Brasil, 2026; Anthony Williams, correspondente | Jornal Plural
17 maio 2020 - 18h39

Brasil, 2026; Anthony Williams, correspondente

Na semana passada, o país de 218 milhões de habitantes, que na primeira década do século ambicionou se tornar uma peça importante no jogo pesado da geopolítica, foi a primeira nação do mundo a eleger para a presidência da República um balão, desses de festa infantil

É mais ou menos fácil saber para onde o Brasil vai. Na semana passada, o país de 218 milhões de habitantes, que na primeira década do século ambicionou se tornar uma peça importante no jogo pesado da geopolítica, foi a primeira nação do mundo a eleger para a presidência da República um balão, desses de festa infantil. Um balão decorado com canetinha marca-texto.

E, olhando as escolhas feitas pelos brasileiros nos últimos anos, o Sr. Balão nem parece uma ideia tão ruim.

O Brasil nunca se recuperou do ano de 2020, quando a epidemia global de coronavírus colocou o mundo de joelhos. Aqui, ela se transformou em uma tragédia humanitária capaz de competir com a da África subsaariana. Foram pelo menos 150 mil mortos por covid-19, de acordo com os números oficiais, mas pesquisadores estimam que o total tenha sido de 500 mil. Se você colocar na conta acidentados e doentes de outras enfermidades que não encontraram atendimento por conta de um sistema de saúde sobrecarregado, a epidemia pode ter matado direta e indiretamente cerca de um milhão de cidadãos. É provável que ninguém jamais saiba ao certo.

Quando os cadáveres começaram a pavimentar as ruas, o então presidente Jair Bolsonaro renunciou, antes de ser deposto por uma facção das Forças Armadas, que racharam durante a crise sanitária. Ele fugiu do país, via Paraguai, no porta-malas de um carro.

Se não tivesse fugido, àquela altura Bolsonaro poderia ter sido entregue pelas autoridades ao Tribunal Penal Internacional de Haia. Seria uma tentativa de evitar, na época, o já crescente isolamento do país, que se acentuaria nos anos seguintes. Em Haia, ele faria companhia histórica a outros notórios carniceiros, como o ex-presidente iugoslavo Slobodan Milosevic. Foi esse o nível do que aconteceu no Brasil.

Sem o líder, uma parte pequena, mas radical do eleitorado do ex-presidente se organizou em pequenas células terroristas. Os atentados se espalharam mais rápido do que o fogo na floresta tropical. Bombas explodem pelo país numa média de duas ou três vezes por semana, fazendo mais ou menos estrago. Há menos de um mês, uma bomba caseira foi atirada dentro do prédio de uma universidade federal onde acontecia uma reunião de estudantes. Matou três, e feriu sete gravemente.

Os atentados acontecem à luz do dia, com métodos diversos. As pequenas células funcionam com o mesmo modus operandi que já foi do Estado Islâmico. A atuação é imprevisível. No último ataque, há três dias, três bolsonaristas simplesmente sacaram lâminas em um movimentado calçadão, em uma praia de João Pessoa, capital de um dos estados do Nordeste, e começaram a esfaquear transeuntes aleatoriamente, aos gritos de “Brasil acima de tudo”.

O Brasil, hoje, tem a maior taxa de terrorismo doméstico do mundo.

A economia derreteu. Conforme o país começava sua descida ao inferno, os investimentos fugiram como o diabo da cruz. A desindustrialização alcançou níveis comparáveis aos da vizinha Venezuela. Nos últimos anos, nem um só indicador socioeconômico se manteve sequer estável no país; todos degeneraram drasticamente, em todas as regiões.

O maior plano de carreira a que um brasileiro pode aspirar hoje é obter autorização da banda podre das polícias dos estados para montar, na rua, uma barraquinha de quinquilharias.

Essa é a situação nas maiores cidades do país. Nas menores, acredite, é pior. Em algumas, foi estabelecida uma espécie de segregação, que não é racial ou religiosa, mas ideológica, e milícias patrulham as faixas que dividem essas cidades.

A guerra por terra no interior explodiu, e as chacinas promovidas por pistoleiros a soldo de grileiros, madeireiros, agropecuaristas e mineradores se sucedem. Nos rincões, as fronteiras da floresta amazônica são empurradas para o nada. A comunidade internacional se preocupa cada vez mais com o desmatamento incontrolável, que pode transformar a Amazônia na bomba-relógio da próxima pandemia a assolar o mundo. Os cientistas dizem que a floresta encurralada é um “hotspot de zoonoses”.

Entre os morcegos das matas brasileiras, circulam pelo menos 3.200 tipos de coronavírus ainda não estudados, e os bois da pecuária são o motel de beira de estrada perfeito para que eles possam fazer a travessia até os humanos.

As sanções internacionais impostas para tentar obrigar o país a fazer algo a respeito foram inúteis. Na verdade, só ajudaram a aumentar a temperatura do caos.

Uma reunião de urgência foi convocada pelo G20 para discutir a situação do Brasil nos próximos dias. Parece ser a típica reunião que poderia ser resolvida por e-mail. Não há o que discutir. A terra do samba e do futebol virou uma ameaça para a humanidade.

O Sr. Balão ficará por pouco tempo na cadeira.

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