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A luta dos colonos desapropriados por Itaipu, um exemplo de união e coerência

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 “Atenção senhores desapropriados que ainda moram na área do reservatório. No final deste ano as águas do Rio Paraná vão começar a subir para formar o Lago de Itaipu. Em duas semanas, uma vasta região será coberta pelas águas. Às vezes, por morar um pouco distante do rio, é difícil acreditar que as águas cheguem até suas casas. Mas estejam certo de que se as suas terras foram desapropriadas por Itaipu é porque elas estão dentro dos limites do reservatório. E é para impedir que o senhor e sua família fiquem ilhados em sua casa que voltamos a informar que as águas do Rio Paraná vão subir mesmo.”

Em janeiro de 1982 a Itaipu esparramou pela região onde seria formado o reservatório da hidrelétrica um panfleto conclamando os moradores remanescentes a desocuparem a área.

Naqueles dias que antecederam ao represamento do Rio Paraná ainda havia gente desmanchando casas e galpões em toda a vastidão do perímetro demarcado pelos técnicos da empresa binacional.

Como conseqüência da repentina valorização da terra no Oeste, muitos dos agricultores desapropriados não conseguiram adquirir novas propriedades na região. O preço oferecido pela Binacional não ultrapassava a metade do valor que era pedido por propriedades idênticas fora da área que seria desapropriada.

A resistência aos preços oferecidos pela Itaipu durou cerca de cinco anos. No começo foram pequenas reuniões nas igrejas católicas e luteranas da região. Após dezenas de tentativas frustradas de negociação, no dia 14 de julho de 1980, cerca de 400 agricultores sitiaram o escritório da Itaipu em Santa Helena, interditando as ruas com caminhões, tratores e outras máquinas agrícolas. Os manifestantes pediam indenização justa para os atingidos pelo plano de desapropriação de terra na área onde seria formado o reservatório.

A imprensa da região foi para Santa Helena e os boletins radiofônicos acabaram atraindo colonos dos arredores. Nas primeiras horas da tarde já eram cerca de 1.500 manifestantes que se deslocaram de Rondon, Itacorá, Missal, Alvorada do Iguaçu e outras localidades. Para garantir alimentação aos acampados várias carretas carregadas com gêneros alimentícios foram estacionadas no local. Um serviço de alto-falante denominado Rádio Justiça e Terra foi instalado em cima de um caminhão e por ele desfilaram oradores e duplas de cantores acompanhadas por sanfona e violão. Em pouco tempo dezenas de barracas de lona tomaram conta da área do acampamento e faixas e cartazes com dizeres alusivos ao movimento foram espalhados nas imediações e colados nos pára-brisas e na parte traseira dos veículos estacionados.

Uma comissão para negociar com a Itaipu foi eleita pelos manifestantes e as reuniões se prolongaram até a diretoria da Itaipu prometer rever posições e abrir um canal de negociação com os colonos. Diante do compromisso assumido os agricultores desmontaram o acampamento e retornaram às suas propriedades.

Passados mais de sete meses e como a empresa binacional não cumpria as promessas feitas nas reuniões de Santa Helena os colonos resolveram fazer uma nova assembléia. Dessa vez foi em Itacorá no dia 16 de março de 1981. Nela os agricultores decidiram marchar em direção a Foz do Iguaçu e acampar em frente do Centro Executivo, na Vila A. No dia seguinte setecentos colonos partiram em carros e caminhões, com equipamentos e mantimentos, dispostos a ficar acampados por semanas ou meses, até que Itaipu atendesse às reivindicações. Ao chegarem próximos ao trevo em que a BR 277 se bifurca em direção à ponte que liga o Brasil ao Paraguai e em direção ao Centro Executivo, os agricultores foram impedidos de prosseguir. Andaram mais dois quilômetros pela Avenida Paraná e antes de chegarem nas proximidades das primeiras casas do conjunto residencial da Vila A foram barrados por 200 homens da PM e da segurança da Itaipu, armados com revólveres, cassetetes e baionetas montadas na ponta de fuzis.

Foi grotesca a cena, os soldados na posição de disparar, tremendo de vergonha ao terem de apontar suas armas para os agricultores desarmados e acompanhados por suas mulheres e filhos. Diante do aparato repressivo os manifestantes decidiram recuar e montaram o acampamento no entroncamento da Avenida Paraná com a BR 277. Graças a organização adquirida na luta reivindicatória foi possível manter por 54 dias o acampamento. No local que ficou conhecido como o “Trevo da Vergonha”, os agricultores organizaram comissões de alimentação, segurança, higiene, imprensa e tal como em Santa Helena a “Rádio Justiça e Paz” foi instalada e transmitiu pelos seus dois alto-falantes mensagens e discursos das lideranças do movimento, de políticos e religiosos. Em 9 de maio de 1981, quase dois meses após terem chegado a Foz do Iguaçu, os colonos desmontaram as barracas e regressaram para suas propriedades com boa parte das reivindicações atendidas pela Itaipu. Às oito horas da manhã rezaram a última missa ecumênica oficiada pelo bispo dom Olívio Fazza e pelo pastor luterano Werner Fuchs.

Em 13 de outubro de 1982 as comportas do canal de desvio foram fechadas e começou a ser formado o reservatório da usina. Às 10 horas de 27 de outubro as águas chegaram às comportas do vertedouro atingindo a cota 220.

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2 comments

  1. Paulo Sérgio Barth 13 novembro, 2012 at 18:35 Responder

    Parabéns pela expreessão disso que representa a realidade de uma vivência de nossa família, assim como tantas diante da opressão dos dominantes de uma época. É um orgulho para mim ser filho de um dos líderes desse movimento maciço…. também sinto vergonha de ter presenciado o epitáfio de um sonho que meu pai, Marcelo Barth teve de VIVER naquele local: Itacorá. hoje vivo em Itanhangá -MT, por ironia do destino também exixte acima de tudo pelo esforço desse Homem destemido e de justiça sem-precedentes.

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