18 ago 2021 - 9h00

A crônica não mata – Parte 10

Mesmo debaixo de blusas e casacos, mesmo enrolada em xales e cachecóis, mesmo de gorro e máscara, mesmo vinte quilos mais pesada que o habitual, eu a reconheço

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Não se pode mais andar pelo centro de Curitiba sem esbarrar neles. Você vai caminhar pela Rua XV, numa manhã de sábado, e não há escapatória: já são sete mil os novos fantasmas à sua volta. A maioria deles nos vê passar de suas sacadas de ferro forjado, através de volutas barrocas e vidraças embaçadas, ou então do alto de uma árvore seca, em meio à ramagem dos ipês. Há aqueles que preferem acompanhar o sobe-e-desce das fontes no calçadão, na Osório ou na Generoso, só agora percebendo que a água interessa somente aos que ainda têm um corpo a que se possa beneficiar. Muito poucos são os fantasmas que nos interpelam de forma direta e até inocente, nos dando a chance de ouro de esnobá-los.

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Na esquina da Estação Central um homem cego se empertiga. Encostado na parede de granito da farmácia, com uma das mãos se apoia numa bengala dobrável e, com a outra, nos oferta uma caixa de chicletes de menta. É um rapazinho jovem, sem máscara, sem óculos escuros. Seus olhos estão fechados, mas suas pálpebras vibram depressa, como as asas de uma libélula. É a parte mais viva de seu corpo. Tento imaginar como se sentiria este homem, que nada enxerga, se também lhe cobrissem a boca e o nariz, mas não consigo. A cada cinco segundos uma pessoa passa por ele, apressada, e ele a saúda, sorrindo: “Bom dia!”. E quando um biarticulado despeja na estação-tubo algumas dezenas de passageiros, o cego os metralha com saudações e sorrisos: “Bom dia, bom dia, bom dia, bom dia, bom dia, bom dia…!”. Pena que ninguém responde, ninguém compra chiclete, ninguém o vê. O movimento logo se arrefece e o homem se aquieta, seu rosto relaxa e cinco segundos se escoam. O cego respira fundo, recupera o sorriso e me diz: “Bom dia!”.

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Todo fantasma é uma memória que se desmascara.

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No cruzamento da XV com a Monsenhor Celso uma dupla de músicos se esforça para atrair o público que entra e sai dos comércios ao redor. A chuva não os desalenta. Um homem castiga o cajón, o outro toca um violão. Vochê por mim não chora, canta ele, mas eu choro por vochê. Poucos se animam a parar para ouvi-los a distância, talvez temendo os miasmas do cantor sem máscara. Vochê pacha e não me olha, mas eu olho pra vochê. Subo a Monsenhor, em direção à Praça Tiradentes, e meia quadra adiante já encontro outro músico, bem mais velho, sozinho numa cadeira de rodas, cercado somente por uma porção de caixinhas de fortificantes que ninguém jamais quererá comprar. Ele é quase um monumento à aflição humana. Seu rosto não se move, nem seus olhos, nada. Só seus dedos. O artista dedilha com agilidade o violãozinho preto que traz no colo. O som sai baixo, abafado, e me aproximo para escutar melhor. Sim, ele está solando. Por prazer ou por inércia, cheio de um suingue insuspeitado, improvisa e passeia, livre, pelo velho esquema novo de Jorge Ben Jor.

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Uma moça me detém, me ataca de frente. Que lindos olhos, ela diz. Estou encasacado, de máscara e boné, debaixo de um guarda-chuva. Tudo que ela pode ver de mim são os meus olhos. Tudo que eu posso ver dela são os seus olhos. Somos olhos, penso comigo — mais do que nunca, somos olhos. Os dela são bonitos, como o são quase todos os olhos, mas não digo isso a ela. Não digo nada, aliás. Ela, por sua vez, insiste na abordagem agressiva: “Não quer examinar esses olhos tão lindos na nossa loja, senhor? Não custa nada, é de grátis”. Agradeço e vou embora. Atrás de mim ouço a voz da moça, como numa gravação, dirigindo-se a outro cara: “Que lindos olhos”. Ao que o cara, já transfigurado em cliente, responde: “Os seus é que são lindos, querida”.

