Aquarela

Sempre que saio do meu quarto, a primeira coisa que vejo é essa fusão de duas épocas da minha vida. Gosto de pensar que uma surge da outra, como se as andorinhas partissem da praia longínqua, inalcançável no tempo e no espaço

Marcos Pamplona

Ave migratória

Abro o livro e, antes mesmo de partirmos, entro no mundo das mulheres quebradiças de Alice Munro. Conto a conto, vou vendo seus pedacinhos se espalharem em desventuras com filhos distantes, homens fugidios, pais indiferentes…

Marcos Pamplona

Negacionismo sentimental

Penso em dizer à moça entristecida que não foi do nada, o rapaz já vinha elaborando aquilo, claro. Não somos máquinas, nem para amar, nem para ir embora

Marcos Pamplona

Feliz Natal, meu amigo

O celular toca. Juliana. Digo-lhe que já ligo. Desço as escadas rolantes do shopping, ligeiramente nauseado pela imersão na matilha de consumidores febris

Marcos Pamplona

Cutting

Considero a possibilidade de que o celular delas venha a ser substituído pelo estilete. Um outro tipo de suicídio consentido

Marcos Pamplona

Centopeia

Para deixar a multidão se esvair, fico olhando o metrô da outra pista ir embora. A lacraia metálica, terra adentro

Marcos Pamplona

Buraco no teto

Em meio ao burburinho dos clientes e aos gritos dos garçons para a cozinha, iniciamos então uma dessas conversas pontuadas de silêncio que costumamos ter

Marcos Pamplona

Nevoeiro

A tranquilidade das pessoas me faz pensar que já passaram por isso. Nesse caso sabem que o piloto nunca erra, ou pelo menos nunca errou, mesmo nas piores condições climáticas

Marcos Pamplona