Valor inbox | Plural
20 jul 2020 - 20h58

Valor inbox

A palavra promoção já bota a tênia pra sambar. Clico. O link me redireciona para a página da loja. Tudo muito bonito. Automaticamente a janelinha das mensagens se abre, convidativa.

Eu só passo raiva com lojas que anunciam produtos sem o preço. Olha o absurdo que me aconteceu outro dia:

Aparece pra mim um anúncio no Facebook, um desses posts patrocinados de uma determinada loja. Uma elegante camisa que certamente deixaria meu torso com uma aparência belamente torneada. “Clique aqui e confira esta oferta e outras promoções.”

A palavra promoção já bota a tênia pra sambar. Clico. O link me redireciona para a página da loja. Tudo muito bonito. Automaticamente a janelinha das mensagens se abre, convidativa.

“Oi… vi uma camisa que achei bonita, uma roxa, amarela e laranja, toda combinante, mas não encontrei o preço…” Imediatamente uma mensagem de resposta aparece, a impressão é que veio antes mesmo de eu apertar o enter, me assusto, nossa, os oompa-loompas do Zucke são ágeis demais: obrigado pelo contato, para um atendimento mais ágil favor nos contatar pelo WhatsApp” e o número da loja.

Bem, eu realmente gostaria de um atendimento ainda mais ágil, no mundo de hoje agilidade é tudo, e nada define com mais precisão o conceito de agilidade do que ficar navegando entre diferentes plataformas para obter uma informação, então imediatamente eu adiciono o número deles e mando uma mensagem: “Oi, é da loja Caprycho & Ellegâncya?”, tomo cuidado para acertar o nome da loja, e depois de uma nova mensagem automática alguém fala comigo: “oi, é sim, como posso ajudar?”.

“Finalmente um humano nesse mundo cada vez mais desumano”, lamenta meu espírito poético, mas a alegria do consumismo suplanta a frescurada quando me imagino dentro da camisa que desejo.

– Queria saber o valor da camisa roxa, amarela e laranja desse anúncio.

O atendente me explica que ela está mesmo em promoção, além de várias outras, e que ficará feliz em me atender quando eu puder visitar a loja, oportunidade em que me dirá o preço dessa e de várias outras peças que lá se encontram à disposição de clientes de bom gosto, como eu.

Um pouco triste, mas já em posse do endereço, vou até o local. Uma placa grande deixa claro que aquela é a loja certa. Adentro o estabelecimento e um rapaz sorridente me aborda e escolta até a seção de camisas. A peça que eu gostei está lá, reluzindo, pronta para me vestir.

– Quanto custa?

O moço faz uma cara constrangida e me diz que os vendedores não são autorizados a informar valores ali, publicamente. Fala baixinho:

– Vamos no provador que eu te conto.

Mas credo, que absurdo é esse? Enfim, já que já vim até a loja, vamos lá. Chegando no provador, pergunto novamente o preço, e sou surpreendido com a nova resposta:

– Só se você me der um abraço.

Entrego o destino às mãos do Criador e abraço o rapaz com raiva, já perguntando entredentes o preço da camisa. Ele, meio sem ar, responde:

– No meu bolso tem um bilhete com o valor.

A que level chegamos, reflete meu eu gamer. Já completamente transtornado, reviro seus bolsos (com dificuldade, já que ele se contorce dando risadinhas de cócegas) e encontro um papel dobrado. Saio do provador abrindo o bilhete, onde está escrito: “Torre da Telepar, 15h. Vá sozinho”.

Percebo que o procedimento é antigo: já não se chama mais “Torre da Telepar” há vários anos. Pego o celular para ver o horário. Se eu chamar um Uber agora consigo chegar a tempo. É o que faço.

No caminho, o motorista sem máscara me apresenta uma teoria segundo a qual o coronavírus é uma invenção da China e dos taxistas para desmoralizar o governo e que, por isso, eu deveria deixar de ver a Globo e em hipótese alguma entrar num táxi, então acabo nem tendo tempo para pensar no absurdo que está acontecendo.

Quando chego em frente à Torre meu celular toca: um número desconhecido. Na certeza de que é cobrança, ignoro. Ele insiste. E insiste. E insiste. Atendo e uma voz misteriosa diz:

– Estou aqui em cima.

“Mas a Torre está fechada”, penso. Um único guarda, dormindo, finge vigiar a entrada. Olho para cima e sei que já estou envolvido demais para voltar atrás: agora preciso subir. As palavras do poeta gaúcho ecoam na minha mente: eu não vim até aqui pra desistir agora.

Elaboro o plano de fingir que sou um turista desavisado para tentar entrar, mas não será necessário: percebo que o guarda não está dormindo. Está morto. Rapidamente vou até o elevador e subo à Torre.

A visão panorâmica da cidade apenas amplia a sensação de perigo. Um homem muito sombrio de uns 60 anos está fumando um charuto, olhando em direção à Cidade Industrial. A fumaça do charuto contrasta com a fumacinha que sobe do bairro. Não demonstro medo. Firme, olho para ele e pergunto:

– Quanto custa a camisa?

Ele sorri. Coloca o dedo em frente aos lábios e diz:

– Shhh. Ingênuo. Tá escutando?

É o som de um helicóptero, pousando no topo da Torre. Eu nem sabia que dava pra fazer isso. Ele diz:

– Desculpe. É pro seu próprio bem. Estamos apenas pensando no melhor atendimento para nossos clientes.

Demonstrando enorme perícia, o homem me imobiliza e coloca um paninho com cloroquina na minha boca, me fazendo desmaiar.

***

Acordo desorientado, não sei quanto tempo se passou. Estou em uma espécie de porão, a umidade no ar deixa isso claro. Há um grupo de pessoas reunidas em silêncio em um canto do ambiente, que se parece com uma espécie de igreja medieval, seja lá como for uma igreja medieval.

No altar, um homem veste uma túnica branca chiquérrima e olha para mim em silêncio. Vou aos poucos tomando consciência de meu próprio estado. Estou sentado em uma cadeira no meio dessa sala enorme.

Levanto-me e vou até o altar, cambaleando. Ele me encara, impassível. Pergunto:

– Quem é você?

– E isso importa?

– Tem razão. Agora já não importa.

– O que você quer saber de verdade?

– Quanto custa a camisa?

– 250. Vamo aproveitar a promoção hoje, vizinho?

– Hoje não, só estava dando uma olhadinha.

– Faço 230 pra você, vizinho.

– Hoje não mesmo, mas obrigado, viu?

– Por nada! Já tem o cartão da loja? Vamo fazer?

– Outra hora, obrigado mesmo.

– Beleza, vizinho, qualquer coisa aparece aí.

– Beleza, valeu.

Ele estende sua mão me indicando uma porta, atrás da qual há um longo corredor que dá para uma galeria pluvial, por onde caminho por algumas horas até desembocar em um bueiro próximo da Praça Ruy Barbosa. Volto para casa imensamente cansado.

Perdi o dia inteiro nessa palhaçada. Eu só passo raiva com lojas que anunciam produtos sem o preço.

Assuntos:

Últimas Notícias