Mergulho | Jornal Plural
18 maio 2020 - 22h27

Mergulho

Quem sabe o ar venenoso se dissipou, mas já estão todos mortos

“Life’s but a walking shadow…” W.S.

Nossas pernas, braços, o livro, um anel… sobre a turva areia do lençol, repousam os vestígios de um naufrágio.

Colidimos com o invisível, afundamos nos debatendo, milhas e milhas por um silêncio abissal. Agora nossos despojos aqui estão, desconexos, libertos de amanhãs e ontens, neste presente contínuo que abole a História. Algas pardas, verdes, vermelhas dançam para ninguém, recobrindo lentamente a fúria esquecida de proa e popa, leste-oeste, ouro e morte.

Sou levado ao torvelinho de cabelos negros em cujo centro obscuro ela sonha. Sua mão esquerda, ligeiramente crispada, é a antena óssea de uma algaravia remota, pré-silábica, que seu inconsciente traveste de sentidos precários. Onde está esta mulher que sonha? Vejo o corpo de Rute. Também vejo as paredes do quarto. Em ambos – corpo, quarto – encontro apenas a muda disciplina da matéria submissa. Sua alma (ou algo assim) está longe, entre farrapos de nomes, cacos de nexo, longe do silêncio azul que nos encerra.

Ardo.

Há quantos séculos estamos neste apartamento? As pessoas terão voltado às ruas? A Torre de Belém ainda se milparte no trêmulo espelho do Tejo?

Quem sabe o ar venenoso se dissipou, mas já estão todos mortos. E mesmo nós, em equilíbrio hidrostático no leito oceânico, somos só o eco abafado da vida que singramos. Espectros, sob a luz difratada de uma realidade inalcançável. Talvez um dia um anfíbio alienígena nos encontre, nos desencalhe. E lentamente suba com seu achado arqueológico, para expor à superfície o frouxo liame de um abraço corroído pelas eras…

É dia, com luminosidade de lua.

Não ouço mais o pânico das ambulâncias.

Apesar de estarmos no décimo andar, o gato sumiu. Ou não havia um gato?

Um vulto negro e reluzente corta o espaço, talvez um corvo.

Pensei que alguém gemia. Era o vento.

Sinto um calor que dilui os limites do corpo.

Me ergo com dificuldade. Sob pressão titânica, vou a passos lentos pelo corredor. As fotos da família na parede são frames de um filme do qual guardei apenas o furor. Chego à cozinha; curiosamente ainda estou deitado e já parti. Há um ovo sobre o inox da pia, um sol nostálgico na maçã.

Olho para fora. Faíscas de cardumes e o slow motion de arraias e medusas compartilham o azul hialino com gaivotas, esfinges, andorinhas.

Pego a maçã, ou ovo, abro a janela –

mergulho.

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