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Mulheres de Ibiuna. Apresentação com fotos e informações das mulheres que participaram do Congresso da UNE, em 1968

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Presas durante o 30º Congresso da UNE em Ibiúna, no dia 12 de outubro de 1968, cerca de 200 mulheres, entre 18 e 37 anos, se tornaram sinônimos de resistência à Ditadura Militar. Nossa homenagem a essas guerreiras que dedicaram suas vidas na construção de uma sociedade mais democrática, justa e igualitária.

Ibiúna: o congresso clandestino da UNE

Há 40 anos, quase mil estudantes foram presos de uma só vez na cidade de Ibiúna, em São Paulo, ao tentarem realizar de forma clandestina o 30º Congresso da União Nacional dos Estudantes. Este foi o último ato de luta do movimento estudantil contra a ditadura naquele ano, que viria a decretar o Ato Institucional nº 5, abrindo caminho para o período Médici
Foi em pleno feriado que uma enorme operação policial foi montada para desmantelar o que seria até então a última tentativa do movimento estudantil de organizar a luta contra a ditadura militar naquele explosivo ano de 1968, que acabou resultando na promulgação do Ato Institucional nº 5, o AI-5, decreto que deu lugar ao governo Médici, onde se intensifica a repressão militar.

O decreto ampliava os poderes formais da ditadura, que já havia acabado com os partidos políticos e o Congresso e criado dois partidos fantoches que eram a Arena (Aliança Renovadora Nacional), cassado direitos políticos de opositores, acabado com as eleições direitas para presidente, estados e capitais e realizado a intervenção nos sindicatos operários. No entanto, o principal é que o decreto é parte de um golpe dentro do golpe que visa a encerrar a oposição que se manifesta dentro do Congresso Nacional, fechando-o sob o eufemismo de “recesso parlamentar” por tempo indeterminado e, principalmente, a repressão às manifestações de massa e às organizações estudantis e operárias que haviam conseguido se rearticular sob o regime militar.

. Os militares no poder lançavam uma ofensiva total contra os trabalhadores e estudantes que naquele mesmo ano haviam demonstrado uma grande capacidade de mobilização contra o regime que, no entanto, teve como limitação decisiva o fato de ficar restrita a determinados centros como Osasco, na ocupação da Cobrasma, São Paulo e Rio nas manifestações estudantis, etc.
Neste dia 12 de outubro de 2008 completaram-se 40 anos da dissolução do 30º Congresso da União Nacional dos Estudantes pela brutal repressão exercida pela ditadura militar brasileira, na cidade de Ibiúna, um dos últimos episódios da luta das massas contra a ditadura neste interlúdio de 1968.
A entidade havia sido fechada durante o golpe de 64, e no dia 2 de abril, segundo dia do golpe, a sede nacional, localizada no Rio de Janeiro, foi incendiada pelos militares.
A pacata cidade de Ibiúna, interior de São Paulo, com seus apenas seis mil habitantes na época, foi o cenário que registrou uma das maiores operações de prisão em massa da história do Brasil. Os cerca de mil policiais da Força Pública e do DOPS destacados para invadir o lamacento sítio Murundu chegaram no dia do credenciamento dos estudantes.
Foram 920 presos, todos estudantes, na maioria universitários, vindos de todas as partes do País, que não chegaram nem mesmo a realizar o 30º Congresso da UNE, ainda clandestino. Vale lembrar que cerca de mil estudantes também foram presos durante o cerco policial na PUC (Pontifícia Universidade Católica) de São Paulo, em setembro de 1977, quando o movimento estudantil precedeu a luta do movimento operário contra a ditadura.

