Uma palmeira simples | Jornal Plural
27 jan 2020 - 23h51

Uma palmeira simples

Uma árvore, nos bárbaros tempos que correm, precisa se proteger, mais do que nunca

Sou uma palmeira simples, vivo nas proximidades do Colégio Estadual, e hoje sirvo de adorno à fachada de um desses prédios que cada vez mais enfeiam a cidade e se pretendem de alto padrão. Aceito o meu destino, mas peço a vocês a gentileza de não me chamarem, por favor, de palmeira ornamental. Esse adjetivo traz em si uma carga para mim intolerável de indignidade e imprecisão. Árvore nenhuma o merece ou precisa dele, nem as cultivadas para esse fim. Além disso, essa não é, nem de longe, a minha condição. Nasci por acaso e aqui mesmo, numa esquina da Rua da Floresta, sem nenhuma outra missão que não a de crescer e verticalizar-me. É o que busco fazer. Mas bastou um dia construírem ao meu lado este predinho de arquitetura rebuscada para tudo mudar. Desde então, é como se eu houvesse nascido somente para saudar meus vizinhos condôminos. Tornei-me um triste pórtico.

Desnecessário dizer que nada disso importa às palmeiras. Nem o luxo dos condomínios nem o que os humanos pensam a nosso respeito. Eu sou assim. Apenas procuro me manter mais ou menos ereta em meu posto, embora já um tanto curvada pelos ventos que sobem e descem, cada vez mais desgovernados, as ladeiras do Alto da Glória. Como sou uma palmeira particularmente solitária, não sei precisar a que espécie pertenço, nunca estudei botânica, e tal conhecimento me seria irrelevante. Não alteraria o meu modo de ser uma palmeira. Quer dizer, se sou um butiazeiro, como já ouvi comentarem, se sou um jerivá ou coisa diversa, para mim tanto faz, não muda nada. Prefiro ser um mistério, uma palmeira sem nome, nem propósito, nem descendência. Do meu caule, aliás, nunca vi brotar nada além de folhas e espinhos, e fico me perguntando se isso é normal, se é culpa minha, se não teria me distraído e desperdiçado alguma oportunidade única de florir e frutificar. Mas a verdade é que ainda não tive chance de revelar ao mundo o grande segredo de minhas flores, e isso, reconheço, me magoa.

Bom, paciência. Como eu já disse, às palmeiras não convém que se importem com coisa alguma. Eu não me importo. Nunca. Embora haja quem pense exatamente o contrário. Este homem e suas duas filhas pequenas, por exemplo, que sempre passeiam pela Rua da Floresta, discutindo assuntos que não devem interessar a mais ninguém. Nunca deixam de me visitar. Param aqui embaixo e olham para cima, boquiabertos, admirados da minha presença.

Não porque eu seja, conforme já esclareci, involuntariamente ornamental e, por conta disso, inescapavelmente bonita. Não. O fato é que não sou bonita, sou até um tanto feia para os padrões românticos em geral associados às palmeiras. Sou desanimada, pareço fraca, prestes a morrer. É como se este solo em que cresci, tão pobre, estivesse desde sempre fazendo o possível para me manter viva e apresentável. Não sei, sinto que o ar daqui está intoxicado. Inconcebível alguém olhar para mim e remeter-se àquelas velhas imagens de oásis noturnos, ilhas desertas e paraísos tropicais, sensuais aventuras no Oriente. Não, admito que sou apenas uma palmeira deslocada, diminuída entre prédios presunçosos, mas uma palmeira que, mesmo torta e sem graça, não se furta a uma pequena vaidade. Vejam: bem na pontinha desta minha longa folha palmada, equilibro um vespeiro lindíssimo, bem mais bonito do que eu, e o faço com toda empáfia a que tenho direito, como se ostentasse o mais valioso, o mais extravagante dos brincos.

Trata-se de um enxu perfeito, esférico e instável como o nosso planeta, mas tão leve, tão elegante neste vaivém pendular a que o submeto, que de imediato desperta em quem o vê a vontade nada salutar de chutá-lo. E é justamente isso que encanta aquele homem e suas filhas: a sensação de que, com este meu balanço cadenciado, este sobe-e-desce de vespas e ferrões sobre suas cabeças, eu esteja de alguma forma não só marcando o andamento de nossos dias, mas também a sua terrível precariedade.

O enxu, por sua vez, parece contar as horas até sua própria queda. E não exagera ao esperar o pior. Esta folha, em cuja frágil extremidade ele agora se agarra, está, como tudo que é vivo e dinâmico, envelhecendo. Mês a mês, a folha nitidamente vai se acobreando, perdendo um pouco do seu verde, da sua flexibilidade, da sua força, e tornando o enxu mais pesado, mais difícil de sustentar. Ouvi inclusive aquele homem dizer às filhas que este vespeiro seria como uma espada de Dâmocles desregulada, cínica e irreverente, que escolheu pairar, ameaçadora, sobre a cabeça de qualquer um, e em especial sobre a daqueles que já não têm nenhum poder, apenas desejos, carências e prejuízos a administrar. Escuto essas bobagens e rio, me farfalhando toda.

Não sou assim tão perversa. Vivo há anos nesta mesma calçada, onde me coube um trecho de grama sempre bem aparado, numa esquina aprazível, provavelmente mantida assim pelo dinheiro dos condôminos do prédio a que, sem querer, acabei ornamentando. Os cachorros da região, tantos os de rua quanto os de apartamento, adoram a cor e o cheiro desse gramado, e se aliviam e se espojam sobre ele, sem de mim sentirem qualquer vergonha. O mesmo fazem estes homens e mulheres que vivem e dormem pelo bairro, a céu aberto (e há cada vez mais deles). Eu os aceito a todos, sem distinções, humanos e cães. E se alguém por aí disser que eu não tenho escolha, que sou obrigada a acolhê-los, não estaria mentindo, eu sei. Mas tenho sim as minhas preferências, minhas noções do que considero bom e prazeroso. E talvez eu goste de saber que de vez em quando alguém dorme à minha sombra, e sonha livremente debaixo de minha coroa e desta colônia de insetos trabalhadores, enquanto tantos e tantos outros passam por mim todos os dias, a caminho do trabalho, da escola ou da canaleta do biarticulado, e me ignoram completamente, e nunca olham para cima, e jamais reparam no vespeiro que me confere, eis a questão, eis a ironia, um insuspeitado poder de fogo.

Sim, um dia esta folha se desprenderá de mim e, com ela, o enxu que me enfeita e empodera. Até lá, porém, eu o acalantarei como a uma arma. Uma árvore, nos bárbaros tempos que correm, precisa se proteger, mais do que nunca. Por isso, enquanto puder, embalarei este vespeiro e as vespas que zumbem ao seu redor, e velarei pelos cachorros e por sua imundice, e pelos homens e mulheres que me procurarem atrás de descanso. Continuarei balançando ao vento minhas folhas compridas, feito uma canastrona esfregando as mãos, antecipando sua vingança, divertindo-se com planos e pensamentos secretos, fantasias a que ninguém nunca terá acesso. Pois enquanto eu puder dançar e farfalhar, fazendo subir e descer este enxu que me embeleza, que me torna tão invulgar, serei simples e feliz, como uma criança do século passado brincando com seu ioiô.

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