Vertigem do chão | Plural
26 nov 2019 - 22h48

Vertigem do chão

Não sei se Vertigem do chão é meu melhor livro, mas ele é certamente o mais ousado

Eu já tinha ouvido falar fazia tempo, mas só recentemente eu descobri o significado: cabotino quer dizer presunçoso, exibicionista, pretensioso.

Falo isso porque estou prestes a escrever (mais longamente que o normal) sobre o meu novo romance, que vem a público nesse novembro de 2019. Agora me pego pensando em como falar sobre ele – o que não deixa de ser uma propaganda – sem ser nem sequer parecer cabotino. Trabalho de escritor é bastante solitário. Tem horas, no entanto, que é preciso dividir algumas impressões. É isso que farei, ainda mais em época de lançamento. Não precisa ser secreto o desejo de ser lido.

Não sei se Vertigem do chão (Editora Moinhos) é meu melhor livro, mas ele é certamente o mais ousado, aquele em que mais arrisquei e que me deu mais trabalho. Nos livros anteriores, o cenário era basicamente o de Curitiba, com pouca inserção de outros espaços. Também o raio de ação dos personagens era restrito a suas relações familiares, conhecidos e tal, seus conflitos neuróticos mais, digamos, interiores. Em Vertigem do chão isso também se faz presente, mas tentei ir além: o livro se passa simultaneamente em Curitiba e em Utrecht, cidade holandesa que fica a uns 40 minutos de Amsterdam, de trem. Personagens, cenários e suas interrelações me obrigaram a estudar muito. Há brasileiros, haitiano, marroquina, holandeses, português, em solo nativo e estrangeiro. Foram cerca de 680 notas tomadas para compor a trama. E a trama – sabe trama de tecido mesmo? – se costura a partir de questões como corpo, imigração, identificação e perda de identidade, território e desterritorialização. Como tocar nesse assunto sem cair nos clichês, estereótipos, preconceitos e na tomada de uma posição política? A literatura é política, mas defender uma posição que conduza o leitor a um pensamento pré-determinado eu acho que é função de outros gêneros textuais. A literatura monta uma arena de embates e deixa para o leitor a função de montar uma tese, caso queira.

Desconfio que o livro tenha um mérito: o de perceber um Brasil pré-abismo, em contraponto a uma realidade holandesa que parece perfeita, mas que também tem os seus conflitos próprios e acentuados. Em 2004, Theo Van Gogh, bisneto do irmão do pintor, morreu a tiros e depois foi degolado em Amsterdam, pouco tempo depois de ter lançado filme sobre a condição das mulheres na cultura islâmica, Submission. Agora em 2019, um atirador deixou 3 mortos e 9 feridos numa estação de bonde de Utrecht, o que pode dar alguma ideia de que tipo de conflito seja.

Uma imagem contendo sinal, interior, texto, jornal

Descrição gerada automaticamente

Comecei a escrever esse romance tendo estado apenas um dia em Utrecht. De volta ao Brasil, trabalhei com mapas digitais, olhava nomes de ruas, promovia encontros de personagens com cenários supostos. Tempos depois, já com boa parte escrita, hospedei-me na cidade durante o verão. Era o tempo da Copa do Mundo no Brasil e eu me dividia entre a escrita, os jogos e as muitas caminhadas pela cidade, a fim de checar cenas e colher novos palcos para encontros possíveis. Fiquei cerca de vinte dias lá – voltei a Curitiba no dia do 7 a 1.

Depois de uma primeira versão escrita, ou seja, depois de o livro já ter um início e um fim, recorro às muitas revisões, linha a linha, tirando, acrescentando, hesitando entre uma vírgula ou não, um ponto etc. A segunda revisão eu fiz novamente em Utrecht, já no inverno, onde fiquei mais vinte dias. Achei importante conhecer a cidade nessas duas estações do ano, já que o livro tem aproximadamente seis meses de tempo cronológico. Fiz seis revisões linha a linha até ter a coragem de pedir a leitura a alguns amigos (o jornalista e tradutor Christian Schwartz e o professor e escritor Paulo Venturelli leem meus originais desde o primeiro romance, coitados). Ainda foram mais duas revisões depois da leitura deles e de mais outros amigos e amigas.

