Velho e menino | Jornal Plural
3 mar 2020 - 6h26

Velho e menino

Os dois usam ferramentas diferentes para realizar a obra. O menino trouxe a imaginação. O velho, a memória

O velho e o menino fazem um castelo. O menino, com um baldinho verde, amontoa areia mecanicamente. O velho, de joelhos, vai devagar, preso a detalhes: aplaina os montes, ergue torres, cava fossos, faz pontes com pedacinhos de madeira. O menino para às vezes ao lado do velho para observar seu trabalho, às vezes joga areia sobre o que ele fez. O velho não se irrita nem repreende o garoto, limita-se a restaurar o que ele destruiu. É um homem alto, magro, quieto. Parece conversar consigo mesmo. Esta conversa talvez inclua a presença (para ele algo remota) do menino. É como se o velho não esculpisse um castelo, mas um menino perdido.

Os dois usam ferramentas diferentes para realizar a obra. O menino trouxe a imaginação. O velho, a memória.

O menino faz furos com o dedinho no monte de areia e pronto, tem janelas. Cava um buraco na base e eis um portão de entrada. O velho precisa de realismo, já viu muitos castelos. E antes mesmo de vê-los frequentou escolas, onde lhe cobraram a verossimilhança das imagens até eliminar sua leitura interna de nuvens, montanhas, ameias e muralhas. Até apagar dentro dele a potente e subversiva recriação da realidade.

O velho está preso à imagem que todos têm de um castelo, e com ela busca malsofrido a infância destroçada. Isso de o menino jogar areia sobre o perfeccionismo do velho é o que devia fazer um verdadeiro mestre, penso, sentado a uma distância conveniente do velho e do menino. Um verdadeiro mestre ensinaria a não buscar o que todos têm em mente quando se diz: mar, morte, homem, castelo. Não limitaria a leitura do mundo às reproduções e técnicas conhecidas, como se faz neste modelo carcerário da imaginação em que a expressão não pode (não deve) ser obra de uma subjetividade livre. A liberdade do indivíduo é água fresca minando as pedras do velho castelo ordinário.

Então, meu senhor, abandone esta arquitetura apoiada em medo, pobreza e ignorância. Desmonte “sua” obra e enfie os dedos na areia, como fez o menino ao buscar em si janelas e portais.

O sol está atrás deles, agora os vejo contra as chispas do mar de Carcavelos, quase como figuras de um teatro de sombras.

Um avião traça no céu, alto e preciso, um risco branco – o giz da civilização. O risco se expande, se esfarela, absorvido pelo azul impassível.

O casal de adolescentes deitado perto de mim enlaça as pernas; ela fala algo, ele ri, de um jeito afetado e ingênuo que me comove.

O primeiro vento frio encrespa as ondas. Está ficando tarde, preciso pegar o comboio até o Cais Sodré, voltar para Lisboa. Amanhã é dia de trabalho, de erguer castelos…

Junto minhas coisas. Quando me ergo, olho para os dois construtores. O velho sumiu. O menino destrói a obra com os pés e, de repente, sai correndo aos gritos:

– Abuela! Abuela!

Sua voz aguda se perde na vastidão do mar como um velho nas sombras.

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