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O editor

Aluizio Ferreira Palmar, nasceu em maio de 1943, em São Fidélis, Estado do Rio de Janeiro. 

Seus primeiros contatos com as idéias de esquerda foram por meio dos livros emprestados pelo doutor Cunha, um geólogo, que pesquisava o rico solo de malacacheta e dava aula no Colégio Fidelense. Mas foi, graças a um grupo de operários calceteiros, que pavimentavam as ruas de São Fidelis, que ele passou a ter uma visão mais ampla das lutas  da classe trabalhadora. Esses operários eram base do PCB na cidade de Campos dos Goytacazes.

Em 1958, sua família saiu de São Fidelis e foi morar em São Gonçalo.  São Fidélis não oferecia condições para que Aluízio e seus irmãos continuassem os estudos. Seu pai era comerciante de secos e molhados e queria que seus filhos tivessem o estudo que ele não teve.

Aluízio começou sua militância política aos 16 anos, participando da diretoria do Grêmio Estudantil do Liceu Nilo Peçanha, em Niterói e na Federação dos Estudantes Secundários do Estado do Rio de Janeiro.

Em 1960, ingressou no PCB, atuando junto com Rodolfo Veloso, Jonas Zoninsein, Nilson Marques, Zélia Jardim, Miguel Batista e outros, na organização das bases partidárias em Niterói e São Gonçalo.   

Com o golpe militar de 1964, Aluízio teve que recuar para o interior, devido a perseguição da ditadura recém instalada no País. Voltou para Niterói em 1965 e ingressou na Universidade Federal Fluminense, onde cursou Ciências Sociais.

Com a intensificação da repressão, Aluízio Palmar deixou a faculdade e passou a militar integralmente na clandestinidade. Nesse mesmo período, criou o MR8, juntamente com outros dissidentes da linha política do PCB.

Em 1967, deslocou-se para a região Oeste do Paraná, com o objetivo de preparar as bases da resistência à ditadura no campo. Para tanto, juntamente com Nielse Fernandes e Bernardino Jorge Velho, organizou quase uma dezena de bases camponesas.  

Em 1969, foi preso e passou pelos centros de tortura do Paraná e Rio de Janeiro. No Rio, após passar pelos presídios das ilhas das Flores e das Cobras, foi transferido para cumprir pena no Presídio da Ilha Grande.

Em janeiro de 1971, saiu da solitária, onde estava preso, para o exílio, graças a troca de 70 prisioneiros políticos pelo Embaixador da Suíça no Brasil.  

No Chile, Aluízio ingressou na Vanguarda Popular Revolucionária, juntamente com Umberto Trigueiros Lima e Rogério Silveira, também oriundos do MR8.

Em 1972, saiu clandestinamente do Chile com objetivo de criar uma base tática da VPR na fronteira da Argentina com Santa Catarina e Rio Grande do Sul.

Em setembro de 1973, com a queda do governo da Unidade Popular e a diáspora dos exilados brasileiros que se encontravam no Chile, notadamente os membros da VPR , Aluízio deixou a região de fronteira e foi viver clandestinamente na província de Chaco, Argentina, onde nasceram dois de seus filhos.

Inquieto, como a maioria da militância conhecida como “geração 68”, Aluízio atuou de 1973 a 1979, como base de apoio do Ejercito Revolucionario del Pueblo –  ERP. Em maio de 1979, devido ao recrudescimento da repressão na Argentina, retornou clandestinamente ao Brasil e se estabeleceu no interior do Estado do Rio de Janeiro.

Em agosto de 1979, com a Anistia política, Aluízio deixou o Rio e foi para Foz do Iguaçu, Paraná, onde já estavam sua mulher e três filhos. Florita , que nasceu quando Aluízio encontrava-se preso, Alexandre e Andrea, que nasceram no período de clandestinidade na Argentina.

Estando poucos meses em Foz do Iguaçu, Aluízio foi convidado pelo Bispo local para ser conselheiro da Comissão Justiça e Paz, e como tal, atuou em defesa de agricultores despejados de seus sítios e combateu as costumeiras torturas na delegacia de polícia.  

Nesse mesmo ano, fundou o jornal Nosso Tempo, de linha editorial declaradamente de combate aos arbítrios que remanesceram durante o período de transição. Devido a postura do jornal, Aluízio voltou às barras de um tribunal militar ao ser incurso na famigerada Lei de Segurança Nacional. A tentativa de amedrontamento não resultou, o jornal continuou em seu combate em defesa dos direitos humanos por mais 15 anos.

Após o fechamento do jornal Nosso Tempo, Aluízio trabalhou de editor em outros jornais e revistas, ao mesmo tempo que se dedicou a buscar um grupo de militantes da VPR desaparecidos ao entrar no Brasil em 1974.

A pesquisa, que durou 10 anos deu origem ao livro “Onde foi que vocês enterraram nossos mortos?”, lançado em 2005, e que está em sua terceira edição. 

Para chegar até as circunstâncias em que se deu o desaparecimento e identificar os nomes das vítimas e dos autores dos assassinatos, Aluízio garimpou os arquivos da ditadura, e com o apoio da Comissão Especial Sobre os Mortos e Desaparecidos – CEMDP, foram realizadas três expedições ao interior do Parque Nacional do Iguaçu. No local apontado por uma testemunha da chacina, foram realizadas pesquisas de solo e escavações em busca dos desaparecidos.

Em 2011, ao serem instaladas as comissões Estadual da Verdade do Paraná  e a Comissão Nacional da Verdade, atuou como consultor das mesmas, sendo o responsável por boa parte das narrativas acerca da ação da ditadura na região.