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Somos olhos, mais do que nunca. Na porta das lojas muita gente mascarada mata o tempo à espera de fregueses. Conversam, fofocam, contam piadas, reclamam, paqueram, discutem ao celular. Vendedores, seguranças, locutores de calçada. Homens-sanduíche anunciam almoços irretocáveis, imperdíveis. A rua toda é uma aglomeração de olhares, uma exuberância de falas, ofertas, pregões, risadas, gritos, música. De vez em quando cruzamos com um nariz de fora. Nunca os narizes nos pareceram tão vastos, vermelhos e indecorosos. O indivíduo com o nariz de fora, hoje, mais parece um exibicionista desvairado, a nos esfregar na cara uma reluzente e malcheirosa balanite.

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Há um romance de Orhan Pamuk narrado por um acadêmico veneziano do século 17 que, após ser sequestrado por uma esquadra turca, é vendido como escravo em Istambul. Ali ele nos informa do pavor que sentiu quando a cidade foi tomada pela peste. O italiano andava pelas ruas buscando qualquer um com quem pudesse compartilhar seu medo. Era tudo o que ele desejava: uma companhia no pânico. Mas não. A rotina local se mantinha imperturbável, ninguém compreendia o seu horror. Os cafés estavam cheios, os artesãos nas oficinas, as mulheres no mercado. E os caixões seguiam em procissão, um atrás do outro, rumo aos cemitérios de lá. Eu próprio já me senti assim, perplexo, como o narrador de Pamuk. Hoje, porém, o que mais me espanta é constatar que também eu tenho perdido o medo, e que nem isso sobrou de meu, para que eu o possa compartilhar com alguém.

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Saio à rua com duas máscaras. Mesmo assim, o cheiro de fritura das lanchonetes chinesas me enfeitiça.

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Nas Arcadas do Pelourinho, a floricultura vazia. Fico tentado a explorar o corredor colorido entre os estandes, aquele longo simulador de primaveras, como tantas vezes fiz, durante tantos anos. Mas desisto ao lembrar o quanto serei assediado pelas floristas, ou quem sabe pelas próprias flores. Vai que elas, assim como fizeram com Alice, no país das maravilhas, me tomam por uma triste colega despetalada, apenas menos inteligente e bonita, mais bronca e desgraciosa? Como negar? Já faz tempo que me sinto desenraizado.

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Evito as floristas, mas outra comerciante me embosca, vindo de trás de uma banca de jornais. Mesmo debaixo de blusas e casacos, mesmo enrolada em xales e cachecóis, mesmo de gorro e máscara, mesmo vinte quilos mais pesada que o habitual, eu a reconheço. Não exatamente pelos olhos, mas pela ausência das sobrancelhas, ou antes, pelo modo como ela pinta sobrancelhas falsas, grossas e muito pretas acima de seus olhos escuros. Ela está aqui faz mais de uma década. Se engordou, calculo, será que é porque conseguiu largar o crack? A dúvida me faz experimentar uma sensação ambígua de alegria e amargura. Torço por ela, que se aproxima e, sem me reconhecer, pergunta: “Vamos?”. Não, moça, respondo, obrigado, mas não, bom fim de semana. Obrigada, pra você também, ela diz, Deus te acompanhe.

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As ruas continuam aqui, e nós continuamos perdidos.

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Na tradução de Thomas Hobbes para a História da Guerra do Peloponeso, de Tucídides, há um trecho sobre a peste de Atenas que me enternece. É quando o historiador grego nos conta que os sobreviventes da epidemia (sendo que ele era um deles) haviam concebido, a partir daquela cura, um novo tipo de expectativa, leve ou leviana, julguem como quiserem: a esperança de que, no futuro, jamais viriam a morrer, de quaisquer outras doenças. Lindo trecho, forte e comovente. A crônica, nós sabemos, não mata ninguém, mas entre seus melhores papéis está o de registrar as espécies mais belas e disparatadas de loucura.

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Me entristece a coincidência de perceber que este texto, do fragmento 92 ao 103, tem cerca de sete mil caracteres. Quase um para cada curitibano morto pela covid, até agora.

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