(Fonte: Causa Operária)

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11 comments

  1. Betty Almeida 17 março, 2012 at 10:04 Responder

    XXX Congresso – relato de uma delegada

    A UNE era ilegal e fazê-la funcionar ou participar de suas atividades era crime contra a Lei de Segurança Nacional , punido com prisão, mas mesmo assim, centenas de estudantes de todas as universidades do país disputaram as vagas de delegados. Na UnB inteira, inclusive no Instituto Central de Ciências Exatas, os estudantes votaram em urnas que circularam durante alguns dias pela universidade. Eu era o que se chamava um elemento de massa e fui eleita delegada justamente por meus companheiros de massa (atrasada, disseram adversários despeitados).
    Meu professor de Química Analítica, Clausius Lima, certamente me terá perdoado por eu ter dito a meus pais que iria fazer uma visita à Refinaria Gabriel Passos, em Minas, como parte das atividades da disciplina dele (essa visita estava programada e aconteceu mesmo, mais tarde). Ainda tive a desfaçatez de pedir a meu pai para comprar minha passagem de ônibus. Dormi na casa de Maria Antônia, na época noiva de Xico Chaves.
    Viajei para Belo Horizonte, onde aconteceria o regional, com Joaquim Nobre de Lacerda Neto, aluno da Faculdade de Tecnologia da UnB, militante da Política Operária (POLOP) e macaco velho em política estudantil. Ele era conhecido como Joaquim Proposta, porque nas discussões, sempre que já se estava quase chegando a um consenso, aparecia com uma nova proposta. Na viagem de ônibus para Belô, Joaquim me deu explicações detalhadas sobre a correlação de forças e as nuances entre as posições das várias tendências – o que era importante saber na hora das votações. Tarde da noite, andando pelas ruas de BH, à procura de um lugar onde comer barato, vimos um mendigo caído na calçada, sujo e rasgado, visivelmente bêbado. Joaquim olhou-me nos olhos e comentou apenas: “Regime desgraçado, não é?”
    A Comissão organizadora distribuiu pastas de papel cartão cinzento onde estava impresso em letras pretas: XXX Congresso da UNE. As críticas foram imediatas e fulminantes. Se alguém fosse apanhado com aquilo seria imediatamente enquadrado na lei de segurança nacional. Mas a pasta, muito simples, era bonita e bem que eu gostaria de ter podido guardar a minha.
    Para o nacional fomos de ônibus, em pequenos grupos, para diferentes lugares. Meu trajeto era por Campinas, onde andei de jipe, com os olhos fechados, sem ver absolutamente nada da cidade. Joaquim era quem dava as senhas ou contra-senhas nos nossos pontos. Almoçamos no bar do centrinho (Centro Acadêmico) onde comi folhas de mostarda passadas na manteiga e dormi na casa de uma aluna da Universidade de Campinas, com quem conversei um pouco no quarto, antes de pegar no sono. Ela estava muito cheia de atividades para pensar em participar daquele congresso, mas ia-se preparar para o do ano seguinte.
    No outro dia fomos para São Paulo, para um ponto em um grande bar com muitos vidros e espelhos, na Avenida São João. Estava cheio de gente com sacolas e mochilas, o que me deixou preocupada, pois era impossível que aquela aglomeração de jovens com cara de estudante não chamasse a atenção. Depois de outros traslados, houve o percurso pela rodovia , em uma carroceria de caminhão coberta por uma grossa lona amarela, jogada diretamente sobre as pessoas. Por vezes, sufocado sob a lona que pesava e esquentava ao sol, alguém passava mal e a lona era levantada para que o asfixiado pusesse a cabeça para fora e respirasse. Eu fiquei o tempo todo bem quietinha, perto da lateral da carroceria do caminhão, onde corria vento. O pessoal que ficou no meio é que sofria. Fiquei imaginando o que pensaria quem visse passar aquele caminhão, coberto com uma lona que se remexia o tempo todo e de onde às vezes brotavam cabeças.
    Na entrada do sítio onde o congresso ia acontecer, as credenciais dos delegados eram cuidadosamente examinadas e conferidas. Um amigo secundarista do Partido Operário Revolucionário-Trotskista (POR-T) não conseguiu provar que era delegado nem observador e teve de dar meia-volta com a mala cheia de livros e documentos que pretendia vender e distribuir durante o congresso, para divulgar ideias e ajudar as finanças de sua organização.
