Um filme, uma série, uma criança de seis anos e neonazistas | Plural
25 ago 2019 - 22h16

Um filme, uma série, uma criança de seis anos e neonazistas

Será possível recuperar alguém do racismo como se recupera de uma dependência química?

Meu sobrinho tem seis anos e um amiguinho novo na escola, um uruguaio. Numa noite da semana passada, ele estava me contando a novidade.

– E você sabe onde fica o Uruguai? – perguntei.

– Sim, fica em outro país.

Uma resposta rápida, desconcertante, típica de um moleque.

– Tudo bem, mas você sabe que existem muitos outros países, certo?

Peguei ele no colo e abri o mapa da América Latina na tela do notebook. Mostrei os contornos da imensidão que é o Brasil, apontei grosseiramente o estado do Paraná e então apresentei o Uruguai, ali embaixo, colorido num tom de roxo.

– É bem pequeno, né? – ele disse, os olhos castanhos arregalados e a voz fina meio gritada.

– Mais ou menos. Não é tão pequeno assim. Os mapas são um pouco distorcidos.

Não quis entrar na explicação de que, apesar do que andam dizendo por aí, nosso planeta é esférico, e não é tão simples assim representar isso em duas dimensões.

Diminuí o zoom da tela e enquadrei o mapa-múndi. Ele disse, de chofre:

– E aquele amarelo grandão lá em cima é a Rússia, né?

– É, é a Rússia. Com quem você aprendeu?

– Eu tenho um globo.

– Ah, você tem um globo. Então por que eu estou aqui te apontando países feito um paspalhão, hein? – brinquei.

– É um globo e um apontador – ele continuou, me ignorando com solenidade majestática.

– Um globo e um apontador?

– Sim – interveio meu irmão. – Mas dá pra ver bem certinho os países.

Fiquei pensando por alguns instantes naquela proeza do design dos apontadores de lápis. Como é que dá pra ver bem certinho a Moldávia, por exemplo? Ou, sei lá, o Sri Lanka?

Naquela noite, quando eles foram embora, voltei ao trabalho satisfeito. É bom que meu sobrinho conviva com uruguaios, bolivianos, haitianos, angolanos, alemães, guatemaltecos, chineses, enfim, o salseiro todo. Diminuem as chances de virar um babaca quando adulto.

Por coincidência, naquela madrugada assisti a “Skin”, filme do diretor israelense Guy Nattiv. Por uma coincidência maior ainda, também na semana passada terminei os dez episódios de “Cães de Berlim”, série alemã. As duas obras são em alguma medida sobre racismo e xenofobia.

“Cães de Berlim” é uma boa série policial. A história começa quando o principal jogador da seleção de futebol alemã, de origens muçulmanas, aparece assassinado às vésperas de uma partida decisiva contra a Turquia. Quem assume o caso são dois policiais: um alemão com um nebuloso passado numa irmandade neonazista e um turco gay. Enquanto isso, há uma escalada de violência entre as máfias libanesa e croata. E uma gangue de motociclistas turcos segue extorquindo pequenos comerciantes por “proteção”.

Tudo isso, é claro, vai colidir no final, num show violento de fogos de artifício. Embora a história não termine em tragédia absoluta, também não é exatamente bonita. Prefiro assim. O mundo não é um passeio no parque.

Já “Skin” é uma história de redenção, baseada em fatos reais. No fim, tudo acaba mais ou menos bem, mas o que importa ali é o caminho. Um neonazista cooptado ainda muito jovem por uma irmandade vê a luz, e, com a ajuda de uma mulher e de um militante negro, precisa empreender uma jornada violenta e dolorosa para escapar de seu próprio gangue e se tornar uma pessoa decente.

Em um momento do filme, o militante negro explica a um colega, que não vê sentido em se empenhar para salvar um filho da puta racista: “Meu pai lidava com drogados. Ele dizia que transformava lixos humanos em homens. É a mesma coisa”.

Encasquetei com isso. Em meu materialismo convicto, acredito que os seres humanos são em grande medida química cerebral. Até que ponto isso pode ser válido para a burrice cristalina do racismo?

São tempos sinistros, e tendo a não ter nenhuma tolerância com os intolerantes. Mas, até que ponto isso ajuda? Estou realmente pensando num bem maior ou me agarrando ferrenhamente a um senso de justiça tribal? É possível recuperar um racista da mesma forma que recuperamos um doidão? E, o que mais me importa hoje: o que fazemos com alguém que contribuiu para a escalada de um projeto político autoritário, burro e intolerante, mas que oito meses depois já acha que as coisas não são bem assim. Devo lhe dar um abraço e dizer “bem-vindo, camarada” ou mandá-lo para a casa do caralho?

Estou remoendo tudo isso à noite, no escuro, na cama, enquanto o notebook toca Led Zeppelin. Está escuro dentro da minha cabeça também. Do nada, rio sozinho. Um pensamento ilumina brevemente minhas paredes cranianas, como um relâmpago.Todo o globo em um apontador? E dá pra ver bem certinho os países? Rapaz, que coisa doida.

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