16 mar 2022 - 9h00

Já fui tarde

Oremos, portanto, pelas árvores e, sobretudo, não falemos dos imbecis, não agora. Perdi o superpoder da tolerância, que João do Rio prescrevia a todo e qualquer cronista. Dane-se. Falemos dos imbecis somente quando necessário

É meio-dia, hora em que, no verão, o cachorro se enrosca à sombra. Preciso buscar o almoço, passo o protetor solar, ajeito o boné. As ruas estão novamente cheias de rapazes e moças, só que agora, ao ir e voltar de suas baias e balcões, todos carregam marmitas de isopor em sacolinhas, num pujante trânsito de alimentos. É gente que corre pra lá e pra cá, plena de uma fome apenas provisória, uma fome comum de funcionário, e que mal se olha nos olhos. Não gostam de ser vistos com um prato de comida na mão.

Entro no restaurante e sou recebido com festa. É uma alegria rever em boa forma quem sempre nos quis bem. Cumprimento com o punho fechado o punho fechado da cozinheira chinesa que, há anos, nos prepara os PFs. Enquanto trabalha, botamos a conversa em dia. Más notícias. Ela perdeu a mãe para a Covid, seu estabelecimento quase quebrou, mas a mulher resistiu a tudo. Continua lá, firme como uma muralha que aos poucos nos deixa entrever, por entre as pedras com que a erigiram, algumas passagens secretas, docemente iluminadas. Sente saudades da China, saudades de praia e mar. Me entrega as marmitas, eu pago no débito, sorrimos por trás das máscaras, e ela me diz que daqui a dois, três meses, tudo isso será passado. Eu faço que sim com a cabeça, tomara, e ela me repassa um punhadinho de balas de iogurte, com a recomendação de sempre: Leva pras suas meninas.

Eu levo. Almoçamos e saímos correndo, rumo à escola. O tempo voltou a ficar curto. E quente. O sol descobriu os curitibanos e por três semanas não nos dá descanso. Sorte ainda termos árvores pelo caminho. Algumas, aliás, bem novinhas. Na Faivre, um reflorestador anônimo plantou diversas mudas de goiabeira, ameixeira, araucária. Agradeço, mas já me preocupo. Se nenhum imbecil as quebrar nos próximos anos, será um milagre. É incontável, afinal, o número de imbecis proativos por aí.

Oremos, portanto, pelas árvores e, sobretudo, não falemos dos imbecis, não agora. Perdi o superpoder da tolerância, que João do Rio prescrevia a todo e qualquer cronista. Dane-se. Falemos dos imbecis somente quando necessário. Agora é hora de voltar às ruas e contabilizar nossas baixas, de reencontrar quem ainda vale a pena reencontrar, saudar as paineiras floridas e dar adeus às muitas casas que vêm sendo postas abaixo por aqui. É a demanda represada do mercado imobiliário. Dezenas de pedreiros agora se esfalfam em nosso percurso até a escola. A paisagem é outra, as vozes são outras, assim como os cantos e as imprecações de trabalho. As rádios evangélicas e as melodias neossertanejas se misturam, estridentes, ao grito dos jacuguaçus no Cemitério Luterano. No fim do dia, barulhenta, a juventude dos peões se enfileira na esquina de certa obra, à espera do micro-ônibus que a vai devorar inteira para regurgitá-la somente aos pedaços, e bem mais tarde, em vilas remotas que alguém decidiu chamar de Paraíso, Conquista, Grécia, Jardim Europa. Fumam até o exato instante do embarque, e só então vestem suas máscaras de pano, de má vontade, após jogar no meio-fio o cigarro que mal tinham acabado de acender.

Falando nisso, muita gente hoje voltou a fumar. Ou é impressão minha? Pode ser. Eu mesmo gostaria de comprar um maço, mas só para reacender em mim o prazer de portar fogo nos bolsos, aquele poético hábito de incendiar ervas e papéis industrializados apenas para ler na fumaça um presságio positivo ou, numa projeção mais utilitarista, espantar de vez estes mosquitos com que a canícula nos tem brindado na Carlos Eduardo de Leão. Ah, como temos suado! Os cogumelos explodem entre as pedras da calçada, as lagartas escalam os plátanos, em busca da mariposa que já as habita. Até butucas, agora, têm nos atacado na Rua da Floresta. Além do protetor solar, é preciso encharcar-se também de repelente. Os passarinhos não estão dando conta de tanta comida. Deve ser o calor, que os faz desistir de certos voos. Voar, afinal, só quando necessário. Comer, só quando necessário. Matar, só quando necessário.

Na João Gualberto, minha caçula encontra um dente-de-leão. Não qualquer dente-de-leão, mas o dente-de-leão perfeito. Há quanto tempo ela não vê um destes? A menina se empolga, colhe a flor com cuidado, para que não decolem antes da hora as suas sementes, e então elabora um desejo íntimo, mudo (sim, ela cresceu e aprendeu a cultivar segredos). Assopra o dente-de-leão, mas, é pena, nada acontece. Ele se mantém intacto, íntegro em sua branca redondeza. As sementes se apegaram à flor? Não. Foi a criança que esqueceu de baixar a máscara de ursinhos panda que lhe cobria a boca e o nariz. Sim, minha filha, vivemos uma nova época de interdição de desejos. O riso, no entanto, ainda nos é permitido, e por isso rimos, os dois, desse pequeno esquecimento, rimos por, no mínimo, meia quadra. E quem é que pode atualmente prescindir de meia quadra de alegria?

Minutos depois, já sozinho, passeio pelo Largo Bittencourt quando recebo, na cabeça, uma pá de terra. Não é algo que eu esperasse receber numa tarde de sol ardente. Um operário cavava um buraco na praça e, ao catapultar a terra em direção a uma caçamba, errou o alvo. Olho para ele, perplexo. Ele me olha por debaixo da larga aba de seu chapéu de palha e sorri. Não usa máscara, pinga suor, pede desculpas, de um jeito não muito sincero. Eu, de máscara, sorrio também, e até dou risada. Aquele homem, que agora ri com a pá nas mãos, um pé dentro do buraco e outro fora, me lembrou um coveiro. Fui simbolicamente enterrado, penso comigo, mas tudo bem. Algo em mim estava mesmo precisando morrer. Agora está consumado. Bato a terra dos cabelos e dos ombros e sigo em frente. Já fui tarde.

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