A crônica não mata – parte 2 | Jornal Plural
28 abr 2021 - 0h01

A crônica não mata – parte 2

A crônica não mata, mas é de sua natureza reportar toda e qualquer morte

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Minha caçula, que anda treinando truques de mágica, interrompe meu café da manhã para me mostrar um dadinho. Pergunta se quero que o lance à mesa, de modo a ler, conforme o resultado obtido, o que a sorte me reserva para o futuro. É claro que quero, respondo a ela. A menina sorri, faz as encenações necessárias e rola o dadinho na toalha, por entre os pratos. Quando ele para de capotar, próximo à minha xícara, a surpresa: as seis faces do pequeno cubo estão lisas, totalmente em branco.

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Contei a minhas filhas, há algumas noites, a história do Quebra-Nozes. Gosto muito do conto de Hoffmann, depois amaciado por outras tantas versões, até ser musicado por Tchaikovsky. Aprovo sobretudo o modo como o autor encerra a primeira batalha entre o herói de madeira e o Rei dos Camundongos, monstruoso tirano de sete cabeças e sete coroas. Graças à vergonhosa deserção de parte de suas tropas, o Quebra-Nozes é capturado pelas linhas inimigas. E só então a sonhadora Marie Stahlbaum, do alto de seus sete anos, toma coragem e decide intervir. Arranca do pé esquerdo a sua pantufa e, com ela, um simples sapatinho de criança, esmaga o minúsculo roedor que os oprimia.

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No Apocalipse de São João, capítulo 12, versículo 3, há uma criatura policéfala semelhante ao Rei dos Camundongos. É bom que não a percamos de vista. Segue a tradução de Frederico Lourenço, diretamente do grego: “E foi visto outro animal no céu: e eis um dragão grande, ruivo, com sete cabeças e dez chifres e, nas suas cabeças, sete diademas”.

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A crônica não mata, mas é de sua natureza reportar toda e qualquer morte. A de Tchaikovsky se deu em meio a uma epidemia de cólera na Rússia. Dizem os cronistas que, num restaurante de São Petersburgo, o compositor pediu um copo d’água enquanto jantava. O garçom, então, o teria informado de que a água fervida infelizmente já havia se acabado. Intransigente, Tchaikovsky reiterou o pedido. À mesa, seus amigos o lembraram dos perigos que corria. Ele insistiu. Queria e teve o seu copo d’água. Na manhã seguinte, contudo, já não pôde sair da cama. No dia 6 de novembro de 1893 estava morto, aos 53 anos, logo após estrear sua Sinfonia n.°6, a Pathétique. Certos cronistas, porém, afirmam que tudo isso é mentira. Tchaikovsky teria tomado veneno, legando ao vibrião a glória de haver matado um grande artista.

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Lavo a louça ouvindo a falação dos papagaios no terraço do prédio contíguo ao meu, há anos desocupado. Ficam exatamente à altura da minha janela. Dia desses, calaram-se de repente, o que em geral é um indicador de problemas. Logo descobri do que se tratava: um homem mascarado surgiu de uma portinha em meio aos ladrilhos, provocando a debandada das aves. Ele vestia um uniforme azul-escuro. Nas costas de seu macacão, reluzia a estampa emborrachada de um rato, carimbado com um X vermelho. Abaixo do animal, lia-se a palavra DEDETIZAÇÃO. O homem abaixou a máscara, acendeu um cigarro e olhou para mim. Nos cumprimentamos formalmente, com um aceno de cabeça. O dedetizador, então, estudou a paisagem à sua volta, soltando fumaça pelas narinas. E o que mais chamou sua atenção foi a piscina azul-escura aos fundos do grande edifício da minha quadra. Um polígono irregular, cercado de espreguiçadeiras de vime, guarda-sóis arriados e fileiras de buxinhos esculpidos. Admirado, o dedetizador tirou do bolso o celular e fotografou a piscina deserta, várias vezes. Apagou o cigarro com a sola da botina, repôs a máscara, acenou para mim e, espremendo-se pela portinha, retornou ao ambiente envenenado de onde havia saído.

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Até uma semana antes, a situação daquela piscina era outra. Aglomeravam-se às suas margens moças e moços bonitos, em trajes de banho, os rostos nus, bronzeando-se ao sol. Alguns ciscavam em seus celulares, outros dividiam drinques, uns poucos nadavam cachorrinho. Não, não posso afirmar que falassem entre si, o som que emitiam era mais próximo ao de um gorgolejo, quase um engasgamento coletivo. Parecia alegria, mas não. Era o alarido de uma triste granja industrial.

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Uma década atrás, num rompante romântico, escrevi que a morte era uma piscina vazia onde as almas iam veranear. Peço perdão por tamanho derramamento. Hoje tenho a impressão de que a morte é uma piscina cheia e bem mais concorrida.

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Falei de papagaios e lembrei de Papageno. Adoro Papageno. Imenso personagem, divertido e carismático, imune às baboseiras maçônicas que permeiam a ópera A Flauta Mágica, de Mozart. Papageno não queria ser um iniciado, não almejava a sabedoria, desejava apenas “um copo de vinho e uma mulherzinha”. Não o julgo. Tinha um bom coração, apesar de falar demais e de ser um mentiroso. Foi por conta de suas mentiras, aliás, que as Três Damas o castigaram, selando sua boca com um cadeado. Papageno, no entanto, não demorou a ser anistiado pela Rainha da Noite. Recuperou a vivacidade de costume e logo se uniu, num quinteto, às Damas e ao príncipe Tamino, para entoar os melhores versos do problemático libreto de Emanuel Schikaneder: “Se na boca de todo mentiroso pusessem um cadeado, então todo ódio, ultraje e rancor se tornariam fraternidade e amor”.

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Mozart teve um estorninho de estimação. Azul-escuro, pintalgado de prata. O compositor chegou a transcrever seu canto para a partitura. Há quem diga, inclusive, que Mozart teria reaproveitado aquela mesma melodia ao compor seu Concerto para Piano n.° 17, K453. Impossível provar. Seja como for, no dia 4 de junho de 1787, o estorninho morreu, de causas não registradas. Garantem os cronistas, no entanto, que Mozart, condoído, presenteou seu pássaro com um lindo réquiem. E que a ele dedicou um poema de despedida, lido pelo próprio autor durante um funeral do qual teriam participado vários cantores da ópera vienense. Outros cronistas, porém, preferem lembrar que o pai de Mozart, Leopold, havia morrido uma semana antes, e que seu filho não pudera ir a seu enterro, em Salzburgo.

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A crônica não mata, mas pode cantar. No finale d’A Flauta Mágica, as forças do mal são expulsas do palco pela chegada de um sol iluminista. O sacerdote Sarastro dá início, então, à ária “Die Strahlen der Sonne”. “Os raios do sol afastam a noite, destroem o poder fraudulento do hipócrita”, ressoa, vitorioso, o baixo. É um momento forte, grandioso. Mas ao ouvi-lo sempre penso que o coro poderia concluir o espetáculo com uma retumbante releitura de “Juízo Final”, de Nelson Cavaquinho e Élcio Soares, samba de 1973: “Do mal será queimada a semente, o amor será eterno novamente”.


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