O vendedor ambulante | Plural
21 maio 2019 - 6h00

O vendedor ambulante

Marcos Pamplona e as reminiscências de uma infância marcada pela ausência do pai

Eu sempre procurei o velho. Ele morreu quando eu tinha seis anos. Não o conhecia muito, era vendedor e vivia viajando, mas eu o amava. Vibrava quando, depois de uma semana longe, finalmente seu carro apontava no portão – era como se as janelas da alma se abrissem. Ele me abraçava, roçava a barba por fazer no meu rosto, dizia xingamentos carinhosos, “Seu bostinha, seu merdinha”. Me disseram mais tarde que ele “não era flor que se cheire”, pois não resistia a um rabo de saia. Eu era criança, não esqueço é o cheiro do viajante envolvendo meu corpo no ar, “Seu bostinha”.

Em janeiro de 1971, o velho estava na praia de Armação, em Santa Catarina, almoçando com amigos e parentes. Depois de comer muito, ouviu gritos de desespero. Duas moças estavam se afogando. Largou tudo e saiu correndo. Era bom nadador, podia fazer aquilo. Nadou com determinação, conseguiu trazer as duas para o raso, mas teve o que chamavam de “congestão”. Morreu quase na areia.

Trouxeram seu corpo do litoral para a casa de minha avó materna em Piraquara, onde foi feito o velório. O velho tinha dez irmãos. A casinha antiga encheu de gente que vinha de Curitiba, Porto Alegre, Biguaçu, Mandaguari… Caminhei entre eles, confuso, me aproximei do caixão. Na ponta dos pés, olhei meu pai entre cravos (eram cravos?). Na época, não acreditei muito que estivesse morto. Nauseado pelo cheiro das velas, das flores e do incenso que colocaram para disfarçar os odores do corpo, vi minha família chorando. Até ali a morte para mim era um índio caindo do cavalo, alvejado por um soldado do Forte Apache. Agora não, agora não parecia brincadeira.

Uma mosca pousou no nariz do velho. A tia mais próxima espantou, o rosto dele se mexeu, talvez.

Não vi o sepultamento. Minha mãe me disse: “Ele foi para o céu”.

Desde então algo aconteceu comigo, posto que o céu nunca abrisse suas portas para o meu entendimento. Passei a procurar o velho por toda parte, em todas as cidades em que morei. Dos seis até quase os trinta anos acreditei ter encontrado meu pai em bares, supermercados, bancos, lojas, restaurantes, praças, segui seus passos espectrais por ruas e ruas de um mapa que se perde no espaço e no tempo. Eu via alguém no meio das pessoas parecido com ele (ou com a lembrança vaga e mutante que eu tinha dele) e meu coração emitia um desagravo: “É ele! Eu sabia que era mentira!”. Era patético. E, a partir de certa idade, ridículo. Mas funcionava como um disparo, eu não tinha o menor controle sobre a coisa e, claro, ela me punha envergonhado.

A mosca, o rosto havia se mexido, ele andava por aí.

Só o cheiro de incenso me libertava dessa “suspeição suspensa”, como escrevi num poema adolescente. O cheiro de incenso, contornando as armadilhas do afeto, restaurava a materialidade de um homem morto entre flores e sussurros. Mas a esperança não aprendia nada com os sentidos, eu persistia no erro.

Com o tempo, isso passou. Vieram os trinta anos, os quarenta, chegaram os cinquenta. Nunca mais vi o velho no meio da multidão. Até que um dia ele reapareceu.

Depois de adiar um compromisso por algumas semanas, tive que ir a um cartório para autenticar minha assinatura em um documento. Estava numa sala cheia de gente, com uma senha nas mãos, aborrecido, disperso. Atrás do balcão dos escrivães, outra sala, idêntica, igualmente lotada. Eu lia em pé, porque não havia onde me sentar. Quando conseguia me concentrar um pouco no texto, o visor eletrônico da senha apitava, berravam algo lá no balcão. Desisti da leitura. Olhei em volta. Olhei mais longe, para a outra sala. E então as esquecidas palavras vararam o meu peito: “É ele! Era mentira!”

Lá estava o homem. A mesma testa grande, os mesmos cabelos brancos nas têmporas, a mesma intensidade sob a mesma incompletude… O sorriso do encontro durou apenas um segundo. Eu já tinha compreendido o equívoco, já sabia que atrás do balcão dos escrivães havia um enorme espelho. A tia havia dado um tapa na mosca, o rosto tinha se mexido. Ficou se mexendo sutilmente por mais de quarenta anos no fundo de mim, enquanto eu empreendia minha busca risível mundo afora. Então meu pai despertou em minha própria carne.

Autentiquei a assinatura. Segui pela rua generosamente vazia.

 

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