No sofá, a noite toda | Plural
Fide 2019
3 jun 2019 - 6h00

No sofá, a noite toda

Não bastasse ser praticamente incapaz de pegar no sono em uma cama, como qualquer ser humano lógico, meu hipotálamo ainda adora me pregar peças

Após cambalear por aí todo um dia de sono e cansaço, o trabalhador brasileiro espremido dentro de um desses insultos motorizados que convencionamos chamar de transporte coletivo não pensa em outra coisa: um banho quente, um jantar com as sobras requentadas do almoço, uma ou duas horas de televisão e – enfim o repouso dos mais ou menos justos – cama. Com um pouco de sorte, uma cama com lençóis recém-lavados, perfumados por amaciante, para restauradoras seis ou oito horas de um salto na calmaria da escuridão.

O trabalhador brasileiro é um cidadão razoável. Eu, não. O pior método que posso adotar quando preciso dormir é deitar em uma cama. Por quê? Não faço ideia. O que sei é que posso estar moído, extenuado, esfalfado, quebrado como arroz de terceira; no exato momento em que eu apagar as luzes e me atirar sobre uma cama, plá!, meu cérebro se acenderá como um fliperama, e eu começarei a ruminar um passado remoto. Ou a ter ideias extraordinariamente inventivas que na manhã seguinte se provarão uma completa estultice. Ou, num arroubo particularmente preocupante, posso sentir ganas se sair limpando alguma coisa em plena madrugada, tirar todas as panelas dos armários e areá-las sem nenhuma precisão, apenas por amor ao esporte.

Estamos, claro, apenas no campo das possibilidades. Nunca areei panelas de madrugada. Isso seria particularmente doentio, e homens civilizados no liminar da paranoia têm a obrigação de impor algum limite a seus impulsos psicopatológicos.

Por isso, evito ao máximo deitar em uma cama. Prefiro o sofá, onde me esparramo lá pelas duas da manhã diante da TV ligada, não importa em quê (sou um membro da geração que cresceu nos anos 1990, e uma TV ligada em qualquer bobagem sem serventia alguma é algo que me dá paz de espírito); um jogo de basquete, o VT de um jogo de futebol, a reprise de um episódio de Trato Feito ou alguma teoria mirabolante bolada por uma caixa craniana colonizada por sífilis neurológica e transmitida em Alienígenas do Passado.

Se pudesse escolher, optaria todas as madrugadas por Alienígenas do Passado e sua magnética ideia de que Adolf Hitler e o III Reich foram só o braço terráqueo de uma arquitetura cósmica e autoritária pensada por ETs. Mas o responsável pela grade de programação do History Channel tem pouco tino comercial e não está nem aí para a sua audiência insone e destrambelhada (eu), de modo que não é toda noite que dou a sorte de encontrar a voz grave de um narrador me explicando que Maomé era uma espécie de primo em segundo grau daquela agradável criatura que matou quase todo mundo em Alien – o Oitavo Passageiro.

Não bastasse ser praticamente incapaz de pegar no sono em uma cama, como qualquer ser humano lógico, coerente e com um mínimo de apego ao design de sua coluna vertebral, meu hipotálamo ainda adora me pregar peças: quase de hora em hora, me desperta no meio da noite – decerto, pra não ficar mal-acostumado; onde já se viu um pecador imprestável como eu dormir direito?

Na semana passada, acordei pouco antes do amanhecer com o som de um temporal feroz. Saí do sofá e olhei pela janela. Uma enxurrada ingovernável descia pela calçada, arrastando alguma coisa que, assonado, não pude identificar. Desliguei a TV, fui para a cama – e não dormi mais. Parece uma maldição. Levantei pouco tempo depois para ler os jornais e me dar conta de que aquele toró havia arrasado a cidade.

Não estou sozinho nessa. Minha família paterna tem um longo histórico de distúrbios do sono jamais tratados (temos o orgulho do camponês teimoso como uma mula). Em um grande almoço de domingo, já meio impaciente com aquela longa conversa em que parecíamos competir em desgraças noturnas, cheguei a propor quase a sério que vendêssemos tudo, assumíssemos nossa vocação como estirpe e abríssemos de uma vez uma grande empresa de vigilância 24 horas, e com muitas filiais. Agora que o governo perfeitamente coeso e racional de Jair Bolsonaro afrouxou as regras para o porte de armas, a ideia me parece ainda melhor. Toda uma linhagem de pessoas que passam a noite na semivigília vagando pelas ruas madrugada a dentro e armada até os dentes.

Me parece impossível que dê errado.

 

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