Notas de uma vida (nem tão) monótona | Jornal Plural
13 maio 2019 - 9h00

Notas de uma vida (nem tão) monótona

É um truque velho, esse de escrever sobre não ter o que escrever. Mas, se todos os melhores já usaram, quando sim e quando não,…

É um truque velho, esse de escrever sobre não ter o que escrever. Mas, se todos os melhores já usaram, quando sim e quando não, quem sou eu para abdicar da saída fácil?

Absolutamente ninguém.

Mas comecei errado, não é que não tenhamos temas. Temos, diariamente, é só abrir o jornal. A verdade, entretanto, é que tenho andado preguiçoso.

Preguiçoso, não. A verdade é que tenho aproveitado a vida. Muita cerveja, muito conhaque, muitos cigarros, muitos amigos, e a mulher que adoro. Dinheiro, isso eu não tenho. Mas não é como se eu pudesse reclamar da existência, confere? Confere.

Ontem mesmo a Maria apareceu com uma garrafa de vinho. Eu estava arriscando alguma coisa na cozinha, e a Vanessa (cumprimentem a Vanessa, ela é a minha senhora) tinha comprado cerveja.

A Vanessa tem óculos grossos, os cabelos curtíssimos de uma nerd, e o jeitão de mulher que ficaria muito bem em um clipe de She’s a Rainbow. É bela, e poeta talentosa, de modo que não sei muito bem o que está fazendo comigo, mas às vezes a gente dá sorte na vida, então decidi apenas aceitar a dádiva do Universo.

Quando a Maria apareceu com a garrafa de vinho, eu já não era exatamente um sujeito sensato, mas a Maria, bem, a Maria apareceu com uma garrafa de vinho, de modo que sensatez não foi exatamente a toada da noite. Mais tarde vieram o Filippo (eu adoro essa grafia italiana de homem que parece nascido na Sicília) e a Aline. Tenho absoluta certeza de que discutimos assuntos profundíssimos, mas não lembro de uma palavra.

Quer dizer, minto. Lembro de mim e do Filippo tentando justificar às nossas mulheres o nosso peculiar hábito de preferir dormir no sofá em frente à TV e não na cama, como fazem os seres humanos razoáveis.

Lembro também (orra, agora, puxando pela memória, até que não avacalhei tanto assim) de que no meio da madrugada precisamos sair para recarregar a cerveja e que isso deu um trabalhão danado. Andei pra burro. E que o Senhor abençoe os chineses, esse pessoal que cruza os sete mares para abrir botequins no Brasil, que jamais fecham.

Agora é domingo. Entregarei esse texto, como de ordinário, aos 49 do segundo tempo, para horror do ilustrador, que terá que se virar nos 30 porque eu, mais uma vez, fui irresponsável (desculpaí, Benett). Almocei há pouco e estou com uma dor de cabeça selvagem. Na TV, coloquei um episódio de The Blacklist pra rodar e fazer companhia. No apartamento, além de mim, apenas as duas gatas. A Natasha, como de hábito, está na janela encarando o céu de chumbo de Curitiba do nono andar. A Moca (a outra gata), como de hábito, está dormindo no sofá (um animal que sabe como levar a vida).

A Vanessa está fora, numa reunião familiar, mas me mandando frequentes zaps para checar se estou bem ou, sabe-se lá considerando um doido como eu, não me atirei pela janela. Mando também frequentes zaps para ela, tranquilizando-a. Não me atirei, não pretendo me atirar, e tenho o arroz de forno que sobrou de ontem e mais ou menos meio litro de refrigerante. Estou muito bem, com a exceção da ressaca. Posso sobreviver com isso.

Antes de começar a escrever essa notória enrolação, li um pouco de Stalin – triunfo e tragédia, a biografia do líder comunista escrita por Dmitri Volkonov, um ex-general do exército soviético. É um livro excelente. A coisa mais detalhada e documentada que já li sobre o Homem de Aço. Ganhei do Leandro, o amigo barbudo e futebolista que tem um sebo itinerante. Apesar de minha insistência, ele não me deixou pagar pela coisa, de modo que investi as 30 madalenas do preço de capa em chopes no bar onde, rotineiramente, nos encontramos.

O bar é o Erva Doce, do ladinho do Torto, dos amigos Charlie e Helena. Vez ou outra, estou do lado de lá do balcão do Erva Doce, onde você pode desfrutar de bebida, doces e, se tiver algum tempo disponível, da minha imensurável sabedoria. Charlie e Helena também têm duas filhas, a Bilu e a Dorinha, meninas adoráveis de cabelo escorrido com quem quase sempre entro em renhidos atritos por uma caneta, por algum motivo sempre a última que conseguimos localizar num raio de 50 metros (elas gostam de desenhar, eu preciso anotar os pedidos que chegam no balcão; mesmo assim, meninas adoráveis).

Enfim, faltam poucos minutos pro futebol de domingo. O Corinthians jogou ontem, empatou com o Grêmio em casa e, avaliando todos os resultados até aqui, acho que nem vaga na Libertadores vamos pegar este ano. Sem problema. O Corinthians é uma instituição acima de resultados, e eu sou um corintiano acima da tolerância alheia.

De qualquer forma, planejo assistir à rodada de hoje. Devo ficar em casa espojado no sofá ou sair e buscar um bar com televisão?

Pode não parecer, mas é um puta dilema, bróder.

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