Um nazi é nazi demais | Jornal Plural
12 jul 2020 - 21h32

Um nazi é nazi demais

O Brasil tem 349 células neonazistas, com sete mil integrantes. Eram cinco mil, no fim do ano passado. Se você contar os simpatizantes do movimento, o cálculo vai pra casa dos 500 mil

O título deste texto é uma frase que eu não lembro onde li. Procurei a referência, não encontrei. Suponho que seja do cartaz do show de alguma banda punk a que assisti nos idos de minha juventude perdida. É o segredo da originalidade, alguém escreveu, você não lembrar onde já leu aquilo. Quem escreveu? Prefiro não recorrer ao Google, isso estragaria a minha introdução.

Na semana passada, o Paraná ultrapassou Santa Catarina e se tornou o segundo estado com o maior número de células neonazistas no Brasil, atrás apenas de São Paulo. No fim de 2019, por aqui elas eram 66; agora, são 74. O levantamento é da antropóloga Adriana Dias, que pesquisa movimentos de extrema direita há 18 anos.

Ao todo, hoje, o Brasil tem 349 células neonazistas, com sete mil integrantes. Eram cinco mil, no fim do ano passado. Se você contar os simpatizantes do movimento, o cálculo vai pra casa dos 500 mil.

Esse e outros números estão em um vídeo que (perdão pela autorreferência, não vai se repetir) eu mesmo roteirizei para o canal do YouTube Meteoro Brasil, capitaneado pelos indomáveis Álvaro Borba e Ana Lesnovski. Se você quiser, você pode assistir aqui: encurtador.com.br/cgis0

A organização não governamental SaferNet Brasil, que monitora e promove os direitos humanos na internet, não vacila ao conectar a expansão do neonazismo no país à retórica racista, armamentista e anticomunista de Jair Bolsonaro. Quando o presidente é um patife com sanha homicida, os ratos ficam livres para tomar o navio.

Não sou editor, mas meu pitaco é que a pesquisa de Adriana Dias repercutiu pouco nos jornais brasileiros e, por consequência, fora deles. Não se sabe quantos extremistas estão de fato dispostos à violência, mas uma célula neonazista é em potencial uma célula de terrorismo doméstico. É a sua vocação.

Na semana passada, estávamos ocupados discutindo se é digno ou não desejar a morte do presidente da República. É uma discussão moral. É também ingênua, tola, sem fundamento ou propósito.

A mente humana é um parque de diversões sombrio, depravado e incontrolável. Seus desejos só deveriam entrar no debate público na medida em que viram ações. Antes disso, bem, eles são apenas desejos. Irrelevantes. O presidente talvez – não se pode acreditar em uma palavra do que sai daquela boca – tenha sido acometido por uma doença. Não é como se houvesse uma campanha aberta, organizada e de amplo alcance clamando por sua aniquilação física.

Pra mim, torcer para que Jair Bolsonaro se dane é tão automático e natural quanto torcer para que o Corinthians vença uma partida de futebol. Faço sem pensar. É paixão.

É também inofensivo.

Se Jair Bolsonaro tropeçasse na calçada amanhã e tivesse um traumatismo craniano, triste eu não ficaria. Não gosto de estátuas e não quero uma pra mim, muito menos uma motivada por algo tão anódino e meloso quanto bom-mocismo e pureza de intenções.

Pode não ser conveniente publicar qualquer coisa que passe pela sua cabeça no jornal, mas verter um suposto humanismo contra quem tem o natural desejo de se ver livre de um tiranete tem mais a ver com culpa cristã do que com defesa do famigerado Estado Democrático de Direito. O que eu deveria desejar pra alguém que difunde o ódio racial a ponto de estimular o surgimento de células neonazistas? Para alguém que, se pudesse, instituiria uma guerra civil por decreto? Saúde? Longa vida? Prosperidade? Que todos os seus sonhos sinistros se realizem?

O que um ugandense razoável deveria desejar a Idi Amin Dada quando o ditador, já no exílio, começou a sentir os efeitos da insuficiência renal, depois de submeter um país a oito anos de um sanguinolento e exótico reinado de terror e perseguição étnica, assassinando homens, mulheres e crianças às centenas de milhares?

Fico particularmente ofendido com quem tenta equiparar meus pobres e improdutivos pensamentos ao autoritarismo de Jair Bolsonaro. Isso só seria possível em um mundo em que eu fui eleito presidente da República e sou o responsável direto por uma política de matou dezenas de milhares em quatro meses – e vai continuar matando dezenas de milhares nos próximos. Nesse mundo louco, nessa realidade paralela, porcos voam, a Terra é iluminada por 14 sóis e o Pica-Pau é secretário-geral das Nações Unidas.

Um nazi é nazi demais, dizia a sabedoria daqueles cartazes feitos nas coxas por adolescentes bêbados e entusiasmados. Principalmente se ele ocupar a Presidência da República.    

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