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EXILADO PARAGUAIO FOI PRESO EM FOZ DO IGUAÇU E ENTREGUE `A DITADURA DO GENERAL STROESSNER

Matéria publicada pelo jornal Nosso Tempo, de Foz do Iguaçu, em 04.02.1986
O calvário de Remigio Giménez nas mãos da repressão política de Stroessner

 Há quase dois meses em greve de fome, está mais próximo da morte que da liberdade

 “Um dos mais monstruosos casos jurídicos da ditadura do general Alfredo Stroessner’ é a classificação dada

pelo jornal “El Pueblo”, Õrgao do Partido Revolucionário Febrerista, em sua ediçode 22 de janeiro último, à

prisão de Remigio Giménez Gamarrãa de 62 anos de idade, agora completando dois meses de greve de fome

para conseguir sua liberdade ou, ao menos, para ser julgado de acordo com a lei – eis que, embora detido há

8 anos, tribunal algum do Paraguai proferiu sentença condenatória contra ele. Entretanto, apesar desse gesto

extremo e de toda a solidariedade que recebe de dentro e fora do país, Giménez está mesmo condenado

à morte por inanição,pois a ditadura do general Stroessner teima na insensibilidade e se recusa a adotar as medidas legais cabíveis ao caso.

Esta trágica história começou em 17 de dezembro de 1978, quando a Polícia Federal brasileira sequestrou Remigio Gimez em Foz do Iguaçu e o entregou ao sanguinário Departamento de Investigação da policia paraguaia, na cidade fronteiriça de Puerto Stroessner.

Em manifesto que deu a público após iniciada a greve de fome em 13 de dezembro último, Giménez resumiu o calvário que percorreu nas ms da repressão política paraguaia. “Na Direção Po do Departamento de lnvestigaçoes de Assunção fui acusado de guerrilheiro e comunista e que realizei viagens a Cuba e Rússia. Durante 45 dias me mantiveram confinado num calabouço e fui torturado durante duas noites consecutivas. permaneci detido e incomunicável no Departamento de Investigações durante um ano, dois meses e 22 dias. Em seguida transladaram me ao Ouartel da Guarda de Segurança, onde permaneci numa masmorra por um ano e sete meses. Ali decidi realizar uma greve de fome que durou 25 dias, suspendendo-a a partir de uma promessa formal do comandante do quartel, que disse que se a suspendesse me daria imediatamente a liberdade, porque havia recebido ordem nesse sentido.

Levaram-me então à Policllnica Policial para recuperar-me, e ali fiquei internado por dois dias.

Ao ver-me recuperado, me enviaram de novo ao Quartel de Segurança, onde me disseram que fi casse tranquilo, já que a ordem de libertar-me estava tramitando.

Comuniquei-lhes que esperaria um máximo de 8 dias e se nesse tempo no me libertassem, voltaria à greve de fome. Como a promessa nao foi cumprida, iniciei novamente a greve. Oito dias depois levaram-me à Penitenciária Nacional de Tacumbu. Lá me inteirei de uma s érie de acusações contra mim, como homicídios,roubo de carros, assalto à mão armada, tráfico de drogas e outros crimes, supostamente cometidos entre 1959 e 1960. Estes atos, porém, nunca os poderia ter cometido, porque nesse período estava radicado no Brasil. Em 13 de dezembro

de 1985 iniciei outra greve de fome pela minha libertaç ão, até a última consequ ên cia. Este é o resumo da represão que caiu sobre meus ombros. Espero que a justiça saiba entender que as acusaçoes da policia são há muito conhecidas pela opinião pública”.

 SOLIDARIEDADE E PROTESTO

Em Foz do Iguaçu, a comunidade paraguaia aqui residente e um grupo de brasileiros realizaram, no dia 28 de janeiro, uma manifestaçao em frente ao Consulado do Paraguai em Foz do lguaçu. O cônsul limitou-se a dizer que Remigio Giménez não passa de um delinquente comum ao receber dos manifestantes um documento que pedia justiça para o preso em greve de fome.

Na última terça-feira, em novo ato pela libertaçao de Giménez, um grupo de pessoas representando o PMDB, PDT, Diretório Acadêmico da Facisa, Centro Cultural Árabe Umefi e Comitê Latinoamericano de Solidariedade, fez uma jornada de jejum na praça da Câmara de Vereadores de Foz do Iguaçu. Paraguaios e brasileiros reuniram-se em vigília às 8 horas e encerraram o ato com um culto religioso conduzido pelo padre Germano Lauck, da Paróquia So João Batista. Durante o dia, os manifestantes distribuíram panfletos relatando a situação de Giménez e ostentaram faixas e cartazes informando aos que passavam pelo local o motivo do jejum e da vigilia. A manifestação teria ocorrido sem incidentes, no fosse a interferência do presidente da Câmara de Vereadores,   Perci Lima, que chamou a policia e exigiu a retirada do material exposto na praça (veja ma-féria seguinte).Ao culto compareceram dezenas de pessoas, entre elas muitos paraguaios residentes em Foz do Iguaçu – alguns deles com amargas experiências vividas nas mãos da repressão do regime de Stroessner. Antes do encerramento do ato religioso, o padre celebrante convidou os presentes para que falassem de suas experiências.

Uma filha de Remigio Giménez, que participou do ato juntamente com um irma) e a mie, resumiu a situaç ão do pai e contou que o havia visitado há nove dias, mas que fora impedida de avistar-se cm ele, impossibilitado que estava de locomover-se devido á prostraçao física provocada pela greve de fome.

Concluindo a celebração, OS presentes recitaram o Salmo 81, que diz “Um dia, Deus se levantará na assembl éia dos governadores dos povos e pronunciará esta sentença: ‘Até quando governareis iniquamente sustentando os privilégios dos maus? Fazei  justiça ao fraco e ao órfão, restitui os direitos dos pobres e dos miseráveis.

Defendei o oprimido e o indigente. Livrai-nos da opressão e da injustiça’. Esses lideres na) sabem nada, não procuram entender coisa alguma. Andam cegas, comprometendo o destino do mundo. E eu que dizia: ‘São estes os grandes homens, os favorecidos de Deus” Morrera como todos os outros. Cairão como um ditador qualquer. Levanta- te, ó Deus, para julgar o mundo, porque tu és o Senhor de todos os homens.

Matéria Publicada pelo

Jornal Nosso Tempo

 http://www.nossotempodigital.com.br/arquivo/nosso_tempo_202/nosso_tempo_202.pdf

04.02.1986

Documentos publicados:]

Informação nº 058 S/102-A10-CIE

Ministério do Exército

Gabinete do Ministro

data 20.02.86

Info 136 01/V/86 -CIE/DPF

29.0186

Ministério da Justiça

Dep. de Polícia Federal

Telegrama do vice-chefe AC/SNI para o CIE

 

 

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