    Chegamos já de noite a uma casa em construção, onde dormimos sobre o chão de terra. Joaquim teve um começo do que parecia uma crise de epilepsia e foi atendido por um estudante de medicina, um paulista alto. Mais tarde vi a foto do médico Primo Alfredo Brandmüller em uma reportagem de jornal. Ele insistia para que as circunstâncias da morte do operário metalúrgico paulista Olavo Hansen fossem investigadas.
    No dia seguinte, depois de rodar um pouco na lama, fomos recebidos no local propriamente dito do congresso, um fundo de vale, pelo barbudo alto da comissão de segurança, Paulo de Tarso, que empunhando um fuzil (ou espingarda – não conheço armas, só sei que o cano era comprido), com cartucheiras cruzadas no peito, nos descreveu a topografia e as condições de segurança do lugar, assegurando-nos que estávamos bem protegidos, que a polícia e o exército não conseguiriam entrar naquele vale rodeado de colinas e que teríamos por onde sair em caso de cerco.
    Joaquim, Luciano, Paulo Speller, Lenine, Xico Chaves, Fernando Casadei, Reginaldo, Sônia, Aldir, eu e os outros delegados de Brasília tomamos nosso frugal café da manhã enrolados nos cobertores listrados de marrom e bege do Conjunto Residencial da Universidade de São Paulo (CRUSP) e participamos da primeira sessão, no dia dez de outubro, presidida pelos diretores da UNE – Travassos, Edson Soares, Luís Raul Machado, José Dirceu e outros, além de Antonio Guilherme Ribas , da União Paulistana dos Estudantes Secundaristas (UPES). Não lembro muito bem do que foi tratado, creio que houve apenas a abertura e a validação de credenciais das delegações. Eram comuns as contestações de credenciais, o que gerava longas e por vezes ásperas discussões.
    Na hora do almoço, para se servir de feijão e batata cozida foi preciso passar bastante tempo em uma longa fila. Embora simples, a comida estava boa, a batata cozida no ponto, o problema era a parcimônia com que era servida. Entrei na fila uma segunda vez, mas a menina que servia me reconheceu e recusou-se a me dar mais comida. Não insisti, pois ela tinha razão – havia muita gente para alimentar. Eu tinha visto essa moça remexendo sem parar uma grande panela de arroz, com uma comprida colher. Quando observei que aquilo faria o arroz grudar, ela respondeu, com um sorriso superior, que era justamente o contrário. Acho que foi esse incidente que a fez lembrar de mim.
    Esqueci a fome e entre a plenária, reuniões das delegações, reuniões de organizações e conversas com delegados de outros estados, passou-se o dia. À tardinha, alguns corajosos, apesar do frio, foram tomar banho na cachoeira que havia por perto. À noite, fiquei conversando com um rapaz ruivo do sul e acabei cochilando sobre o ombro dele.
    Dormi junto do pessoal da minha delegação, em fila dupla (só dava para ficar de lado) sobre os degraus não muito largos cavados pela tropa de Paulo de Tarso na terra fria e meio úmida, que eram o próprio anfiteatro da plenária, sob uma grande coberta de lona, que nos protegia da chuvinha fina e gelada. Fazia muito frio. Os cobertores do CRUSP e o arranjo corpo a corpo para dormir nos aqueciam.
    Os moradores da região já tinham percebido que algo de estranho estava acontecendo. Jovens barbudos indo à padaria comprar duzentos pães deixaram os habitantes da cidade curiosos e desconfiados. Houve um bêbado que apareceu na entrada do sítio, para cobrar uma dívida. Sem conseguir afastá-lo, um companheiro da comissão de segurança perdeu a paciência e ameaçou-o com um revólver. O bêbado assustou-se e foi embora, mas acabou contando a história à polícia local . O relatório do DOPS de São Paulo, porém, afirma que o SS já sabia do local desde os primeiros dias de outubro.
    Vladimir Palmeira conta que o acordaram de madrugada para informar que a polícia estava a doze quilômetros dali. Disse para avisarem Travassos e ao ouvir que a Força Pública de São Paulo provavelmente só chegaria lá pelas cinco da tarde, pediu para deixar o pessoal dormir – depois do café poderia ser feita uma reunião para decidir a saída – e ele próprio voltou a dormir. Segundo Paulo de Tarso , ao ser avisado, Travassos respondeu: “Vocês sabem que vão perder e estão dando um golpe. Vamos levar a decisão para a plenária, amanhã de manhã”. Ainda segundo Paulo de Tarso, poderiam ter sido retiradas do local cerca de cento e cinquenta pessoas, as lideranças nacionais e os mais procurados – os que estavam com prisão preventiva decretada, por exemplo. Mas, sem tempo nem condições para tomar uma decisão conjunta, ficaram todos, lideranças nacionais e locais, junto com os delegados de base e os observadores que tinham vindo do país inteiro.
