O ateísmo é civilizatório | Plural
15 dez 2019 - 23h42

O ateísmo é civilizatório

A religião cega, e o atual discurso evangélico de apoio à censura lembra o atentado ao jornal satírico Charlie Hebdo

Não fosse a gritaria promovida pelo fundamentalismo evangélico, eu provavelmente nem sequer lembraria da existência do Porta dos Fundos, muito menos de que eles têm um tradicional especial de Natal. Pra mim, o sucesso do canal sempre teve muito a ver com ter encontrado um nicho de mercado: no Brasil, onde o humor até pouco tempo atrás estava basicamente reduzido a stand-ups medonhos que batiam em quem não tinha condições de se defender, apostaram as fichas à esquerda. Podia ser progressista, mas estava bem longe de ser engraçado, e pra mim nunca interessou muito.

Por absoluta falta de qualquer coisa melhor para fazer em uma noite dessas – e por conta do auê que se estabeleceu – fui assistir ao especial. A conclusão segue a mesma: o roteiro é chato, previsível, sem graça, como um textão de Facebook.

Naturalmente, o fato de uma coisa ser chata, previsível e sem graça não é motivo para censurá-la, como querem evangélicos e oportunistas dispostos a surfar a onda, custe o que custar.

A religião cega, e o atual discurso evangélico de apoio à censura me fez pensar em 2015, quando dois fundamentalistas islâmicos armados de fuzis Kalashnikovs invadiram a redação do jornal satírico francês Charlie Hebdo e mataram 12 pessoas. O motivo foi uma edição do jornal que fazia piada com Maomé, e foi recebida como um insulto em uma parte do mundo muçulmano.

É o mesmo discurso de Eduardo Bolsonaro no Twitter contra Duvivier, Porchat e companhia, sem tirar nem pôr.

O surpreendente é que, na época, uma boa fatia da esquerda nacional achou correto jogar a culpa do atentado em cima das vítimas assassinadas que, vejam só, não deviam ter mexido com a crença alheia. A religião tem um incrível poder para curto-circuitar a cabeça das pessoas.

Religiosos à esquerda costumam retrucar, ao ouvirem alguma barbaridade saindo da boca de uma Damares Alves da vida, que ela não é uma boa representante do que representa o cristianismo. Na verdade, eles convenientemente esquecem o que foi toda a história do cristianismo.

Poucas pessoas representam tão bem o cristianismo quanto Damares Alves. Não me importam meia dúzia de versículos recortados da Bíblia e atribuídos a um suposto Jesus Cristo histórico. A Bíblia não passa da tradução questionável de um punhado de textos reunidos meio que nas coxas e escritos há milhares de ano. O que interessa foi o que o cristianismo fez a partir daí, e o que ele fez a partir daí foi se impor pela espada.

O movimento evangélico representa o cristianismo perfeitamente porque faz o que o cristianismo sempre fez: buscar o poder, controlar sua vida. Religiões monoteístas funcionam assim.

Isso é tão perigoso hoje quanto foi em qualquer outro momento. No Brasil, parece cada vez mais fazer sentido o que o jornalista Ryszard Kapuscinski escreveu no livro O Xá dos Xás sobre a revolução islâmica no Irã:

“Mas havia ainda outro motivo para as mesquitas gozarem de uma relativa liberdade. Os americanos, que manipulavam o xá (o que sempre resultou em grandes desgraças para o monarca, já que eles não conheciam o Irã e até nunca souberam o que realmente se passava no país), achavam que a única oposição vinha do Tudech, o partido comunista. Diante disso, todo o fogo da Savak [polícia secreta iraniana] foi dirigido contra os comunistas. Só que a essa altura não havia mais muitos comunistas no Irã – os que existiram anteriormente haviam sido dizimados: ou já tinham morrido, ou viviam exilados. O regime ficou tão obcecado pela perseguição aos comunistas – reais e imaginários – que não se deu conta de que as forças que acabariam com a ditadura desenvolviam-se em outro lugar e sob outro lema.” Deu no que deu. Kapuscinski escreveu sobre muçulmanos, mas com um retoque aqui e outro ali, poderia ser sobre católicos ou evangélicos. Por essas e todas as outras, eu digo e repito: o ateísmo é a coisa mais civilizatória que eu conheço. 

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