Cenas da noite | Plural
Fide 2019
6 out 2019 - 20h59

Cenas da noite

Sinto o impulso de fechar a janela para não ver o atropelamento, que deve acontecer logo

O homem tem quase dois metros de altura e mais de cem quilos – ou pelo menos é isso que eu calculo aqui de cima. Se move de um jeito embotado, a cabeça parecendo viajar dentro de uma nuvem de álcool.

Ele tenta se deslocar entre as pessoas que às 20 horas já atravancam a calçada do lado de fora do bar, mas é grande demais. É como tentar manobrar um transatlântico em um engarrafamento. Por onde passa, vai deixando uma trilha de destruição, olhares atravessados, pés pisados, bebidas derrubadas – mas quem ousaria falar alguma coisa para um homem de quase dois metros de altura e mais de cem quilos?

Eu vejo tudo de longe.

No prédio em frente, as luzes acendem-se e apagam-se. Uma mulher estende roupas no pequeno varal portátil. Alguém assiste ao jornal. Uma criança e um velho jogam um jogo de tabuleiro. Uma família senta em torno da mesa para o jantar de sábado.

Em outro ponto da calçada lá embaixo, uma moça grita com um rapaz. Não posso ouvir o que diz, mas posso adivinhar.

Se eu pudesse dar um conselho à moça, diria que nesse momento nem todos os decibéis do mundo poderão arrancar o rapaz daquele transe. É sábado, e ele deve estar bebendo desde a hora da feijoada.

Tudo o que se pode fazer agora é colocar o rapaz para dormir. Sono. Um punhado de horas de reparador e abençoado sono. E depois, quem sabe, um pouco de macarrão.

Era isso que eu diria, se eu pudesse dar um conselho – mas é claro que eu não vou descer nove andares de elevador para me meter em uma encrenca dessas.

Tiro os olhos da calçada e tento olhar além do prédio em frente: do nono andar, a cidade se estende num mal diagramado arranjo de prédios e janelas acesas. É bonito, até.

Tendo a acreditar que cidades guardam poucas diferenças entre si. No sul ou no norte, não importa em que longitude, são apenas um monte de pessoas tentando sobreviver, correndo de um lado pro outro, bebendo demais, estendendo roupas em pequenos varais portáteis, assistindo ao jornal.

(Uma anedota: em 1954, o escritor norte-americano William Faulkner havia ganhado o prêmio Nobel de Literatura há quatro anos. E visitou o Brasil, por ocasião do 1º Congresso Internacional de Escritores.

Faulkner arrastou um alcoolismo feroz por toda a vida. No Brasil, bebeu tanto que em determinada manhã olhou pela janela de seu hotel em São Paulo e perguntou:

– O que diabos eu vim fazer em Chicago?)

Olho de novo para a calçada lá embaixo. O homem grandalhão encontrou uma cadeira quase no meio da rua. Sinto o impulso de fechar a janela para não ver o atropelamento, que deve acontecer logo, provavelmente antes que a cadeira ceda e ele se espatife contra o chão.

Penso no que seria diferente na história da humanidade se não fôssemos essa espécie tarada por ficar doidona, tomando pileques há mais de dez mil anos. Teríamos, em algum momento, parado de andar pra lá e pra cá? Fincado raízes e começado a plantar cereais? Teríamos construído cidades, com suas paisagens noturnas e mal diagramadas de prédios e janelas acesas?

Fez um calor insuportável durante o dia. Agora à noite, há uma brisa de chuva, um vento fresco. Uma melancolia parece borrifada no ar, como perfume – ou despejada mesmo, como que por um avião agrícola.

Não há nenhum sinal, em parte alguma, de que as coisas vão melhorar, mas alguém acabou por convencer o chato de quase dois metros a tirar aquela cadeira do meio da rua.

A gente se apega ao que sobra.

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