Caminhar | Jornal Plural
2 maio 2020 - 16h19

Caminhar

Sinto o carinho dos ossos de meus netos, filhos, mulher, parentes, amigos, conhecidos, vizinhos, velhos e novos, a me cutucar na expectativa do riso

Caminho só. Só, caminho dentro de mim, dentro das pessoas, por sobre os sentimentos que vagam nos vãos humanos. Não há outros. Só, caminho desprovido dos óculos e pouco ou nada enxergo em obstáculos à minha alma.

Só, o sol me lambe aberto em céu azul que me surge de todas as cores. Só, caminho só dentro de uma cela mesmo como espaço do mundo a caminhar. Só, acordes rurais ou musicais dos Beatles tomam conta de mim, sem pedir licença.

Sinto o carinho dos ossos de meus netos, filhos, mulher, parentes, amigos, conhecidos, vizinhos, velhos e novos, a me cutucar na expectativa do riso.

Só invado notas musicais que solam “Jesus, Alegria dos Homens” no violão do Toquinho, tão simples, tão lindo, ou será que é a magnitude e pompa da Orquestra Filarmônica de São Petersburgo? Engraçado, se a ouvi três vezes foi muito, mas os gestos quase teatrais de seu maestro e a afinação de seus instrumentos musicais me chegam com nitidez daqui.

Estreitos são os caminhos escuros de Auschwitz, por onde atravesso vielas com cheiros de cérebros torrados em fornos; salto, lacrimejante, essas vielas macabras e me percorro o esgoelar dos galos em campinas. Quando dou por mim, as pernas estão exaustas e o caminho continua solitário.

Tento, junto a Cristo, expulsar os mercadores dos templos. Mas, eles são invisíveis, trancafiados em seus bunkers inacessíveis, em linguagem ininteligível, só compreensível em seus dialetos.

Peço bênção ao Papa Francisco, à sua alvura de vestes e à sua divina clareza sobre o que pensam e como agem os homens. Drummond e a voz dolorida de Mercedes Sosa embirram minhas cordas vocais caladas. Há poesia por todos os lados desta solidão em sacolejos do dia. Helena me diz: é assim, querido, a vida é assim, em letrinhas miúdas de enxergar.

Só, caminho com saudades, tantas. Todas as saudades do mundo. Sentimentos misturados me empurram ao socorro das árvores, nas quais sabiás ensaiam o final da tarde. Sorte a minha não haver seriemas por aqui. Seria demasiado triste para quem caminha dentro de si. Recolho restos de sol em meu peito. O prédio está silente e a casa me abre as portas para as teclas.

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