    Não se tomou o café da manhã, a plenária nem chegou a começar. Desde cedo, em vez do único fuzil (ou seria espingarda?) de Paulo de Tarso, havia muitas dezenas de outros e também metralhadoras, empunhadas, depois das rajadas desferidas para o alto, por soldados que escoltavam uma imensa fila – de oitocentos, mil, mil e duzentos estudantes – a imprensa não chegou a um acordo sobre o número certo. Depois de muito caminhar, chegamos a um campo aberto e enquanto esperávamos ser transportados para São Paulo, sob um sol já alto, soldados distribuíram pedaços de pão em grandes cestos. Embora visse Soares, Dirceu,Travassos e Vladimir servindo-se nos cestos, em protesto pessoal decidi não comer daquele pão da repressão.
    Havia uma profusão de jipes, caminhões e corações-de-mãe da Força Pública de São Paulo. Foram também requisitados ônibus. Fomos embarcados nos veículos, que formaram um grande comboio rumo a São Paulo. Uma moça alta, negra, escreveu em um cartaz improvisado sobre uma folha de papel que éramos estudantes presos pela ditadura por lutar pela liberdade e colocou-o atrás do vidro da janela. Cruzávamos as ruas de São Paulo e quando o trânsito engarrafava ou o comboio parava em algum sinal os passageiros dos ônibus que passavam liam nosso cartaz.
    No DOPS fomos qualificados e identificados, nossas impressões digitais das mãos direita e esquerda coletadas e fotografados de frente e perfil. Os serviços de segurança ficaram, assim, com a ficha completa de todas as lideranças nacionais, de base e intermediárias e mais de um bom número de simpatizantes do movimento estudantil em todo o país. Levaram-nos depois para o presídio Tiradentes, moças separadas dos rapazes. Fomos recolhidas às celas de chão de tábuas, completamente vazias, exceto por algumas folhas de jornal. Ao fundo, paralela à parede onde estava a janela com grades, uma meia parede guardava um espaço onde havia uma latrina escura e um cano de água.
    Cantamos o hino da proclamação da república, aquele que pede à liberdade que abra as asas sobre nós. Os rapazes passaram pelo corredor e nós os aplaudimos, solidária e entusiasticamente. Os diretores da UNE e outras lideranças vieram no fim, algemados e também receberam nossos calorosos aplausos.
    Na cela estava uma paulista loura, baixinha e cheinha, de olhos claros, filha de alguma autoridade do sistema. Ela recebeu um bolo da família e dividiu-o com as outras. O bolo tinha uma cobertura branca, de creme, era macio e gostoso. O recebimento desse bolo suscitou desconfianças – estranhou-se que a família da menina tivesse sabido da queda do congresso tão cedo, já na mesma tarde, quando estávamos todos incomunicáveis.
    Como no samba de Noel, nossas camas foram as folhas de jornal no chão de tábuas – limpo, justiça se faça – onde dormimos bem juntas umas das outras (não havia muito espaço) vestidas com nossos casacos ou enroladas em cobertores do CRUSP. Quando amanheceu, uma amiga da menina do bolo perguntou: “Fulaninha, o sol já nasceu quadrado?” Deram-nos café preto em latas reaproveitadas de óleo para carros.
    Uns dois ou três dias depois fomos levadas ao DOPS de São Paulo para prestar depoimento. O major Clidenor Moura, do SNI, tinha vindo de Brasília para nos interrogar. Era meio amarelado, tinha uns olhos escuros e perscrutantes debaixo do arco amplo e fino das sobrancelhas pretas e uma boca larga, com lábios finos e pálidos. Parecia um sapo e me olhou com sarcástica ferocidade, dizendo que não adiantava fingir, ele já tinha minha ficha, eu era muito conhecida. Respondi que era certamente conhecida por meus colegas e professores.
