Darth Vader sentimental - Jornal Plural
5 maio 2021 - 0h03

Darth Vader sentimental

Os dois meninos me apresentam todos os dias novos personagens de novos videogames, num processo dispersivo que me atordoa

– Oi, pai, tá me ouvindo?

No celular o rosto de meu filho mais novo está em big close, meio bicudo. Fala perto demais da câmera, examina algo na tela que não sou eu. Digo-lhe que sim, ouço perfeitamente.

– Ganhei o telemóvel.

Telemóvel… já fala como os portugueses, penso.

– É a primeira ligação dele, pai! – grita meu outro filho de algum lugar no quarto.

Fico feliz de saber que o menino escolheu a mim para inaugurar o aparelho. Ao mesmo tempo, ao ver no grande rosto infantil uma miopia tecnológica que durará poucas horas, sou atravessado por uma apreensão. É como se o garoto me houvesse sido roubado.

Ele aperta os olhos e diz:

– Estou tentando mandar uma mensagem pra você.

Concentra-se, não consegue. O irmão intervém. Plim! surge na borda superior do meu celular o primeiro coração virtual desta criança do século XXI. Mando-lhe um coraçãozinho saindo da boca, ele me devolve gifts de gatos trapalhões, de mínions, do desenho de um macaco tentando afundar com os pés uma bola de basquete entalada na cesta. Tenho vontade de lhe dizer algo sobre o mundo virtual, sobre a necessidade de se usar o celular com moderação. Mas me calo, não sou exemplo. Segundo os relatórios do sistema, passo de quatro a seis horas por dia diante das telas. Poderia alegar que a maior parte deste período é dedicada ao trabalho, isso porém não muda nada, de qualquer forma despendo um tempo precioso a falar com vozes e imagens intangíveis, inodoras, a mandar corações e caretas e mãozinhas que são ícones de uma civilização incorpórea.

Além disso, não saberia o que dizer a uma criança do século XXI, visto que no XX gestávamos o mundo em que ela nasceu.

Meu filho me mostra o desenho que fez a partir de um personagem de videogame.

– Como ele se chama?, pergunto.

Diz algo que não entendo, que não me esforço mais para entender. Os dois meninos me apresentam todos os dias novos personagens de novos videogames, num processo dispersivo que me atordoa. Não encontro um centro para nosso diálogo, e eles conversam melhor entre si, no mundo paralelo de uma mitologia mutante, desossada.

Sei que a mãe deles, num esforço diário, vai regular o tempo de uso do aparelho. Também sei, porque eles me disseram, que na hora do recreio ou nos intervalos entre as aulas todas as crianças sacam sediciosas seus celulares dos bolsos e afundam no mar virtual,  náufragas da realidade – ou daquilo que, até há algumas décadas, chamávamos de realidade.  

Quem sabe – respiro enquanto envio a ele uma foto de nós dois –, em vez de acreditar nas velhas proibições que só aprofundaram conflitos geracionais, quem sabe seja hora de rever este conceito. Aceitar o virtual como parte do real, ajudar a construir a nova ética, a nova política, a nova estética. Lutar, num mundo agora feito de pedras e pixels,  contra os abusos dos que concentram dinheiro e distribuem estupefacientes de alienação passiva. Como sempre fizemos em todas as eras, por mais que nos assustasse a sombra móvel do futuro.  

Comemoro com o meu filho sua conquista. Ele sorri. Todos os seus amigos têm celulares, vai mandar mensagens.

Desligo. O menino ainda me envia gifts de um Darth Vaderzinho sentimental, um guerreiro de coração humano oculto sob aço negro, que chora, luta com espada de luz torta, fuma, abraça alienígenas…


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