Booktrailer de Vertigem do chão, produzido pelo Estúdio 42

Falei um pouco do processo de escrita, mas quero falar também sobre o enredo. Há dois personagens centrais, um bailarino brasileiro e um atleta holandês, que me deram algumas oportunidades peculiares para pensar o corpo em relação ao espaço. Por isso, se fosse possível sintetizar o romance em poucas palavras, eu usaria corpo e território, pensando em como o corpo, plantado, enraizado num lugar de origem, reage ao ser transplantado para um espaço em que o olhar do outro não reconhece mais o sujeito, em que se é anônimo, de que não se sabe sequer a língua. Ambos os personagens, insatisfeitos com seus chãos, idealizam o espaço distante. Leonel é o bailarino brasileiro que passa a sonhar com Utrecht – a Holanda ocupa um espaço importante na dança contemporânea mundial. Stefan é o atleta holandês, em pânico com um ataque que vitimou o namorado, que se deixa embalar por um Brasil tipo exportação, de sol, calor, alegria, Copa do Mundo e Olimpíadas. Eles invertem seus destinos e a narrativa vai acompanhando suas trajetórias ao mesmo tempo, só que em espaços diferentes. Quando o espaço ideal vira real, há mudanças? Acho que o romance vai discutir isso, mostrar algumas possibilidades, sem querer encerrá-las.

É nesse cruzamento de territórios que o romance acontece, pendulando e tropeçando em noções difusas de centro e periferia, com personagens marroquinos e haitianos atravessando os caminhos.

Diferente dos meus dois primeiros livros, esse Vertigem do chão traz questões geopolíticas muito acentuadas, que contaminam a vida pessoal de ambos os protagonistas. Por isso é que acredito que o livro consiga promover uma reflexão significativa sobre o Brasil contemporâneo e sobre parte do contexto mundial, tocando sem panfletarismos (espero) em diversas fobias ainda atuais e evidentes: islamofobia, xenofobia, homofobia.

O livro dialoga com algumas obras de arte que eu ainda pretendo catalogar e tornar públicas. Não é necessário conhecê-las, mas – no meu mundo ideal – torço para que o leitor tenha curiosidade de vê-las. Dentre as minhas preferências pictóricas, gosto muito do chamado chiaroscuro, de que Caravaggio talvez seja o representante mais conhecido. O jogo de luz e sombra, de revelar e esconder, sempre me impressionou, tanto que o romance durante muito tempo teve o nome provisório de O claro escuro, numa tentativa de dizer que era claro que aquilo que se via era escuro. Com o tempo, cheguei a Vertigem do chão, numa alusão à expressão bem conhecida “vertigem de altura”. Como falo de território e desterritorialização, achei que dar um novo sentido para vertigem podia trazer um deslocamento rico de sentidos. Ao abrir o livro, o leitor encontrará duas epígrafes:

“I’m not going to ride on a magic carpet!” he hissed. “I’m afraid of grounds.” “You mean heights,” said Conina. “And stop being silly.” “I know what I mean! It’s the grounds that kill you!”

“Eu não vou montar em um tapete mágico!”, ele sussurrou. “Tenho medo do chão”. “Você quer dizer de altura”, disse Conina. “E pare de ser bobo”. “Eu sei o que quero dizer! É o chão que nos mata!”

(Terry Pratchett)

***

“Wie wat vindt heeft slecht gezocht”

“Quem encontra algo procurou mal”

(Rutger Kopland)

Enfim, tentei fazer aqui um panorama do livro sem parecer um garoto- propaganda-gritão-das-Casas-Bahia, que berra coisas do tipo “está esperando o quê? Venha já comprar o seu, você não vai ficar fora dessa, vai?”. Se o livro, por todos esses aspectos, interessar, devo dizer então que a leitura de vocês também me interessa. Muito.

Uma imagem contendo pessoa, interior, vestuário

Descrição gerada automaticamente

Kroning met de doornenkroon, 1623

Tela do pintor barroco holandês Dirck van Baburen representa a cena clássica da coroação de espinhos.

Uma imagem contendo pessoa, edifício, ao ar livre, chão

Descrição gerada automaticamente

Decoronation (after Baburen), 2002

Do também holandês F. Franciscus, representa uma descoroação.

