As ruas perdidas | Jornal Plural
Clube Kotter
6 abr 2020 - 19h16

As ruas perdidas

Saudade da selva noturna. Saudade do grito de socorro, do berro de pega-ladrão, do avião voando baixo, do sistema de som na caçamba da saveiro

1

Da minha janela, num décimo terceiro andar da Amintas de Barros, vejo que as florações das árvores-da-china estão mais bonitas este ano. E a mistura de verde, rosa e amarelo em suas copas nunca me pareceu tão feliz. Entre elas, há tempos, elegi alguns espécimes de predileção. Um deles está na Conselheiro Araújo, perto da panificadora Pote de Mel. Outro, na Faivre, em frente à Residência Belotti. E um terceiro, o meu favorito, de longe o mais belo de todos, também na Faivre, se ergue atrás do muro do Círculo Militar. Esse último, infelizmente, é o único que não consigo avistar da minha janela. Há um prédio entre nós. E como não posso nem devo ir até ele, meu exercício agora é imaginá-lo ainda lá, imenso, mais florido do que nunca. E desejar que as florações das árvores-da-china deste ano, tão exuberantes, de algum modo nos sirvam de bom presságio.

2

Vou do quarto ao banheiro, do banheiro à biblioteca, da biblioteca à cozinha e, da cozinha, de volta ao quarto. Carrego comigo um copo d’água, uma xícara de chá, um livro policial, uma trouxa de roupas sujas, uma sensação de inoperância, o remédio para a pressão, a preocupação com os trabalhos que já escasseiam. No caminho desvio das crianças, que se lançam pelo corredor, escalam os móveis, rolam nos tapetes, brincam e brigam com a própria sombra. Vou e volto, daqui até ali, vou e volto, um dia depois do outro.

Avalio os primeiros efeitos do outono nas plantas de casa. A avenca pede ajuda. A espada-de-são-jorge e a espada-de-santa-bárbara vão bem. As samambaias se desfolham. As heras resistem com galhardia. O asplênio foi atacado por centenas de formigas. A dracena, antes tão vermelha, está desbotando. A peperômia cresce em cascata. A jiboia chora todas as manhãs. O rabo-de-burro balança ao vento. A cheflera amarelece. A batata-doce brotada se exibe em fabulosas evoluções. O rosário secou e morreu. É preciso agir. Podo, rego, adubo. Boto as árvores-da-felicidade no box, para tomar uma chuva. Faço tudo isso demoradamente. As meninas querem ajudar, me cercam, imploram por tarefas, pelo fardo ou pela dádiva da responsabilidade. Dou a elas um borrifador. Dou a elas instruções precisas. Uma missão nobre. Cinco minutos depois o apartamento é um campo de batalha, e todos estamos molhados.

3

Até poucos dias atrás não se via ninguém nas janelas ao redor do meu prédio. Só eu olhava para fora, ruminando o mistério já antigo de tantas ausências. Cada moldura vazia era todo um universo que se desperdiçava. Agora não. Aos poucos passo a conhecer a cara e a silhueta de meus vizinhos. Olham para fora, se espreguiçam, suspiram, tomam sol, batem panelas, gritam. Olham para mim, para o céu, para as ruas que provisoriamente perdemos.

Lembro de uma frase perfeita de João do Rio, uma que nunca deixo de repetir nas minhas oficinas. Ele dizia que os desgraçados não se sentiam de todo sem o auxílio dos deuses enquanto diante de seus olhos uma rua se abrisse para outra. Tendo a concordar. E estando agora na minha janela, alerta e bem instalado, posso garantir a vocês: as esquinas ainda estão lá embaixo, continuam a se abrir umas para as outras, esperando apenas que os desgraçados voltem a quebrá-las.

4

Um vizinho, no meio da madrugada, começa a fazer polichinelos diante de uma grande janela escancarada. Todas as luzes de seu apartamento estão acesas. Parece, ao longe, um palhacinho de brinquedo dançando por sua saúde. Não é um espetáculo encenado especialmente para mim, mas imagino que somente eu, agora, o esteja assistindo. E ele decerto imagina para si um espectador ilusório, desconhecido, ideal, postado em alguma das mil janelas escurecidas diante dele. Estamos ligados de um modo incerto, mágico, e essa ligação, mesmo frágil, de repente confere àquele instante uma aura de sonho. Entre as nossas janelas, então, se estende uma ponte pênsil, desmoronadiça, mas que, ao menos temporariamente, suspende os efeitos de qualquer ansiedade. Daqui eu o aplaudo. E respiro.

5

Ali um vizinho passa o aspirador. Ali um outro guarda as roupas recém-passadas. Ali a menina na cama, com a gata entre as pernas nuas e os olhos presos ao celular. Ali um velho cumprimenta do sofá o apresentador de um programa policial vespertino. Ali uma moça surge de biquíni amarelo na sacada. Ali uma senhora e sua cuidadora, ambas mascaradas, espiam o vazio pela fresta da cortina de renda. Ali uma gaiola de passarinho é pendurada para fora do prédio. Ali o passarinho canta e se ilude. Daqui eu o ouço e me iludo.

