EPIDEMIA CENSURADA. COMO A DITADURA MILITAR ESCONDEU EPIDEMIA DE MENINGITE QUE ASSOLOU O BRASIL EM 1974

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Carlos Madeiro

Colaboração para o UOL, em Maceió

14/06/2020 04h00

Nos anos 1970, em plena ditadura, o país enfrentou uma grave epidemia de meningite que superlotou hospitais, cancelou eventos e fez com que muitos brasileiros perdessem a vida. Mesmo ciente da gravidade do problema, o então governo militar atuou para proibir a divulgação dos números oficiais de casos e mortes —até hoje não se sabe a quantidade exata de casos e mortes pela doença naquela década.

Documentos do Arquivo Nacional mostram como o regime militar atuou não só para censurar os veículos de comunicação, como também espionou, perseguiu e até deu ordens para que pessoas que estavam informando a população sobre a doença fossem investigadas. Segundo os papéis confidenciais, o regime aparentava ter dois objetivos: não causar alarme à população e, principalmente, não ferir a imagem do governo em plena época do “milagre econômico.

A gravidade do problema, entretanto, era conhecida da cúpula do governo. Em um informe de 31 de julho de 1974, o SNI (Serviço Nacional de Informações) comunicou ao então presidente, o general Ernesto Geisel, que a epidemia teria começado com um surto em Osasco (na Grande São Paulo) e se alastrado pelo país causando graves problemas. “Sabe-se de sobejo que o alastramento do mal encontra campo propício nos aglomerados populacionais, nos ambientes de pouca higiene e na estação invernal. Nessas condições a cidade de São Paulo é um meio ambiente ideal, sabendo-se que a cidade não é servida de esgotos em dois terços de sua área e 50% da população não é servida por rede de água.

O informe ainda explicitou que, se não fossem tomadas medidas preventivas em São Paulo, “pode-se prever que anualmente a cidade será atormentada pela incidência dessa doença”. Entretanto, alerta também que isso “terá reflexos negativos no curso da campanha eleitoral que agora se inicial.” Diante da constatação, e com a eleição daquele ano, o documento finaliza dizendo que o momento político poderia ser desestabilizado por oposicionistas, padres progressistas e imprensa gerando “sérios inconvenientes à política do governo federal.

Radiograma ordenou veto Apesar da ciência da gravidade, o governo manteve durante quase todo período uma proibição da divulgação dos dados. Um outro documento recuperado do Arquivo Nacional, é de um radiograma do dia 30 de julho 1974 em que o então diretor da Polícia Federal, Moacyr Coelho, diz que deve ser seguida a ordem de manter proibida a divulgação de “dados numéricos e gráficos sobre meningite.”

 

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Arquivos para download:

Aluizio Palmar

Os documentos dos arquivos da ditadura devem ser vistos com o olho crítico da dúvida, pois foram escritos por pessoas treinadas para mentir, contrainformar, caluniar, prender, torturar e matar.
Espero que Documentos Revelados contribua para a compressão dos acontecimentos das décadas passadas, dos métodos de controle usados pelo Estado Policial e estimule os visitantes a ter um compromisso ativo com a democracia.
Documentos Revelados é resultado de anos de garimpagem em arquivos públicos e particulares, de caixas e pastas, repletas de mandados de prisão, informes,radiogramas, ofícios, dossiês,relatórios e outros tipos de documentos produzidos pela burocracia policial.

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1 comentário

  1. JOSE ROBERTO PASSOS JORGE diz:

    Est circular na verdade é de 30/7/1972. A Epidemia eclodiu no inverno de 1972 e com o descontrole foi censurada a divulgação e a implementação das medidas sanitárias para não prejudicar o grande desfile militar programado para o 7 de setembro – o famoso Sesquicentenário da Independência. Sei bem por que em no mês de Agosto/72 fiz o estágio de Moléstias Infecciosas no Hosp. Emilio Ribas e foi uma loucura: os pacientes vinham em Kombis, caminhões, se amontoavam nas salas e faziamos as punções às vezes até sem luvas!!! Milhares de pessoas morreram ou ficaram com graves seqüelas. NADA FOI DIVULGADO ATÉ DEPOIS DO DESFILE!!!

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