Paranoia | Plural
2 fev 2020 - 21h37

Paranoia

Não me interessa o que dizem os jornais, os infectologistas, a OMS. Corretos estão os desconhecidos, anônimos, em suas minúsculas caixinhas de psicose

Veja bem, não é que eu seja paranoico, mas o fato de eu não ser paranoico não quer dizer que não existam conspirações, confere? E, de qualquer forma, o seguro morreu de velho. Por isso, já estoquei em casa quatro galões de 50 litros de álcool em gel e alguns sacos de máscaras e luvas hospitalares, a fim de prevenir – para depois não ser necessário remediar.

Mandei mensagens ainda ontem para todos os lugares que costumo frequentar, meus bares e camaradas prediletos, para avisar que, por recomendação de desconhecidos em geral, não darei a honra de minha digníssima presença nos próximos dias, semanas, talvez nos próximos meses – por que não anos?

Não me interessa o que dizem os jornais, os infectologistas, a Organização Mundial da Saúde – corretos estão os desconhecidos, anônimos, em suas minúsculas caixinhas de psicose, como sempre estiveram.

Não irei mais a lugar nenhum até que tudo volte à normalidade – ou àquela balbúrdia sideral e delinquente a que nos acostumamos, como nos acostumamos a quase tudo nesta vida, chamar de normalidade. Me entrincheirei em casa, de espingarda em punho, como Bacamarte, e pretendo receber a bala qualquer coisa que se aproxime.

A situação é da mais extrema gravidade. E fui alertado disso por um áudio no WhatsApp.

No áudio, um cidadão devidamente desconhecido me diz para ignorar qualquer coisa que pessoas com nome, CPF e bagagem científica estejam dizendo ou escrevendo por aí. Na China, me conta a voz muito austera que sai do smartphone, um novo vírus tem dizimado cidades. É tudo muito pior do que querem nos fazer crer os governantes que regem o mundo. De modo que ou tomamos providências imediatas, fechando as fronteiras e envelopando o espaço aéreo, ou vamos todos para o beleléu.

No WhatsApp, o áudio vem acompanhado de uma foto área, em que dezenas de pessoas aparecem caídas sobre ruas e calçadas, como se tivessem sido infectadas e imediatamente tido um piripaque ali mesmo, a caminho da mercearia.

Ou como se Deus, extremamente aborrecido com nossos pecados, de paciência farta, tivesse nos enviado algo mais terrível do que a mais terrível das pragas bíblicas, e que mata com a sem-cerimônia de um raio: o coronavírus.

Pergunto a mim mesmo: quem poderia acreditar numa baboseira tão mal alinhavada?

E imediatamente lembro do surto de H1N1, em 2009 e 2010, quando trabalhava cercado por pessoas supostamente esclarecidas que então mergulharam em paranoia a ponto de abolir até mesmo as regras de boa educação. Em um acordo tácito, apertos de mão foram vetados, a fim de evitar possíveis contágios.

Na mesma época, duas apresentadoras do telejornal do meio-dia anunciaram a falta de álcool em gel em algumas escolas públicas como se o próprio Lúcifer estivesse desabando sobre nossas cabeças com uma espada de fogo e fúria. O que, notoriamente, não era o caso. Qualquer infectologista dizia que dava na mesma usar álcool em gel ou lavar bem as mãos como água e sabão – hábito que, espero, todos cultivem, tenhamos ou não notícias sobre uma epidemia.

Fosse pelo telejornal do meio-dia, faríamos lá o que hoje nos mandam fazer os áudios no WhatsApp: entraríamos em pânico, disseminaríamos o alarde, o caos, correríamos para as colinas ao menor espirro.

Que a linguagem do pânico e da paranoia parece ser a única que uma significativa parcela da população entende. Talvez devêssemos mandar os escrúpulos às favas e começar a usar o mesmo tom para tratar de coisas tão sérias quanto uma epidemia. O colapso climático. A brutalidade da miséria. A ascensão da tirania.

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