    Devíamos dizer que estávamos participando de uma reunião nacional de estudantes, nunca do congresso da UNE, ilegal e atentatória à segurança nacional. Eu disse que estava participando de um encontro nacional de estudantes perfeitamente normal e legal, tanto que minha passagem tinha sido comprada por meu próprio pai, mas quando ele me perguntou qual era minha ideologia, eu não soube o que dizer (depois ouvi o Aldir dar a resposta certa: democrata). Disse que não estava satisfeita com o desfecho, mas o escrivão registrou que eu estava arrependida. Sentindo-me coagida, com o major Clidenor a me encarar com seus venenosos olhos de cobra, acabei assinando aquilo mesmo, sem conseguir conter as lágrimas. Um policial passou dizendo ao escrivão que tomava meu depoimento que ele tinha pegado dose para elefante, mas o escrivão respondeu que não fora isso o que tinha ouvido.
    Depois o major mandou levarem-nos para um pátio iluminado de sol e mandou que nos filmassem, de frente, perfil, costas, paradas, andando, aproximando-nos, afastando-nos da câmera, em close, primeiro plano, plano médio, de conjunto, sozinhas, em grupo e presumo que tenha pensado em virar-nos de cabeça para baixo e pelo avesso. Dizia, certamente achando-se espirituoso, que iria passar aquele filme no auditório Dois Candangos e convidaria o noivo de Arlete, uma estudante de Minas Gerais, para assistir. Eu tinha arranjado emprestados uns óculos de grau fortíssimo, com lentes grossas que me escondiam os olhos, prendi meus cabelos que chegavam aos ombros em um cachecol com as pontas amarradas sob o queixo e acreditei que assim estava bem disfarçada. Os rapazes foram filmados nus “para que se visse exatamente como andavam”, disse o major Clidenor .
    Em casa, em Brasília, Tereza, minha irmã mais nova, cuja tranquilidade e inocência meus pais queriam preservar não comentando assuntos graves em sua presença e conseguindo exatamente o efeito contrário, nunca os ouviu fazerem a menor crítica ou reprimenda a mim e apenas via minha mãe olhar angustiada através do combogó da área de serviço do apartamento da 308 as manifestações estudantis que passavam pela W3.
    Mas meus pais foram informados e minha mãe veio correndo para São Paulo, solidariamente acolhida pelos pais da namorada de meu irmão. Regina logo pôs minha mãe em contato com a União das Mães contra a Violência, que reunia senhoras da sociedade paulistana ao lado de católicas praticantes, militantes da Ação Popular e Dona Terezinha Zerbini, esposa do general Euryale Zerbini, que também foi presa, porque tinha ajudado a a arranjar o local do congresso.
    Minha mãe apreciou muito a atenciosa consideração com que ela própria e as outras representantes da União das Mães Contra a Violência foram recebidas por Dona Maria do Carmo Abreu Sodré, esposa do então governador biônico de São Paulo. Já o governador declarou aos jornais: “Agi com energia para reprimir a agitação e a subversão quando determinei, após horas de angústia e apreensão, a prisão de estudantes subversivos que participavam do congresso da UNE ”.
    Do lado de fora do presídio Tiradentes, as Mães, de mãos dadas com estudantes de São Paulo e também com políticos, como Ulysses Guimarães (em quem minha mãe votaria mais tarde, por gratidão), enfrentavam PMs a cavalo e jogavam bolinhas de gude no chão. Graças às Mães, promoveu-se uma grande agitação política em todo o país e nossa situação mudou. Não estávamos mais incomunicáveis. Elas tiveram boas atitudes práticas, mandando-nos pacotes com cobertores e artigos de higiene. Minha cunhada, sem saber se havia meio de tomar banho ali, mandou-me um vidro grande de colônia. Passei a dormir bem aquecida sob um macio cobertor de listas vermelhas e brancas, que ao ser solta doei ao CRUSP. A comida melhorou, o pão passou a vir com manteiga, mas eu não conseguia comer e continuei mais ou menos em jejum mesmo depois da greve de fome terminar.
    Fomos levadas para uma cela maior, no térreo, que tinha até chuveiro com água quente. Diva, uma menina que tinha ficado escondida no mato durante alguns dias, afinal foi capturada, cheia de arranhões e levada para nossa cela.
    Dona Maristela, muito ativa e bem entrosada com a União das Mães, conseguiu até entrar no Presídio Tiradentes. Chorei ao vê-la chegar, mas enxuguei logo as lágrimas, para que ela não as visse. Depois de abraçar-me, beijar-me e certificar-se de que eu estava bem, ela não ficou muito tempo comigo: visitou outras celas, distribuiu pacotes, anotou números de telefone e recados, que transmitiu mais tarde.
