A crônica não mata – Parte 12 - Jornal Plural
15 set 2021 - 8h15

A crônica não mata – Parte 12

É preciso andar, as pernas pedem, o sangue exige isso de nós. Ando, e dificilmente não me entristeço durante a caminhada

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Os piores dias para um cronista são aqueles em que o mundo se cala. Da sua janela não se vê mais a paisagem, solapada pelo encardimento das vidraças. Incomodado, o cronista desce às ruas, precisa sobreviver, interagir com o real, mas tudo é cenografia e figuração, um espetáculo em compasso de espera. A beleza das coisas ainda está lá, isso é certo. Ela se homizia nas árvores e nos canteiros, na cartografia desastrada do Alto da Glória, na discrepância de cores das telhas de um mesmo telhado. Mas nada daquela beleza lhe diz respeito. Ela própria se apresenta em estado de suspensão. Nesses dias ruins tudo parece esperar por uma definição da vida acerca de nossa permanência no palco. A verdade é que não enchemos mais a casa.

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Ando pelas ruas do bairro, preciso andar, as pernas pedem, sou hipertenso, sofro de insônia, envelheço, dependo de remédios, estou vivo etc. Subo e desço treze andares de escadaria, evito o elevador. Subo e desço as ladeiras da Amintas, da Agostinho Leão, da Rua XV. Não entro em lugar nenhum, nunca visito gente, nem prédios ou monumentos, apenas árvores. Meados de setembro, os bicos-de-papagaio estão nas últimas, mas nem por isso os desprezo. São as flores preferidas da minha filha caçula. Os ipês, à essa época, também já se rendem. Me lembram esqueletos enfeitados com dois ou três pingentes amarelos. Gosto assim. Os plátanos lindos, vermelhíssimos. As patas-de-vaca nunca estiveram tão floridas. Inspeciono os tons de vinho no topo das araucárias mais altas e antigas. Nunca vi caules tão brilhantes, quase acetinados. Pena que não falam mais comigo. O que escrever quando o mundo se cala? Lançar mão de trocadilhos banais, à procura de um efeito qualquer? Vejamos se funciona, aqui está um: até as árvores se fecharam em copas. Mas não, o trocadilho é ruim, e a realidade ainda pior. As árvores não saíram de cena, não se recolheram. Estão aí, como sempre estiveram, caladas. E pela primeira vez penso que, se elas realmente falassem, é bem provável que nem sequer nos dirigissem a palavra.

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Você veste a máscara e anda pela rua. Suas pernas pedem. E de repente, não muito longe do seu prédio, você encontra um casal, um pouco mais jovem que você. Eles vêm em sua direção. Ela, e só ela, está mascarada. Ele bebe uma cerveja em lata, mas podia ser uma Coca, não importa. O importante é beber, pois isso dá ao homem o pretexto ideal, a desculpa de que precisa para não se mascarar. Você cruza com o casal. A mulher o encara, de soslaio. Sente vergonha do homem com quem passeia. Ele, por outro lado, não olha para você, e não olha justamente por desejar ser olhado. Sorve um gole de cerveja fazendo muito barulho, como uma criança tomando sua sopinha. Nenhum dos dois fala. O casal está de mãos dadas. Se suas mãos se soltassem, você sabe, mesmo que por um breve instante, eles se perderiam um do outro, para sempre.

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E o que dizer dessa moça, ainda adolescente, usando duas máscaras, além do face shield? Ela anda rápido, carrega nas costas uma mochila murcha. Ali dentro deve haver no máximo um pote de álcool em gel e um pacote de lenços umedecidos. A moça não se sente à vontade fora da toca. Foi obrigada a abandonar o bunker, vai do ponto A ao ponto B objetivamente e não quer perder tempo. Ela passa por você tentando manter os olhos no chão. É como se você a enojasse. Mas seus olhares acabam se cruzando, mesmo que por um segundo somente, era inevitável, e então você percebe que ela também está envergonhada. De quê? Não se sabe. Talvez por achar que você a considere covarde ou arrogante. Que você veja nela uma fraqueza fundamental, indigna de uma mulher da sua geração. Quem sabe você detecte naquela sua postura defensiva os sintomas de um severo adoecimento dos nervos, ou uma hipertrofia ética, quem sabe ela se julgue superior a você? Tudo bem, pode até ser, você não liga. Você não a julga, pois sabe que ela é forte, e que hoje, mais do que nunca, é preciso muita força e coragem para sair de casa e caminhar entre tantos desavergonhados.