Dedico o livro a dois bailarinos: à amiga Candice Didonet, que morou um tempo na Holanda e fazia aulas em Utrecht; e ao amigo Ronie Rodrigues, que passou seu tempo dançando e levando a vida em Montpellier. Dedico-o também à holandesa Camie Van der Brug, que morava em Curitiba na época (hoje está novamente na Holanda), com quem eu timidamente entrei em contato para saber se ela poderia confirmar se as poucas expressões que eu usei em holandês estavam corretas. Num gesto de grande generosidade, ela se ofereceu para ler o livro todo, o que me deu bastante confiança.

Para quase finalizar, coloco abaixo o que alguns leitores que tiveram a paciência de ler os originais disseram – tá bom, agora é propaganda descarada, vai (cabotinismo?):

Poucas pessoas teriam domínio técnico suficiente para entrelaçar o percurso desses dois protagonistas – Leonel e Stefan – de uma maneira tão orgânica. São cortes sutis e ousados, quase cinematográficos. Mas Vertigem do Chão é mais do que isso, porque também surpreende no nível da história, levantando questões geopolíticas contemporâneas extremamente relevantes. Fugindo dos caminhos fáceis e da ingenuidade de escolher um lado, o narrador de Tridapalli trata dessas questões com a complexidade que elas merecem. – Carol Bensimon

Essa Vertigem do Chão não se desmente. Tridapalli escreveu um livro corajoso, diferente, dissonante até nas suas harmonias. Um livro que desorienta, tira o chão. Para quem não quer mais do mesmo. Para quem quer mais e quer riscos; quer atrito: novidade. Um livro para quem acha que o romance brasileiro, hoje, pode ainda ser outro. – Caetano Galindo

Sobre Vertigem do Chão, acredito não ser exagero dizer que é dos mais verdadeiramente contemporâneos romances escritos em língua portuguesa nos últimos anos. O que chama a atenção na obra de Tridapalli, e neste novo romance em particular, é o nível da prosa realista – como toda boa ficção do gênero, reflexiva das questões do nosso tempo – a ombrear com os grandes praticantes do romance, em especial no mundo de língua de inglesa, onde essa tradição é mais forte e consolidada, como o inglês Jonathan Coe e o americano Jeffrey Eugenides. O que se tem, repito, é uma das ficções mais sintonizadas com esta nossa época tão conturbada que já tive o privilégio de ler. – Christian Schwartz

Vertigem do chão nos mostra o solo instável do corpo, que se descobre estranho no encontro com estranhos de outros corpos, outras línguas, outros sexos, estranhos que têm seus corpos em outras culturas, os muçulmanos imigrantes de Utrecht, os haitianos imigrantes de Curitiba, etc., essas figuras que permanecem forçadas a viver em ilhas do alheio; mas é também a história de imigrações que se desdobram de modos muito diversos, do corpo gay holandês, ao corpo gay brasileiro, com suas marcas, físicas, psíquicas, suas construções aos frangalhos, sua errância interminável. – Guilherme Gontijo Flores

O autor tem um afinco muitas vezes cruel, muitas vezes irônico, muitas vezes humanístico que reboa pelas páginas como um voo rasante naquilo que se costuma chamar de condição humana. – Paulo Venturelli

Se a arquitetura minuciosa do enredo já é marca do autor (em Pequena biografia de desejos e O beijo de Schiller já há evidência disso), aqui, além da precisão factual, da atenção a cada milímetro do paralelo Leonel-Stefan e das personagens que o cercam, o universo narrativo se expande como explosão entre o erudito e o popular, o conservador e o liberal, o imigrante e o nativo. Por meio dos diálogos que, como a cicatriz de Leonel, cortam o romance (Leonel-Fadilah; Stefan-Desimond), provoca-se o estarrecimento do leitor diante de um mosaico de perspectivas coincidentes ou perpendiculares, que torna impossível decidir um viés a endossar. Com vigor narrativo excepcional, Cezar Tridapalli deixa claro, com este Vertigem do chão, que tem clareza em relação ao que é central quando se faz literatura. – Giovani Kurz

Uma imagem contendo texto

Descrição gerada automaticamente

Exemplo de página durante processo de revisão

Enfim, por fim, o convite aberto:

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