À mesa, com o coronavírus | Jornal Plural
Clube Kotter
15 mar 2020 - 21h10

À mesa, com o coronavírus

Confesso que não estava tão atento a essa perspectiva acabrunhante até a coisa estourar na Itália, o sistema de saúde colapsar e médicos começarem a decidir quem vive ou morre, por falta de respiradores pra todo mundo

A criança da família tem sete anos de idade e está contrariada. Nos últimos dias, exigem que ela lave as mãos com muita frequência. Não parece lógico.

– Tudo agora é coronavírus. Tudo é coronavírus – reclama, e cruza os bracinhos. – Tá ficando chato isso já. Tudo é coronavírus.

Posso entender o aborrecimento. Estou sentando à mesa, comendo pão de queijo e bebendo café, repentinamente entediado. Quando vou poder novamente me reunir com os amigos para despreocupadamente lustrar balcões de botequins com os cotovelos?, penso. E se eu tiver que passar todo o tempo das próximas semanas lavando as mãos pra poder coçar o olho? No passado recentíssimo, descobri que um olho incoçável coça demais.

Traço um plano infalível pra me manter ocupado e encarar a chatice futura.

Passo 1: rever The Wire.

Passo 2: finalmente ler Graça Infinita.

Passo 3: comprar um quebra-cabeças de mil peças.

Passo 4: resolver 150 cubos mágicos.

Passo 5: limpar toda fachada de um prédio de cinco andares com um cotonete.

É um exagero, mas não para a criança, que segue em um canto da mesa, bracinhos cruzados, cenho franzido, brava como um tigre. Não há o que fazer. Ela convive com velhinhos e outros grupos de risco. Pra ela, no pior dos cenários, não vai passar de uma gripe. Pra eles, pode ser caixão e vela preta.

Confesso que não estava tão atento a essa perspectiva acabrunhante, mezzo calabresa, mezzo escarola, até a coisa estourar na Itália, o sistema de saúde colapsar e médicos começarem a decidir quem vive ou morre, por falta de respiradores pra todo mundo.

Uma noite, lendo os jornais, me peguei preocupado. Minha mãe é imunodeprimida, por conta dos remédios que toma. Me tranquiliza um pouco saber que ela tem uma esperteza viva, não é de dar atenção a lorota e tenta se manter bem informada.

Meu pai não preocupa tanto. É mais saudável do que eu, e tem um apurado instinto de autopreservação, que desenvolveu ainda mais nas décadas que viveu na cabine de um caminhão metido nos rincões do país. De pronto, aderiu com entusiasmo a todas as recomendações de prevenção.

Os dois, juntos, dividem um imbatível senso de coletividade, que conseguiram transmitir para os filhos.

Era sobre isto que estávamos conversando à mesa numa noite dessas, enquanto eu bebia café e comia todos os pães de queijo em que conseguia colocar as mãos: coronavírus, o monitoramento da pandemia pelo mundo, a certeza da subnotificação de casos no Brasil, a possível sobrecarga do sistema de saúde para breve, o imprescindível afastamento social, como se autopreservar para também preservar os outros, e tentar garantir que o tratamento realmente possa alcançar quem vai precisar dele.

Meu pai terminou o Ensino Fundamental em um supletivo depois dos 30 anos, foi a vida inteira um trabalhador braçal. Ele tem plena consciência do que precisa fazer para amortecer o tranco que vem por aí. Um garotão que foi para a universidade e está ansioso para beber cerveja artesanal enquanto vê um show ruim em um inferninho abarrotado da cidade também pode conseguir.

Se você está lendo este texto, dispõe de um notebook ou celular com acesso à internet. Você não precisa de mais de meia dúzia de cliques pra conseguir a mesma informação que minha família consegue. Ela está disponível em texto, vídeo, áudio.

O virologista Átila Iamarino chegou até mesmo a montar um canal no Telegram (https://t.me/corona_atila) para oferecer várias vezes ao dia, de graça e para quem quiser, atualizações sobre a pandemia no mundo e orientações sobre a situação no Brasil.

Spoiler: não foi bonito lá fora, não vai ser bonito aqui dentro.

***

No fim da noite, ainda estou à mesa quando minha mãe comenta, só para desmentir todo o texto laudatório que fiz até aqui:

– Sabe quem tá internada?

– Não faço ideia.

– Fulana.

– Hm.

– Vou visitar ela amanhã no hospital.

– Porra, mãe. E tudo o que a gente conversou até agora?

Dona Tere cai num ímpeto de gargalhada tão grande que precisa segurar os óculos, percebendo imediatamente a estultice que acabou de dizer. Quando consegue falar de novo, diz:

– Tá bom, entendi. Me deu um minuto de bobeira. Eu não vou não. Não entre em pânico. E, na dúvida, também não perca de vista as senhorinhas e as crianças emburradas.

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