiveram de prestar declarações. Os depoimentos deixam clara sua ignorância quanto a qualquer objetivo político. Nenhum deles havia recebido armas ou instruções em relação à luta armada.

    No final de 1964, a Justiça Militar começou a se convencer de que os envolvidos nas listas dos Grupos de Onze não eram perigosos guerrilheiros revolucionários nem haviam infringido a Lei de Segurança Nacional. Aos poucos, passaram a ser absolvidos.

    A essa altura, Brizola já estava no exílio. Talvez matutando por que, no fatídico 31 de março, ao perguntar em cadeia nacional “Onde estão os Grupos de Onze?”, tudo o que obteve foi o silêncio. Um agricultor gaúcho lembra que ouviu aquele apelo. Mas como não sabia “do que ele estava falando”, pegou sua enxada e voltou ao trabalho.

    Marli de Almeida Baldissera é professora da Universidade Regional Integrada (URI) Campus de Erechim e da rede pública estadual. Autora do livro Onde estão os grupos de onze: Os comandos nacionalistas na região do Alto Uruguai – RS. (Passo Fundo: UPF, 2005).

    Saiba Mais – Bibliografia:

    BANDEIRA, Moniz. O governo João Goulart: as lutas sociais no Brasil; 1961-1964. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1983.

    GASPARI, Elio. A ditadura envergonhada. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.

    FIGUEIREDO, Argelina C. Democracia ou Reformas. Alternativas Democráticas à Crise Política. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1993.

    TOLEDO, Caio Navarro. O governo Goulart e o Golpe de 64. São Paulo: Brasiliense, 1983.

    Instruções para o uso 

    Leonel Brizola criou um passo a passo para a formação dos Grupos de Onze. Primeiro, duas ou três pessoas, de comum acordo, convidariam outros colegas até formar um grupo de onze. A seguir, lavrariam a ata de fundação com a assinatura de todos. O modelo de ata dizia: Nós, os 11 brasileiros abaixo-assinados, constituímos um “Comando Nacionalista”. (Rua _________, n.___, telefone ______). Escolhemos para líder e comandante o companheiro ______________ e, nesta data, estamos também comunicando nossa decisão ao líder nacionalista Leonel Brizola de nossos objetivos: defesa das conquistas democráticas de nosso povo, realização imediata das reformas de base (principalmente a reforma agrária) e a libertação de nossa pátria da espoliação internacional, conforme a denúncia que está na carta-testamento do presidente Getulio Vargas.
    Seguiam-se espaços para escrever o local, a data e as onze assinaturas. A formação do grupo devia ser comunicada por carta ou telegrama ao deputado Leonel Brizola, na sede da Rádio Mayrink Veiga.

    Sugeria-se que a sede do grupo fosse na casa de um dos companheiros, e que eles criassem formas de comunicação para que pudessem se reunir rapidamente “ou se mobilizar em minutos, para o caso, por exemplo, de ameaça ou iminência de um golpe contra os nossos direitos ou liberdades”. Tarefa obrigatória era ouvir Brizola na rádio, às 21h30 das sextas-feiras. Logo a seguir, após a meia-noite, seriam lidas comunicações enviadas pelos companheiros e difundidos instruções e esclarecimentos para as atividades dos Comandos Nacionalistas.

    (Extraído da coleção As Esquerdas no Brasil, vol. 2, organizada por Jorge Ferreira e Daniel Aarão Reis. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007).

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