Greca, o artista | Jornal Plural
Clube Kotter
21 jan 2019 - 0h00

Greca, o artista

Sandoval Matheus mostra como o decreto de Rafael Greca para ordenar a “arte de rua” pode se tornar uma política higienista para livrar o Centro da cidade de meninos fazendo malabarismo no sinal fechado.

Um camarada com uma sombrinha sob a chuva entoa uma terrível interpretação do hino de Curitiba no meio do Largo da Ordem, cercado pela Guarda Municipal. Eu o etiquetaria apenas como um completo doido varrido se não tivesse assistido ao vídeo provando que lá estava o prefeito Rafael Greca (PMN), no início de novembro de 2018, em mais uma cerimônia dessas sem a mínima serventia, tão folclórico quanto o ministro que, menos de duas décadas atrás, foi incapaz de fazer uma caravela singrar a água – mesmo gastando mais de R$ 10 milhões em valores atualizados.

O que vai pela cabeça do prefeito é algo difícil de dizer, e talvez só descubramos com estudos posteriores de autópsia. Por certo, ele é dado ao fantasioso, folclórico e pitoresco (não consigo pensar em ninguém mais que cantaria o hino de Curitiba sob a chuva sem estar com pelo menos meia dúzia de saideiras na cabeça, ou pagando uma aposta em relação ao desempenho do Coxa num campeonato qualquer). Pedante e com um rosto astutamente bonachão, é como o rei dissimulado de uma fábula infantil.

Acima de tudo, o prefeito é um entusiasta de políticas higienistas. Em agosto de 2017, chegou a remover moradores de rua à força do centro de Curitiba, com a ajuda de sua guarda armada. A ideia sempre foi nítida: limpar sua “amada Curitiba” – ou o que ele entende como Curitiba, basicamente uma espécie de Calçadão da XV Expandido – de tudo aquilo que lhe é desagradável aos olhos.

E muitas coisas são desagradáveis aos olhos do prefeito. Ele se considera um urbanista e poeta, um homem de sofisticada mentalidade europeia, mas na verdade seus discursos e atitudes sempre me fazem pensar em um africâner de erudição rastaquera.

Rafael Greca voltou à carga em dezembro de 2018, quando aparentemente cansou de bancar o Gene Kelly e assinou o decreto 1422. A coisa ficou meio escondida por algumas semanas, enquanto andávamos às voltas com peru, farofa e sidra barata, mas era de se esperar que em algum momento alguém chiasse.

Ao público, via redes sociais (o prefeito é um aficionado por redes sociais e parece não estar muito aí para esse aborrecimento que é administrar), Greca definiu o 1422 como uma medida de “ordenamento urbano” para dirimir conflitos entre artistas de rua “estridentes” e o comércio local.

Está tão longe da verdade quanto eu estou longe de um prêmio de astrofísica. O documento – de redação deliberadamente confusa – não trata apenas do ruído feito por artistas de rua “estridentes”. Trata de limpeza e higienização.

(Não há nenhuma menção, por exemplo, aos pastores que na XV vivem de anunciar aos berros o Juízo Final.)

Senão, vejamos: o artigo número 2 do decreto entende por arte, entre outras manifestações, mímicas, estátuas vivas e artes circenses, incluindo malabarismos. Mas não há registros de estátuas, mesmo as vivíssimas, que no meio de uma apresentação tenham gritado a plenos pulmões Sweet Child O’Mine ou algo do gênero. Mesmo, vá lá, uma coisa desenxabida e sem graça como o hino de Curitiba.

Um show do Guns n’ Roses ou uma estátua viva e silenciosíssima, tanto faz, todos responderão à recém-criada Comissão de Conciliação, que limitará e definirá uns poucos locais de apresentação no centro da cidade (que é o que importa, confere?). Uma tarefa simples se você levar em conta que a Comissão de Conciliação, segundo a formação prevista no próprio decreto, precisará apenas conciliar os interesses da Associação Comercial com seja lá o que esteja no momento dando na telha do prefeito.

Penso, porém, nos malabaristas: aqueles que estão apenas de passagem na cidade a fim de reunir uns trocados para seguir viagem ou os moleques na periferia que mendigam moedas no sinal enquanto atiram para cima bolinhas de tênis – com variáveis graus de sucesso, é verdade. Eles serão retirados das esquinas? Com base no decreto, é perfeitamente possível. O que eles podem ter feito?

Eu procurava francamente quem pudesse me dizer que incontornável incômodo ou perigo ao comércio representa um pobre diabo atirando bolinhas de tênis num sinal. O que se pode contrabandear em bolinhas de tênis? Diamantes de sangue de Serra Leoa? Heroína do Afeganistão? Ou estariam os moleques ameaçando os motoristas, atirando bolinhas de tênis contra os para-brisas?

Aparentemente, jamais saberei, e não foi por má vontade. Passei a tarde de terça-feira, 15, ao telefone, com uma dúzia de pessoas da administração municipal, sendo atirado como uma bolinha de tênis (pronto, agora estou com ideia fixa) de um departamento a outro, sem conseguir uma única justificativa para o decreto.

Quem quiser alguma, precisa de sorte ao garimpar todos os disparates que o prefeito gosta de alardear em redes sociais. Duvido, no entanto, que haja qualquer coisa mais sólida do que a vontade de Greca e da Associação Comercial de tornarem Curitiba “respeitável”.

E sempre que escrevo a palavra “respeitável” penso imediatamente em John Huston em Chinatown: “Sou respeitável porque sou velho. Prostitutas, políticos e prédios feios também se tornam respeitáveis se durarem tempo o suficiente”. 

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