Atualmente, Aluízio edita o site Documentos Revelados, que possui um acervo de 95 mil documentos, com quase três milhões de visualizações. O DR foi criado com o objetivo de  facilitar o acesso e popularizar os documentos emitidos pela ditadura e pelas organizações da resistência.

Além dessas atividades, Aluízio preside o Centro d Direitos Humanos e Memória Popular de Foz do Iguaçu. O CDHMP possui sede própria, onde são ministrados cursos de formação e funciona a Rádio Direitos Humanos da Tríplice Fronteira. Em suas instalações funciona também um Centro de Memória das Lutas Populares

A entidade está presente nas lutas em defesa dos direitos humanos na Região Oeste do Paraná e nas cidades fronteiriças do Paraguai e Argentina, especialmente a defesa das populações indígenas, a resistência aos despejos de agricultores sem terra, o combate ao tráfico de humanos e a violência policial.

Para melhor articular os movimentos sociais da região, Aluizio Palmar, juntamente com outras lideranças,  criou o Fórum Social e Popular da Tríplice Fronteira, que irá realizar o seu 4º Encontro no dia 1º de Maio. O Fórum é uma articulação entre os sindicatos, movimentos camponeses e entidades estudantis da Região Oeste do Paraná, da grande Ciudad del Este (Paraguai) e Puerto Iguaçu, Argentina.

   

Para entrar em contato:

45 99941 6969

palmar64@gmail.com

aluiziopalmar@gmail.com

documentosrevelados@gmail.com

 Agora eu entendo o Aluízio!

*Ronildo Pimentel

Foram necessários meses na estante para finalmente conhecer um pouco da verdade do Aluízio. Agora entendo por que ele se cerca de tantos cuidados no dia-a-dia, vinte anos depois da ditadura.

Demorou, mas finalmente cheguei a uma conclusão lógica, ou nem tanto, de uma pessoa que aprendi a admirar ao longo de nossa convivência. Estou falando do Aluízio Palmar, jornalista e agora escritor controverso, meio avesso aos dogmas da sociedade, que escolheu a Tríplice Fronteira entre Brasil, Argentina e Paraguai para habitar.

O local não poderia ser diferente. Aluízio passou uma vida percorrendo e correndo pela América do Sul de cabo a rabo, literalmente. Não pelo prazer de quem viaja com a família em lugares lindos e deslumbrantes. Fugia de sua história, de sua ligação com o passado ameaçado por uma sandice militar que dominou o continente por um longo período no século passado.

Agora sim, posso dizer que entendo o Aluízio Palmar e seu jeito insuspeito de suspeitar das coisas que o cercam. Aluízio foi um dos fundadores da Vanguarda Popular Revolucionária, a VPR, última facção de guerrilheiros brasileiros que ousou usar armas contra a ditadura militar. Poderia ocupar este espaço falando das aventuras, desventuras e jogadas de pura sorte do guerrilheiro nos anos de chumbo da ditadura, mas isso tudo já está lá, no livro autobiográfico “Onde foi que vocês enterraram nossos mortos?”, editado pela Travessa dos Editores.

Cacete, foram necessários meses na estante para finalmente conhecer um pouco da verdade do Aluízio. Agora entendo porque ele se cerca de tantos cuidados no seu dia-a-dia, mesmo depois de 20 anos do fim da ditadura. Tudo bem, agora eu sei que são seqüelas do exílio, onde todos são suspeitos. Lembro quando visitamos o Aluízio em tempos de fartura, dele, claro, quando era secretário de Comunicação. Aqueles cuidados para saber se havia um gravador oculto, ou outra forma qualquer de registrar aquela conversa… por muitos anos cultivei um juízo torto do encontro.

Agora entendo o jeito meticuloso do Aluízio, depois de anos suspeitando de tudo, e de todos, a sua volta. Medo de cair numa emboscada que para muitos significou a morte. Mesmo hoje, Aluízio se sente inseguro, talvez imaturo diante de tantas novidades. Novidades, claro! Para quem passou tantos anos fugindo do passado, certamente não sobrou tempo para acompanhar o nosso tempo.

Nosso Tempo

Quando conheci o Aluízio, vi um homem frio e calculista e metódico no enfrentamento dos últimos resquícios da ditadura, isso lá nos idos dos anos de 1980. Nas mãos dele um impresso semanal, o histórico e contundente Nosso Tempo, algo meio antiquado para os dias virtuais de hoje, mas fonte de voz de quem vivia sob o manto da opressão e da repressão militar.

Nunca entendi muito o Aluízio, seu jeito de se esconder das coisas, de fugir da sociedade, mas agora, lendo suas memórias, posso entender por que ele não gosta de clichês vagabundos, hoje em voga nos meios sociais. Imaginar que alguém, que já pensou em suicídio no fundo de uma cela escura e sem vida, pudesse viver normalmente entre nós, foi algo que nunca imaginei antes de conhecer a verdade de um guerrilheiro.

Pior que esquecer tantos amigos perdidos durante a ditadura é saber que muitos amigos, os últimos membros da VPR haviam morrido e seus corpos jamais localizados. Com o fim do regime armado, Aluízio mergulhou numa busca quase que insana para reconstruir os últimos passos de seus últimos companheiros de guerrilha.

A pesquisa durou anos, décadas, mas finalmente terminou. Terminou como na emboscada que dizimou seus companheiros, executados por um pelotão fortemente armado dentro do Parque Nacional do Iguaçu. Aluízio finalmente desvendou o que denominou de último segredo da ditadura militar e agora pode dizer que também entende Aluízio.

Ronildo Pimentel é jornalista em Curitiba.