O dia do dragão | Plural
29 set 2019 - 23h45

O dia do dragão

Nosso cérebro distorce nossas memórias. E isso é uma coisa muito boa

Minha primeira lembrança da infância é de uma chuva. Lá estou eu, pequenote, de pé sobre uma cadeira, olhando através da janela, a chuva escorrendo na vidraça. Era muita água, talvez fosse até uma tempestade.

A casa era de madeira, meio velha, em um bairro da periferia de Joinville, em Santa Catarina. Nesse dia, lembro também de uma cobra, não muito grande, que apareceu no caixilho da janela e eu, que não tinha mais do que quatro anos, concluí que queria brincar comigo.

Minha mãe viu a coisa a tempo e me tirou de lá, me agarrando por trás, com um tranco forte.

Ou pelo menos é assim que eu lembro de tudo. Não é uma grande história, mas é minha primeira história.

Ou, reformulando: é a minha primeira história, de acordo com minha própria memória. Deve estar errada, portanto. Minha mãe deve lembrar do episódio de um jeito diferente. É possível que essa cobra jamais tenha existido. Que a casa fosse diferente. Ou que nem estivesse chovendo.

Memórias não são confiáveis. Na verdade, são traiçoeiras, dissimuladas, não raro desbragadamente mentirosas.

Por exemplo: nessa mesma casa em que vivi até os cinco anos, em Joinville, passei muito tempo na varanda de trás, observando os lagartos que saíam e entravam em um matagal próximo.

Na minha cabeça, esses lagartos aparecem soberbos, sinistros e venenosos, como Dragões de Komodo, aqueles bichos enormes e feiosos com jeitão de que acabaram de fugir de um viveiro no inferno.

É claro que eles não eram assim. Se fossem, minha mãe não me deixaria na varanda de trás, tardes e tardes inteiras, vendo aquilo. Deviam ser uns lagartinhos mixurucas e inofensivos.

Ao tratar do passado, somos todos mentirosos involuntários – às vezes voluntários mesmo. Uma das pessoas que melhor entendeu isso foi David Carr, escritor e jornalista do New York Times, que morreu em 2015.

Quando começou a escrever seu livro de memórias, Carr descobriu que não lembrava muita coisa sobre boa parte de sua vida. Especificamente, sobre os anos em que esteve girando no vórtice de loucura do vício em álcool e cocaína injetável.

Ele então mandou a ideia do livro de memórias pro espaço e decidiu fazer o que sabia de melhor: uma reportagem, dessa vez sobre si mesmo. Foi atrás de seus registros médicos, jurídicos e entrevistou as pessoas (dezenas delas) que haviam estado com ele lá, na pior época de sua vida.

Impressionou-se com o retrato insano que emergiu disso. Chamou o livro de “A noite de arma”, publicado no Brasil em 2012.

Uma das primeiras cenas do relato é justamente a passagem que lhe dá título. É quando, entrevistando aquele que nos seus piores dias havia sido o seu melhor amigo, Carr descobre que havia ameaçado atirar nele com uma pistola durante horas e horas de esbórnia.

David Carr não gostava de armas, achava que nunca tivesse sequer tido uma, quem dirá considerado a ideia de atirar em alguém, muito menos seu melhor amigo.

Mas ele tinha. E tudo o que lembrava era uma trapaça do seu próprio inconsciente, retalhando o seu passado para que ele pudesse conviver com aquilo. A memória, distorcendo tudo, adaptando o passado, fazendo crescer a ideia que tinha de si mesmo, assentando as coisas dentro dele.

É um truque evolutivo. Há quem diga que, sem esse mecanismo, a gente piraria.

“A noite da arma” é um dos meus livros de cabeceira, daqueles que você abre aleatoriamente de vez em quando pra reler um trecho. É o relato poderoso de como podemos distorcer nossa própria história.

Até hoje, eu prefiro os dias nublados e escuros. O excesso de luz me aborrece. Talvez um reflexo do que sejam minhas primeiras lembranças da infância. Os dragões nunca estiveram lá, isso eu sei. Mas, se eu ainda lembro deles, é aconselhável pensar muito bem sobre todo o resto.

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