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Há um homem barbudo lá adiante. Sua barba é feita no salão, assim como suas unhas e sobrancelhas. O quanto lhe custa a manutenção daqueles bigodes em rosca? Você não faz ideia. Mas sabe que é por causa deles que o homem caminha assim, destemido, o rosto nu, porém peludo. Não usa máscara, pois não pretende privar a cidade de sua hirsuta beleza. Sua barba é um elogio à disciplina e à autoestima. Ele tem ombros e braços muito bem cultivados, agradáveis à vista, e por isso se obriga a usar uma camiseta tão justa. A barriga proeminente nem chega a ser um problema. Um homem, você sabe, pode ser vaidoso, desde que na medida certa. Repare na discrição das calças camufladas que ele enverga. São largas, perfeitas para quem quer disfarçar a finura das pernas. É com elas que ele marcha tão vigorosamente em sua direção, desbravando a selva de suas fantasias. Desarmado, você tenta se desviar dele, atravessar a rua. Só que não há mais tempo, o trânsito se intensificou na hora errada. O homem barbudo acha graça na sua atrapalhação, você é mesmo um inimigo menor. Confiante, ele infla o peitoral e assobia uma melodia qualquer. O assobio, você sabe, é a necessidade daquele homem de expandir-se, de invadir o território e o corpo dos outros. Sim, seu assobio é apenas isto: um desejo de abuso tornado melodia. Mas que bárbara melodia seria esta, você se pergunta, tão obscura e, ao mesmo tempo, tão familiar e pegajosa?

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Na rua também encontro, por acaso, gente conhecida. Gente que há muito eu não via pessoalmente. Um amigo traz na garupa um bebê, o seu filho, ainda pequeno. Tem menos de um ano, é mais jovem que a pandemia. O bebê me emociona, eu ainda não o tinha visto, ele é fofo e sorridente, me olha nos olhos sem interesse algum. Este, sem dúvida, é um encontro feliz — e raro. Porque em geral nossas conversas têm se assemelhado a relatórios. Os assuntos giram em torno de política, ódio e morte. Fala-se sempre da morte de alguém. Um parente, uma avó, um tio, uma cunhada, um vizinho, um sócio, uma celebridade, uma namorada de décadas atrás, um colega de infância. Uma gestação interrompida pela covid. E Fulano, ainda está hospitalizado? Já saiu da UTI? Recuperou-se bem? Teve sequelas? Intubaram, extubaram? E, quando não falamos da morte de alguém, falamos de alguém que queríamos que morresse. Embora, como eu já disse, estas sejam conversas quase relatoriais. Sóbrias. Nunca há choro, é tudo dito como se já não nos importássemos tanto, e sempre nos despedimos com um sorriso. Um sorriso que é bem mais que cansaço, tristeza, raiva, impotência ou formalidade. Um sorriso que prescinde da boca. Um sorriso que é sobretudo uma convulsão dos olhos. Ah, mesmo os cegos sabem sorrir com os olhos.

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É preciso andar, as pernas pedem, o sangue exige isso de nós. Ando, e dificilmente não me entristeço durante a caminhada. Volto para casa e sempre abro um livro, como quem consulta um oráculo. Dia desses foi uma página de Maimônides, do seu Guia dos Perplexos. Nela o rabino discorria sobre o verbo andar, “halach”, a partir da interpretação de pequenos trechos da Bíblia Hebraica. Do livro do Êxodo, por exemplo, Maimônides pinçava este versículo simples: “O fogo anda sobre a terra”. E então nos explicava que um dos usos mais refinados deste verbo, andar, também abrangeria a capacidade de algo, ou alguém, de “propagar-se” e “manifestar-se” enquanto anda, se move, avança. Enquanto vive.

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Nos piores dias é assim que eu gostaria de caminhar pelo meu país. Como se fosse o fogo.

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