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O croquis anexado a essa publicação foi desenhado em julho de 2001 por uma pessoa que se identificou como “militar arrependido”. A tal pessoa rabiscou o desenho na presença de José Carlos Mendes, que militou na VPR e participou da ação que libertou 70 presos político

Durante esses últimos 18 anos eu guardei o croquis e essa é a primeira vez que a torno pública, depois de ter buscado identificar o tal “militar arrependido”, a partir de um retrato falado feito pelo Zé Carlos.

Tenho algumas pistas e uma delas é que o informante foi membro do S2 no 1 Batalhão de Fronteiras de Foz do Iguaçu entre 72 e 76.

Abaixo e anexado em PDF segue texto explicando como aconteceu o contato com o “militar arrependido”.

Também, em PDF e JPG está anexado o croquis e matérias publicadas na época pela Folha de Londrina

“No dia 3 de julho de 2001, uma ligação alvoroçou minha família. Eunice atendeu ao telefone e do outro lado uma pessoa que não se identificou procurou por mim dizendo apenas que era um antigo companheiro do MR8. A pessoa não deixou nenhum número de telefone para que eu pudesse retornar a ligação. Quando cheguei, minha mulher falou sobre o telefonema. Achei muito estranho, pois mantenho contato permanente com todos os meus companheiros da época e nenhum deles iria me procurar daquele jeito.

Ainda no mês de julho de 2001, a tal pessoa fez novas ligações, porém não me encontrou em casa em nenhuma das vezes. Até que em um certo dia, numa dessas casualidades, eu atendi ao telefone e era o dito-cujo que disse estar de passagem por Curitiba e precisava falar comigo sobre a Operação Condor. Demonstrando ansiedade na voz, ele afirmou ainda que estava num telefone público, que iria mudar de aparelho e voltaria a telefonar em seguida. Esperei a ligação noite adentro, e ela não aconteceu. Fiquei, como é normal, curioso e apreensivo. Quem seria? Por que não ligou novamente?

Alguns dias depois, a tal pessoa voltou a telefonar e uma de minhas filhas atendeu e pediu para ele ligar mais tarde, o que só veio a acontecer por volta das 22 horas. Desta vez eu estava em casa e atendi o telefonema. Do outro lado da linha alguém se identificou dizendo que era um ex-oficial do Exército, que estava de passagem por Curitiba e possuía informações sobre o local onde foi enterrado o grupo de Onofre Pinto. Disse ainda que não queria aparecer, pois estava tentando uma reintegração ao Exército e tinha receio de se prejudicar.

Diante dessas informações, eu sugeri para ele falar pessoalmente com algum dos meus amigos curitibanos. O sujeito ficou cabreiro, disse que não queria “nada de imprensa”, mas mesmo assim topou encontrar-se com alguém enviado por mim. Combinamos que deveria voltar a me chamar dentro de meia hora.

Nesse meio tempo tratei de procurar em Curitiba alguns amigos que estivessem inteirados do assunto e pudessem ir ao encontro. Liguei para o Vitório Sorotiuk, que foi meu colega de cela no Presídio do Ahú. Expliquei assim por cima o que estava acontecendo e perguntei se ele poderia encontrar-se com o cara. Vitório me disse que não seria possível sair de casa naquele momento e que era para o cara deixar a informação por escrito na portaria do Edifício Asa, onde está localizado seu escritório de advocacia. Não cheguei a descartar totalmente a sugestão do Vitório, reservei-a como uma última cartada caso eu não conseguisse encontrar alguém com possibilidade de se encontrar-se com o “informante”.

Enquanto isso o tempo ia passando e eu era todo emoção. Finalmente aquele segredo da época da ditadura, guardado a sete chaves, seria aberto e o País ficaria sabendo o destino que foi dado ao último grupo de ação armada. Na corrida contra o relógio eu ia tentando ligar para outras pessoas e não encontrava ninguém em casa. Parecia que todos os meus amigos haviam combinado sair naquela noite. E assim foi até que eu consegui falar com José Carlos Mendes. Pois bem, expus o caso para o Zé, que prontamente atendeu ao meu pedido e indicou para o encontro um dos bares que ele costuma freqüentar.

Foi na mosca. O Mendes era o cara certo, havia militado na Vanguarda Popular Revolucionária, conhecia o Negão (assim a gente chamava o Onofre). Além disso, esteve ligado ao trabalho de organização de bases para a reativação da luta armada que a VPR desenvolveu na fronteira do Brasil com a Argentina, na região do Alto Uruguai em 1972/73. Agora era só esperar o “informante” voltar a ligar.

Já eram quase onze da noite quando o “informante” voltou a ligar. Justificou a demora dizendo que teve de andar muito até encontrar um orelhão onde pudesse falar com segurança. Achei que estava exagerando mas entendi que até os ex-agentes da repressão têm o direito de ser paranóicos. Psicopatias à parte passei a ele o local do encontro com José Carlos, além de suas características físicas e a roupa que estaria vestindo.

Não demorou nem quinze minutos e o Zé ligou para mim, dizendo que naquele momento estava acompanhado de sua namorada e conversando com a tal pessoa no bar. Disse ainda que havia alguma coerência no que dizia o tal militar arrependido. Zé Carlos passou o telefone celular para o tal ex-militar e eu perguntei-lhe por que havia me escolhido, que respondeu dizendo ter sido no passado membro do serviço de inteligência do Exército e que na década de 70 tentou localizar-me dentro e fora do país. Disse ainda que sua decisão de procurar-me para conversar aconteceu após ler a entrevista que eu havia dado para a Folha do Paraná, principalmente devido à minha declaração de que a procura pelos corpos não tinha nenhum objetivo de vingança, mas sim resgatar a trajetória dos companheiros para a história e os restos mortais para seus familiares.

O “ex-oficial” revelou que apesar de não ter participado das mortes estava tendo uma crise de consciência e – “como pai de família e cristão” – havia decidido revelar a localização da cova. Finalmente nos despedimos e ele se comprometeu a mandar alguns documentos e fotos para um endereço dado pelo José Carlos. Mais tarde, já em casa, o Zé ligou para mim e disse ter um croqui desenhado pelo tal ex-oficial e que, segundo o que ele havia dito, os corpos teriam sido enterrados numa vala comum na fazenda de Fouad Nacli – ex-deputado da extinta Arena (Aliança Renovadora Nacional), partido que deu sustentação à ditadura militar – localizada na estrada que liga Nova Aurora a Formosa, no Oeste do Paraná, e que a vala foi cavada no eixo da pista de um antigo campo de aviação da fazenda.

        Ainda naquele mês de julho viajei para Nova Aurora, cidade da região Oeste paranaense e que está situada a 567 quilômetros de Curitiba, 189 km de Foz do Iguaçu e 63 km de Cascavel. Sem maiores dificuldades encontrei a antiga pista de pouso, na ocasião tomada por plantação de trigo. ”

Texto extraído do livro  “Onde foi que vocês enterraram nossos mortos”

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