Que rufem os tambores | Jornal Plural
26 jan 2020 - 22h27

Que rufem os tambores

É raríssimo encontrar alguém dentro da corporação militar com coragem suficiente para verbalizar o óbvio

O policial militar Martel Alexandre del Colle integra o quadro da reserva desde outubro do ano passado, quando foi diagnosticado com depressão. No site Justificando, de conteúdo jurídico, ele mantém uma coluna, além de um canal no YouTube.

Em seus textos, a Polícia Militar é um tema recorrente, e ele não faz nenhuma questão de, digamos, amaciar para o lado dos colegas. Bate sem histrionismo, mas com firmeza. Em um de seus artigos, afirmou: “Um militar com uma formação política e ideológica estreita é um criminoso em potencial”.

Em outro, criticou o governador Ratinho Jr, que em dezembro de 2019 usou mil policiais para garantir que cidadãos não pudessem ter acesso a uma sessão da Assembleia Legislativa realizada na Ópera de Arame. A função dos agentes era garantir que deputados subservientes ficassem confortáveis para atropelar o regimento do próprio Legislativo estadual e aprovar a toque de caixa a reforma da previdência estadual.

“Eu acreditava que a Polícia Militar do Paraná era uma polícia de Estado, mas eu estava enganado”, escreveu Martel. “Ela é uma polícia do governo do estado. E isso faz toda a diferença. Uma polícia de Estado age seguindo as leis e age para prevenir crimes, para criar um ambiente de segurança. Uma polícia de Estado protege seus cidadãos e sempre age para causar o mínimo de dano aos seus cidadãos. Uma polícia de Estado age como mediadora de conflitos entre agentes do governo e cidadãos”, explicou.

“Já uma polícia de governo age para manter o poder do governo, mesmo que isso signifique burlar a lei e a Constituição. Uma polícia de governo cria estratégias para controlar o povo e não teme usar a violência para conseguir tal objetivo. Uma polícia de governo vê o povo como um incômodo, como um inimigo, como uma ameaça.”

É raríssimo encontrar alguém dentro da corporação militar com coragem suficiente para verbalizar o óbvio, com todas as letras. Isso porque coragem cobra um preço, sempre. Acusado de manchar a imagem da PM do Paraná por conta de seus artigos, Martel virou alvo de uma investigação interna e agora corre o risco de ser expulso.

A perseguição foi noticiada na semana passada, pelo portal Ponte Jornalismo.

De acordo com o coronel Eudes Camilo da Cruz, diretor de Pessoal da PM-PR: “O referido policial militar é acusado oficialmente de ter produzido diversos textos e um vídeo trazendo ao conhecimento público imputações graves contra a instituição Polícia Militar do Paraná, bem como, em desfavor de autoridades civis constituídas”.

A Polícia Militar do Paraná tem um longo e diverso histórico de abuso e truculência. Não precisa da ajuda de ninguém para manchar a própria reputação. Seria como repreender alguém por derrubar ketchup em um aterro sanitário.

Por exemplo: na semana passada, em Matinhos, a Polícia Militar do Paraná deslocou nada menos do que cinco viaturas para apreender dois ou três tambores na orla da Praia Brava. Os instrumentos estavam sendo usados pelas integrantes do coletivo Baque Mulher, que uma vez por semana faz ali ensaios musicais, normalmente no fim da manhã.

Um vídeo que circulou no Twitter e depois virou matéria aqui mesmo no Plural mostra o primeiro tenente Cavalli – ele mesmo fez questão de aproximar a identificação da câmera – arrancando furiosamente um dos tambores das mãos de uma das mulheres, numa cena que seria apenas ridícula se não fosse também grotesca. Depois, ele aparece empurrando com violência a mesma mulher pra dentro de uma viatura.

No vídeo, é possível ouvir claramente o xingamento “vadia”, embora não dê para afirmar da boca de quem ele veio – uma câmera de celular apenas é insuficiente para dar conta da diversidade de métodos que nossos policiais utilizam para coibir um perigoso maracatu.

Em O Super-Homem vai ao Supermercado, um clássico do novo jornalismo americano, Norman Mailer escreve sobre a polícia, por ocasião do cerco a Chicago durante a convenção do Partido Democrata de 1968: “O que mais abalou os delegados que assistiram ao ataque — melhor chamá-lo de massacre, porque foi súbito, total e sem provocação — da Michigan Avenue foi que ele revelou todo o espectro do que pode significar para a polícia tomar a sociedade a seu encargo. Nesse caso, ela pode se comportar não como uma força de promoção da lei e da ordem nem como uma força de repressão da desordem civil, mas como uma verdadeira força criminosa, caótica, dada ao improviso, indisciplinada e finalmente — quando excitada além de certo ponto — incontrolável”.

Incontrolável estava certamente o primeiro tenente Cavalli, que a certa altura do vídeo gravado na Praia Brava quis saber qual das mulheres o havia chamado de fascista. Alterado, com o tórax inflado, ele pergunta, ameaçadoramente:

– Quem gritou fascista? Quem gritou fascista? Quem foi que gritou fascista?

No caso, agora, fui eu mesmo.

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