Noite no Brasil | Jornal Plural
Clube Kotter
25 jun 2019 - 6h00

Noite no Brasil

Pellanda relata sons e visões na madrugada curitibana

1

Há madrugadas em que me levanto e vou à janela, sondar a escuridão do Brasil lá fora. Registro, com certa apreensão, que ela é grande e assombrada. Sei, é claro, que há vários Brasis e que, sobre cada um deles, parece espraiar-se uma escuridão específica, mais ou menos densa. Mas não. No fundo, isso está errado. A escuridão sobre nós é uma só. O que nos separa é o quinhão de luz disponível a cada brasileiro.

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Entrevejo a escuridão do país a partir de Curitiba, de uma janela alta na Amintas de Barros. Há momentos na madrugada, preciosos, em que tudo parece quieto, e me sinto tentado a chamar de paz a essa esterilidade que me cerca. Mas se apuro bem o ouvido, percebo que a sensação é falsa. Há sempre um alarme, longe ou perto daqui, soando no escuro da cidade. Como um robô que zela por nós, esgoelando-se. O vigilante nada mais é do que um histérico numa camisa de força.

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Em minha quadra, há cada vez mais moradores de rua. Um deles é um jovem cuja principal distinção é a de sempre carregar consigo um pandeiro. Entre os colegas de marquise, organiza rodas de capoeira em que ninguém ginga, ninguém bate palmas, ninguém canta. Só ele se mexe. Seu corpo é uma central elétrica, uma usina viva. Quando anoitece, no entanto, o trânsito pesado do Centro, com seus arrancos e buzinas, acaba por encobrir a voz e a música do capoeirista. E à medida que seu braço cansa, vão se apagando, uma a uma, as janelas dos prédios ao redor.

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Quando o trânsito se amansa, soam pela rua os universitários da Reitoria, feito as matracas de um ambulante anunciando as coisas boas da vida. Cada estudante, por si só, já é toda uma manifestação. Uma passeata íntima a caminho de casa ou do bar, da aula ou da cama. A caminho do futuro. E o futuro é a escuridão ainda intocada.

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É tarde, os estacionamentos já fecharam. Chove. O asfalto começa a esfriar. Chegou a hora das ambulâncias, que entram e saem do HC com seu destacamento sempre renovado de doentes e feridos. Da minha janela, acompanho a ciranda das luzes vermelhas que avançam por entre os prédios da região. Me envergonha achar bonito um espetáculo tão triste, mas acho. Acho especialmente bonito quando se avermelham a copa dos áceres e dos cinamomos, a fachada sóbria de nossas casas, as cortinas do meu quarto e até as minhas mãos, por trás da vidraça. Não, o giroflex não é o único dispositivo luminoso, no Brasil, a nos salvar da escuridão absoluta, mas é certo que, de um jeito torto, a embeleze.

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Meu prédio, de madrugada, é surpreendentemente silencioso. Conta com paredes grossas, de meio século de idade. Meus vizinhos talvez sejam barulhentos, talvez não, não sei dizer. Não são eles que me mantêm acordado à noite, jamais ouço seus passos ou suas vozes. Por outro lado, há o barulho plácido das águas que descem sem parar pelo encanamento do edifício, transportando dejetos orgânicos, pele descamada, espuma de banho, fios de cabelo, sangue. Alguém está se lavando, alguém está usando a privada, alguém puxou a descarga: a água nos informa da existência e da intimidade dos outros e, à margem desse rio, tão calmo, vamos vivendo.

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Às vezes, às duas ou três da manhã, os azulejos do meu banheiro zumbem de um modo misterioso, como se um gato ronronasse atrás deles. É que um vizinho, difícil saber qual, acaba de entrar numa banheira de hidromassagem. Quem sabe se lúbrico, bêbado ou deprimido. Não importa. As paredes do meu prédio se manifestam por seus moradores.

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De madrugada, ouço as seriemas do Passeio Público. Elas ganem como cães em pânico, confundindo os cachorros da vizinhança. Eles, que jamais viram uma seriema, acordam e latem em coro. Alguns parecem bravos, outros desesperados. Há uivos, de vez em quando. E, juro, uivos humanos.

9

Volta e meia aparece por aqui uma mulher de natureza explosiva, tão pequena que é quase impossível enxergá-la dentro das roupas largas que usa. Não sei se é jovem ou velha. Sua função parece ser a de acordar os homens debaixo das marquises e distribuir, entre eles, as mais ignóbeis acusações. Aponta o dedo para um e diz: Você é um assassino. Depois para outro: Você, um ladrão. Ou: Você, um estuprador. Sempre convicta, denuncia: Este aqui tentou me matar, aquele outro me roubou, este me comeu e aquele me bateu, este eu amei e me largou, me deixou, me perdeu. Os homens reagem com raiva e a ameaçam de morte, aos gritos, embora nunca neguem as imputações. Ela grita de volta, eles a expulsam, ela vai embora, as ambulâncias passam, mas eles não param de gritar.

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É comum ser despertado pelo som de freadas e batidas de automóveis na Rua XV, na Amintas ou na Conselheiro Araújo, sempre no cruzamento com a Faivre. Quando um acidente noturno acontece, é como se meu coração fosse feito de lata e alguém o amassasse, ruidosamente, durante um sonho.

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Daqui a pouco o inverno terá passado e os sabiás dominarão as noites brasileiras. Por enquanto estão quietos. As últimas horas da madrugada pertencem aos alarmes e às sirenes. Cabe às máquinas prenunciar o início das manhãs nesta porção de Brasil que rodeia o meu prédio. Quando amanhece, porém, tudo muda. Um bando de papagaios de testa azulada logo se instala nas antenas vizinhas à minha janela. Papeiam, até que civilizadamente. Lá embaixo, ouço religar-se o pandeiro do capoeirista da esquina. Às vezes alguém mete a cabeça pela janela e esbraveja, pedindo a ele que se cale, e o chama de idiota, palhaço, vagabundo, e lembra que é cedo, é sábado, é feriado. Quem trabalha gosta de dormir. Mas um cantador não se cala, e por que faria isso? Se fechasse a boca, ele sabe, sumiria no ar, desmanchando-se à brisa. E as manhãs do Brasil ficariam sem ter quem as cantasse.

 

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