Lidiane assobia | Plural
2 jul 2019 - 6h00

Lidiane assobia

Marcos Pamplona fala da falta de esperança que tomou conta do país

Conheci uma mulher que assobia. Chama-se Lidiane. Trabalha no prédio de uma amiga, é faxineira. Enquanto lava corredores e escadas, Lidiane assobia. Lindamente. É um pássaro que vem da periferia para a cidade, canta, cisca a sujeira e voa.

Lidiane é magra, forte, usa calça jeans, camisetas grandes de homem e botas de borracha. O dia pode estar feio, frio, as pessoas podem passar por ela com seu mau humor costumeiro: assim que se vê sozinha, Lidiane assobia. Não conheço as canções que ela entoa, nem preciso. Paro em algum ponto das escadas e fico ouvindo aquele trinado que atravessa todo um sistema de gaiolas. De onde ela tira esse sopro suave, quente, sonoro? Mesmo não podendo ter uma consciência crítica do mundo, mesmo sem nada a perder, pobres, hipnotizadas por um pastor e reduzidas aos contentamentos do conformismo, as pessoas não assobiam assim. Eu jamais vou assobiar assim, penso diante da porta na qual hesito em bater. Mas havia alegria, eu encontrava alguma alegria por aí. Onde ela foi parar?

Nesta noite que pesa sobre o país como o corpo de Marielle, ando por aí espicaçado por uma falta de esperança e identidade que me faz viver feito um exilado em minha própria terra, entre a minha própria gente.

Luiz Inácio está preso a uma trama de injustiça e mentira. Anda de um lado para o outro entre as paredes de uma cela que cheira a toga, dinheiro, bíblia, pólvora. Seus algozes caminham lá fora mais livres do que nunca, destruindo as políticas públicas que implantou (ao custo alto de apertar-lhes a mão mole e fugidia). Trabalhadores em frangalhos, de norte a sul, perdem direitos, vendo seu futuro ruir sob a marcha de milicos e oligarcas. Desempregados olham para o teto de seus barracos, pensando no jeitinho que darão para a comida, a roupa, o gás já no fim. A necropolítica ataca os negros, os índios, os sem-terra, movida pelo ódio classista aos excluídos, aos não rentáveis. Escolas e universidades estão vigiadas pelos olhos estúpidos dos mastins do fascismo. Florestas são derrubadas para a expansão de lavouras cada vez mais venenosas…

Lidiane, porém, assobia.

Glenn Greenwald destampa o fosso da farsa jurídica que prendeu Lula. O juiz cínico que comandou o esquema, visto como herói pela parte idiotizada do povo, impulsiona o crescimento das forças sinistras que o levaram ao poder. O presidente truculento e ignorante é isolado como um vírus no G20, no BRICS, nos próprios Estados Unidos – o país belicista a que se aliou como um rato se aliaria a uma águia…

Lidiane esfrega as escadas e assobia.

Um cisma dividiu a população: de um lado os que acreditam nas lições perversas do patriotismo, da família e de Deus, e erguem arminhas contra os “comunistas”, sem perceber que são suicidas sociais; de outro uma gente estupefata com os retrocessos, gente que vai às ruas e às redes sociais manifestar sua indignação, mas talvez não possa esconder (como eu) algum ceticismo diante da força da grana que arrasta as massas para o abismo.

Lidiane, lá no prédio, lava a garagem e assobia.

Levo comigo esse assobio como um talismã. Ele vem de longe. Passou de fininho pelos piores pesadelos da História e nunca morreu. Ele me lembra que, enquanto homens do quilate de Bolsonaro agem como cavaleiros do apocalipse, alguém canta. E humildemente limpa caminhos.

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