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Documentos do acervo da Comissão Estadual Rubens Paiva, do Estado de São Paulo

Em 1973, Alexandre Vannucchi Leme tinha 22 anos e cursava o quarto ano de Geologia na USP. Era um ótimo aluno, foi o primeiro colocado no vestibular, participava do movimento estudantil e militava no grupo clandestino Ação Libertadora Nacional (ALN). Na manhã de 16 de março, foi preso por agentes do II Exército, pertencentes ao Destacamento de Operações de Informações do Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-Codi). Até hoje não se sabe ao certo como e onde Alexandre foi capturado, mas o fato é que sobreviveu por pouco mais de 24 horas nas mãos dos torturadores do DOI-Codi.

A confirmação de sua morte veio somente uma semana depois, com a publicação de um comunicado policial. A versão oficial sustentava que Alexandre morrera a caminho do hospital, depois de ser atropelado por um caminhão. Ele teria sido conduzido pelos órgãos de segurança até o bairro do Brás, para mostrar onde tinha um “ponto” com um companheiro de grupo, e teria tentado fugir.

RELATO DO CASO

COMISSÃO ESTADUAL DA VERDADE RUBENS PAIVA, DO ESTADO DE SÃO PAULO)

Nasceu em 5 de outubro de 1950, em Sorocaba (SP), filho de José de Oliveira Leme e Egle Maria Vannucchi Leme. Morto em 17 de março de 1973. Militante da Ação Libertadora Nacional (ALN).

Alexandre era filho de professores. Nasceu em uma família católica, cuja mãe tinha um irmão padre e três irmãs religiosas. Teve uma vida escolar exemplar em Sorocaba e Itu (SP). Cursava o 4º ano de Geologia na Universidade de São Paulo quando foi preso pelos agentes do DOI-CODI/SP, em 16 de março de 1973, por volta das 11 horas.

Era o representante dos estudantes na Congregação do Instituto de Geociências e foi visto pela última vez na USP, em 15 de março de 1973, quando assistia às aulas. Como era o início do ano letivo, permaneceu em Sorocaba, na casa dos seus pais, onde passou as férias, até o dia 12 de março. Ao viajar para São Paulo, despediu-se dos pais e irmãos prometendo voltar no domingo seguinte para o almoço. Como ele não voltou, sua mãe se preocupou, pois convalescia de uma operação de apêndice.

Nilmário Miranda e Carlos Tibúrcio relatam em seu livro Dos Filhos deste soloque: “Dezesseis de março, sexta-feira: Alexandre é preso, às 11h, por agentes do DOI-Codi do II Exército, São Paulo. Ninguém presencia a sua prisão. (Hoje se sabe que ela decorreu da delação do militante da ALN João Henrique Ferreira de Carvalho, o Jota, que passou a trabalhar para os órgãos repressivos). Durante todo o dia, é torturado pela Equipe C, integrada pelos delegados Dr. Jorge, Dr. Tomé, pelo escrivão Gaeta, pelo tenente PM Mário, pelo investigador Oberdam e pelo carcereiro Marechal. As torturas prolongam-se pela noite. Os 20 presos políticos que se encontram nas sete celas do DOI-Codi ouvem os gritos e gemidos de Alexandre. Nos intervalos da tortura, ele é reconduzido ao x-zero, a cela forte, totalmente escura. Dezessete de março, sábado: Alexandre é visto quando vai sendo conduzido para a sala de torturas, ainda caminhando com os próprios pés. Agora, seu suplício está a cargo da Equipe A, dos delegados Dr. José e Dr. Tomé e outros. Ao meio-dia, os presos políticos vêem que ele é trazido de volta para a solitária já carregado. Entre 16h e 17h, o carcereiro Peninha vai buscá-lo para nova sessão de tortura e o encontra morto. Começa um corre-corre nervoso. Os presos políticos recebem ordem de ficar no fundo das celas para nada verem. Os torturadores Caio, Alemão, Silva, Rubens, Dr. Jacó, Dr. José vão todos ao x-zero ver o jovem morto. Alexandre é retirado da cela, que em seguida é lavada. Todas as outras são revistadas à procura de objetos cortantes. O carcereiro diz que Alexandre tentou o suicídio e fora levado ao hospital”. (Dos Filhos deste solo, página 158 e 159).

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