Minha grande chance | Jornal Plural
19 fev 2019 - 0h00

Minha grande chance

O que fazer quando a tirinha de papel dentro do biscoito da sorte vem em branco? Luís Henrique Pellanda tenta resolver o enigma

Minhas filhas e eu partimos um biscoito da sorte chinês e encontramos em branco a tirinha de papel dentro dele. Diante daquela lacuna, primeiro rimos, meio desconcertados. Depois minha filha mais velha, dona de uma disposição mental bastante prática, me aconselhou: Aproveita, pai, escreve aí o que quiser. É a sua grande chance.

A minha grande chance, refleti. Pode ser. Mas preferi esperar, deixar para depois, pensar melhor. Disse a elas que escreveria algo mais tarde, talvez à noite. Até lá meu futuro estaria bem guardado. Soquei o papelzinho no bolso da calça e anunciei: Já passa do meio-dia, é hora de correr. Arrumei as meninas (cabelo, mochila, lanche, uniforme) e fomos os três para a escola. As férias tinham acabado.

Eu estava livre, ou quase. A primeira parte da minha tarde sem crianças, dediquei a uma série de compromissos odiáveis. Banco. Cartório. Banco de novo. Correio. Depois, menos assoberbado, consagrei o resto do dia às compras da casa. Fui ao mercadinho, à farmácia, à loja de ferragens, à padaria. E finalmente à quitanda.

Gosto muito de quitandas, por isso sempre as deixo por último. E gosto ainda mais daquelas onde o cheiro das frutas se torna quase opressivo, como se o chão do estabelecimento estivesse lavado em licor. Gosto de lugares cuja atmosfera não se pode disfarçar com sachês e purificadores de ar. Lojas de chá, por exemplo.

Aliás, me permitam uma digressão. Introduzo aqui uma história avulsa, embora nela eu não identifique nenhum propósito predefinido. Dia desses fui a uma loja de chá comprar anis-estrelado, camomila e espinheira-santa. O ambiente era perfumadíssimo e, ao entrar, não resisti à tentação de proferir uma ou duas platitudes. Disse à moça no balcão que o cheiro ali dentro era ótimo, e que devia ser muito agradável trabalhar naquelas condições. Ao que ela, amargamente, sem esboçar o mínimo sorriso, respondeu: Todo mundo diz isso, mas já me acostumei. Eu não sinto mais nada.

Lamentei tanto por sua anosmia quanto por minha tolice, e encerramos a conversa. Fiz minhas compras em silêncio e só voltei a lembrar daquela moça dias depois, ao visitar uma casa de queijos que, ao contrário da loja de chá, fedia intensamente. Entrei e, por educação, não disse nada. Apenas sustive um pouco o fôlego, simulando alguma naturalidade. Não queria ser rude. A vendedora, no entanto, me atendeu com entusiasmo e alegria. Disse que já estava habituada ao fedor. Não sentia mais o cheiro dos queijos que vendia e que, conforme me garantiu, amava mais que a vida.

Mas, perdão, volto à quitanda. Era disso que eu queria falar, do destino que damos às frutas. Lá escolhi, entre tantas outras coisas cheirosas, uma boa quantidade de laranjas-pera, mais ou menos bonitas, numa promoção de fim de expediente. Fui embora e, no caminho de casa, precisei cruzar a Santos Andrade. Num pedaço de gramado, vizinho aos pontos de ônibus, cinco homens descansavam lado a lado, bêbados, numa mesma sombra de árvore. Quatro deles dormiam e ressonavam. O quinto estava só deitado entre os outros, atento ao movimento da praça, à espera de uma oportunidade qualquer.

E foi isso o que ele, apesar da bebedeira, viu em mim, ou em minhas sacolas. Detectou no interior delas a forma e a cor das frutas que eu carregava. Não sei dizer se era capaz de farejá-las a distância. Sei é que se pôs sentado e, acenando para mim, gritou: Ei, guri, me joga uma laranja dessas! O grito acordou seus companheiros, que também se acharam no direito de me pedir, cada um, uma laranja. É justo, pensei. Mas era demais.

Parei a dez metros deles. Apanhei na sacola uma laranja e a lancei ao grupo. Os homens a disputaram no ar, estapeando-se mutuamente e sem querer. A fruta, por sua vez, aproveitou a confusão para escapar. Rolou da grama até as pedras portuguesas da praça. O quinteto se ergueu em bloco, correndo atrás dela, e sem que se pudesse prever ou entender como, sem que ninguém dissesse palavra alguma, aquela disputa entre bêbados reorganizou-se espontaneamente, até se tornar uma partida de futebol. Aqueles cinco homens crescidos de repente se viram transformados em meninos. E em vez de chupar a laranja, preferiram brincar com ela.

Assim, aquela fruta encontrou o seu destino de bola. Nasceu num dia de calor moderado, num laranjal ao norte daqui. Foi colhida com cuidado, e com cuidado foi posta num caixote. Viajou de caminhão a Curitiba, e depois embarcou em caminhonetes e kombis, até acabar num balaio do Centro onde eu, por acaso, a escolhi e arrematei com o dinheiro que ganho vendendo crônicas. Também por acaso eu a dei a um bando de homens que dormiam numa praça. E esses homens, mesmo famintos, a pouparam e promoveram a brinquedo épico, e a fizeram voar sobre os canteiros de heras, e a rolaram por debaixo das pernas de seus colegas, e a meteram mil vezes, com presumida categoria, por entre balizas feitas de chinelos. Enquanto isso, dentro da laranja, ignorantes do que acontecia fora dela, um punhado de sementes ainda aguardava a sua grande chance. A chance de germinar.

Cheguei em casa, larguei as compras e apanhei no bolso da calça o troco da quitanda. Entre as moedas, reencontrei a tirinha do biscoito chinês. Como ainda não sabia o que escrever nela, decidi que a manteria daquele jeito. Virgem. Um cheque em branco passado ao destino. Guardei-a na carteira vazia e saí de novo, buscar as meninas.

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