Locutores de calçada | Jornal Plural
6 mar 2019 - 11h45

Locutores de calçada

Luís Henrique Pellanda conta como uma família de haitianos quase fez um locutor chorar em plena rua, emocionado com os elogios que recebeu

Às vezes o discurso de um homem pesa menos que o microfone que ele empunha. Os locutores de calçada sabem disso. Não importa o que vendem: refeições, sapatos, cosméticos, conveniências. Importa o jeito de vender. Não o que se diz, mas como. Um bom preço é essencial, claro, só que para o consumidor pragmático, não para a plateia que passa. Cliente mesmo é um bicho raro, tão escasso quanto o dinheiro. Plateia, por sua vez, é mato, brota entre as pedras da rua. Para ela, o que conta é o carisma da abordagem. A rememoração da infância ao som das falas familiares, o eco da rádio de antigamente. O arco de toda uma vida revista num instante, das manhãs de domingo no interior às madrugadas solitárias na cidade. O povo tem o ouvido diretamente ligado ao coração. Importante é o timbre perfeito, a modulação exata. E os locutores de calçada dominam tudo isso. Reis sem trono, você nunca os verá sentados sobre os seus amplificadores. Passam o dia de pé, altivos. O cetro sempre em riste.

Tenho os meus locutores preferidos, e eventualmente até me enrosco pelo Centro, paro num banco de calçadão ou num balcão de café só para assisti-los com calma. Meu favorito trabalha na XV (não direi quem o emprega, nem o que divulga). Gosto de vê-lo ao meio-dia, quando o movimento é mais frenético. E não só porque profere cada sílaba como se a cantasse numa nota musical única, recém-descoberta, mas porque tudo, em seu estilo, é planejado em detalhes. Consciente de seu potencial, sente o peso do microfone, quer nos agradar e sofre com essa responsabilidade. É pago para nos seduzir com a voz, e essa estranha convicção de produzir beleza por conta própria o atrapalha e embevece, o humaniza ainda mais.

Tudo, em sua figura de artista, ele quer que se equipare à excelência do seu timbre e da sua dicção. Tudo nele é projetado para atrair. A mecha descolorida no cabelo, alourada, o excesso de pomada no topete, ereto feito um penacho. Lembra, às vezes, um pássaro. Quantos anos têm? Não interessa, a voz é jovem. As roupas impecáveis, cuidadosamente escolhidas. Nunca um par de chinelos, jamais uma bermuda, calça curta é para moleques, e não para sedutores sérios, comprometidos. A camiseta estampada com motivos majestáticos (a coroa, a cruz, a águia-de-cabeça-branca) está sempre justa demais, revelando um locutor não exatamente gordo, mas, para usar de alguma benevolência, quase harmônico em sua mistura de músculos, banha e sensualidade. E o fato de portar uma grossa aliança dourada na mão esquerda, e de não a esconder enquanto seduz toda uma população, tudo isso o torna mais cativante.

Destaca-se, todavia, pela generosidade. Elogia e saúda ao microfone todos os colegas de profissão que vê passarem por ali, indo e voltando dos bandejões da região, em horário de almoço, palitando os dentes. Os amigos acenam de volta, emocionados. Mas, como todo sujeito que se crê a um só tempo gentil e poderoso, ele não tem nenhum poder realmente tangível. Trabalha com o imaginário, vive num mundo de faz-de-conta, de sonho. Porque a verdade é que muito poucos notam a sua presença, ou mesmo ouvem sua voz, desinteressados do que propõe e representa. É uma gente premida por problemas pessoais insolúveis, gente que o desamor, o vazio, o desemprego, a raiva ou as dívidas ensurdeceram. Mesmo assim, o locutor também sorri para elas, se deixa enganar pela ilusão de um sucesso absoluto, mais amoroso que comercial. Ah, ter uma voz bonita é também um perigo, pode conduzir um homem sóbrio a extremos de indiscrição e tagarelice, transformando-o num Narciso linguarudo. Mas não será culpa dele, não totalmente.

Um dia vi uma família de haitianos recém-chegados parar num banco diante do locutor, só para ouvi-lo. Sorriam, maravilhados com a musicalidade do que ele dizia, embora não apreendessem, de seus anúncios, uma só palavra. O grupo e o locutor, simpáticos um ao outro, logo tentaram se comunicar, primeiro em português, em francês e em crioulo. Depois por meio de monossílabos em inglês. Por fim apelaram também para a mímica. Em suma, entenderam-se.

Os haitianos só queriam parabenizá-lo pelo timbre encantador, e era fácil perceber que um deles também tinha uma voz lindíssima, treinada para as grandes cerimônias. Comovido diante de tamanho reconhecimento internacional, o locutor por pouco não chorou. Abraçou os forasteiros, um a um, desejando que fossem todos muito bem-vindos ao Brasil. Obrigado, disseram os haitianos, várias vezes e em português, obrigado, testando o som daquela novidade bonita, a primeira palavra que aprendiam em nossa língua, obrigado, obrigado.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Últimas Notícias