    Amontoadas na cela, respondíamos a várias chamadas, de dia ou de noite e ficávamos preocupadíssimas enquanto as companheiras grávidas levadas para “exames médicos” não voltavam. Brincávamos com os bebês ainda imperceptíveis nas barrigas das mães, chamando-os de Chezinho, Tunguinho e assemelhados, conforme as tendências políticas das mães e das tias de ocasião.
    Tinha havido um festival de música popular e eu era a única que não conhecia Para não dizer que não falei de flores, de Geraldo Vandré. Ali no Presídio Tiradentes, minhas companheiras de cela cantaram em uma só voz a canção inteira para mim.
    Fizemos amizade com a carcereira, que não era policial, mas uma presa de bom comportamento, cumprindo uma longa pena por ter matado o marido a machadadas. Perguntaram-lhe por que e ela respondeu com um sorriso contrafeito que ele a perturbava muito.
    Paulo Speller e Lenine, da UnB, tinham prisão preventiva decretada. Os outros foram soltos. Minha mãe me esperava do lado de fora. A mãe de Xico Chaves, Dona Stella Bastos também estava ali. Ela havia sido oradora em uma passeata em Brasília, conclamando as mães a acompanharem os filhos em defesa da democracia. Seu outro filho, Aurélio Wander Bastos, recém-formado em Direito na UnB, tinha sido preso alguns dias antes. Minha mãe e Dona Stella trocaram um longo e comovido abraço.
    Outros companheiros foram recambiados para seus estados em ônibus, sob escolta policial. Socorro voltou para a Paraíba com seu noivo. Algumas delegações, como a do Rio, viajaram algemadas aos braços das poltronas do avião. Para muitos, como Lenine e Speller, começava um longo encarceramento. Outros, como Helenira Rezende Nazareth, foram transferidos para o Carandiru.
    Apenas cerca de setenta, entre as muitas centenas, foram enquadrados na Lei de Segurança Nacional. Desses, muitos foram condenados por participar do congresso, como Lenine e Paulo Speller, que passaram mais de um ano presos, em São Paulo e Brasília. Matta Machado cumpriu oito meses de reclusão no DOPS de Belo Horizonte. Gildo Lacerda, que ainda não tinha antecedentes, foi solto depois de passar quarenta dias preso. Antonio Guilherme Ribas, presidente da UBES, passou um ano e meio na prisão. Solto em abril de 1970, tornou-se clandestino. Franklin Martins foi solto por habeas corpus no dia 12 de dezembro, um dia antes do AI-5. José Dirceu, Travassos e Vladimir não tiveram essa sorte. O habeas corpus deles demorou um dia a mais e com o AI-5 eles não saíram . Só foram libertados quase um ano depois, trocados pelo embaixador americano Charles Burke Elbrick, sequestrado em ação conjunta pelo Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8) e pela Ação Libertadora Nacional (ALN) em setembro de 1969.
    Honestino Monteiro Guimarães, presidente da Federação dos Estudantes da Universidade de Brasília, estava preso em Brasília, desde a invasão da UnB do dia vinte e nove de agosto. Seria solto no começo de novembro, por habeas corpus. Passaria algum tempo escondido e em dezembro, com o AI-5, cairia na clandestinidade.
    Na UnB os delegados da UNE reuniram-se em um auditório. Jorge Jardim, presidente do Diretório Acadêmico de Ciências Exatas (DACE) trouxe-me o voto para a presidência da UNE em um envelope fechado. Como não tinha havido nenhuma consulta específica ou votação entre os estudantes, eu, como delegada eleita para o Congresso, achei que tinha tanto direito de votar segundo minhas próprias convicções quanto o colega presidente do DACE. O voto era aberto e quando declarei o meu, fui asperamente criticada e tachada de traidora do movimento estudantil pelos presentes, em maioria partidários ou simpatizantes da corrente que apoiava Jean-Marc von der Weid para presidente da UNE. Para piorar minha situação, um delegado partidário de Jean-Marc votou em Dirceu, acatando, disciplinadamente, a indicação de seu DA.
    Mas Honestino, que presidia a sessão, respeitou meu voto e ainda defendeu-me. Seus companheiros, inconformados com aquela demonstração de tolerância política e furiosos ao vê-lo abraçar-me, aconselharam-no, com a voz um pouco acima do tom normal, a deixar de ser conciliador.