Lá embaixo o carrinheiro continua a puxar seu carrinho pelas ruas perdidas, um rústico riquixá. É o único veículo a se mover pela Amintas, pela Faivre, pela Padre Antônio. O homem traz consigo a mulher, que vai à frente do marido, batedora experiente, verificando o que há de mais ou menos valioso no lixo dos prédios que vão esquadrinhando. Pouca coisa. O lixo reciclável, é fácil de perceber, também começa a diminuir. Tudo que presta está rareando. Dentro do carro só vão os filhos do casal, pequenos, silenciosos. Mas vão brincando. Precisamos aprender a imitar as crianças.

6

A noite é longa. E difícil. E quieta. Passo parte da madrugada flanando pelo apartamento. Folheio um livro de contos de Dino Buzzati. Depois outro, de ensaios, de Italo Calvino. Leio de pé. Me alongo e ando em círculos pela sala. Deito no chão duro. A coluna agradece. Ouço a respiração das crianças no quarto contíguo. Alguém tossindo no prédio. Uma tevê ligada num filme dublado. A água descendo do apartamento de cima, aquele urso irreal que, segundo Cortázar, mora nos canos de cada edifício.

Lá fora, nada, ou quase nada. Saudade da selva noturna, penso, ainda deitado. Saudade da bagunça que o louco fazia, da sua risada de caveira de trem fantasma, das brigas e do amor dos bêbados, do pandeiro do guardador de carros, do coro dos estudantes no bar da Federal, do violão desafinado do fã de Victor Jara, do maloqueiro esquizofrênico e suas crises de choro e terror. Saudade do escapamento aberto do motoqueiro babaca, das queixas da mulher que dormia sob a marquise vizinha, de suas dores nas costas, de seu ódio dos homens, de seu coração partido, do som das garrafas que de raiva estilhaçava no asfalto. Saudade do grito de socorro, do berro de pega-ladrão, do avião voando baixo e se preparando para o pouso, do sistema de som na caçamba da saveiro.

A única coisa que agora rompe essa rotina inédita de silêncios, além das seriemas que ganem no Passeio Público e das ambulâncias que entram e saem sem parar do HC, é o comboio do corpo de bombeiros. À medida que vai passando, na velocidade de um cortejo fúnebre, um alto-falante reproduz, a quem puder ouvir, a voz monótona de uma mulher que, de forma contida, nos exorta, repetidas vezes: Fiquem em casa, fiquem em casa, fiquem em casa.

7

Saudade do carro do sonho.

8

As aves mantêm em dia os seus afazeres e horários. Ainda voam e cantam como de costume, embora já estranhem a diminuição do alimento disponível pelas ruas. Desapareceram apenas as garças e os socós do Passeio Público. Este ano preferiram abandonar o ninhal bem antes do previsto. Sumiram da cidade e, sim, fazem falta. Acho uma pena. Era sempre um consolo ver essas aves de origami roçando a janela do meu quarto de dormir, uma depois da outra, em sequência infinita, absurda, fenacistoscópica, ao fim de cada dia lógico e finito.

9

Para encerrar essas notas, duas notícias objetivas. A primeira é velha: o guapuruvu do Guaíra caiu. Foi em dezembro passado, pouco antes do Natal. Na época houve quem dirigisse duras críticas à árvore nos telejornais. Ao morrer, disseram, teve o desplante de atrapalhar o trânsito de fim de ano na Amintas de Barros. Bem, se ele caísse hoje, pensei, não teria causado grandes problemas aos motoristas curitibanos, e sua queda talvez nem virasse notícia. Quem sabe assim ninguém se zangasse com ele?

A segunda notícia, por outro lado, é nova. E, a meu ver, bem melhor que a primeira. Quem me contou foi uma amiga, a Letícia. Que a ouviu de um amigo, o Vinícius. Com quem fiz questão de conversar dia desses, ambos isolados, cada um em sua casa.

Durante muitos anos, a caminho do trabalho, o Vinícius passou pela calçada onde reinava o guapuruvu do Guaíra. E sempre olhava para ele, pensando: como faço para arranjar uma muda desse gigante? Um dia puxou conversa com o gari cujo trabalho era justamente varrer aquela quadra. Seu nome era Lorimar. E o Lorimar disse ao Vinícius que as sementes do guapuruvu eram muito disputadas pelos artesãos da cidade, que com elas faziam ótimos colares e pulseiras, mas que ele se comprometeria a guardar algumas para o amigo, caso ele realmente se interessasse. Vinícius disse que se interessava, é claro, e meses depois ganhou de Lorimar o punhado de sementes prometido.

Vinícius conta que experimentou diversas técnicas de germinação, mas que nenhuma deu certo. Foram três anos de tentativas, esperas e frustrações. Nada vingou. Nenhum broto deu as caras. As sementes do guapuruvu não abandonavam seu estado de dormência. Até que o Vinícius finalmente desistiu delas. Largou os vasos num canto do jardim e não pensou mais neles. Com o calor do fim do verão, porém, as sementes germinaram. Na surdina.

Nada entendo de botânica, já disse isso muitas vezes. Mas gosto de pensar que talvez haja um sentido para a história do guapuruvu do Guaíra. Pois justamente quando desistimos dele, ele resolveu renascer.

P. S.: O Vinícius me ofereceu uma das mudas do guapuruvu. Agradeci e aceitei. Obrigado. Quando pudermos voltar às ruas, pretendo plantá-la na casa de meus pais, no Capão Raso.

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