  2. Ana Bursztyn-Miranda 26 março, 2012 at 16:25 Responder

    Mui prezado Aluizio,

    Em ‘Mulheres de Ibiúna’, obrigada pela parte que nos toca, sou a terceira do álbum. Cabe aqui homenagear aquelas que, pouco tempo depois do XXX Congresso foram assassinadas pela ditadura:

    Helenira Rezende – Letras USP

    Maria Augusta Thomaz – Filosofia Sedes Sapientiae SP

    Ranúsia Alves Rodrigues – Enfermagem – UFPE

    E, se eu esqueci alguma, favor me lembrar.
    Abç,
    Ana

  3. CRISTIANE 24 dezembro, 2012 at 05:18 Responder

    Ninguem vai ler esse comentário mas eu preciso registrar: *O* *O* só agora eu vi !ANA BURSZYTIN MIRANDA O MITO!!!! comentou aqui em cima morri!!!!
    Salve Salve ALN ! Um dos maiores sonhos da minha vida é conversar com uma ex-guerrilheira pois nasci no ano da constituição. Ana Burszystin Miranda *_*! *_*! A mulher que conviveu com outro Mito Ana Maria Nacinovic! Dona Ana Bursystin a senhora era F…! Contra DOI CODI Contra DOPS Contra MAPPIN (Sim! eu já li sobre sua vida mitológica Dona Ana) Ela não nasceu estreiou no mundo essa mulher “mitava” nos anos 70! O site precisa fotografar as guerrilheiras vivas.

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