Aquelas tardes | Plural
9 dez 2019 - 23h28

Aquelas tardes

Ninguém me incomodaria porque eu estava no que eles consideravam a fase mais importante dos meus estudos, aquela que definiria meu destino

Chegava do cursinho a uma e meia, cansado da viagem interminável no ônibus atulhado de gente, faminto. Minha avó reaquecia a comida. Esperava eu comer e lavava rapidamente a louça. Então se sentava no sofá. Ficaria fazendo tricô até adormecer, a papada caída sobre o peito, as mãos inertes segurando o novelo de lã sobre a barriga.

Meu avô dava um cochilo e, depois, sentado à mesa da sala, escrevia extensas cartas para uns parentes míticos na Alemanha.

A casa entrava em repouso. Ninguém limparia mais nada, nem me daria ordens. Os adultos, com suas demandas insuportáveis, me deixariam em paz.

Eu ia para o meu quarto, que parecia esperar pacientemente pelo meu retorno do alvoroço externo. Trocava de roupa e me jogava na cama. Ninguém me incomodaria porque eu estava no que eles consideravam a fase mais importante dos meus estudos, aquela que definiria meu destino. Eu só pensava em “meu destino” através deles. Era melancólico, espinhoso, hedonista. Me bastava ficar só com minha dolorida noção de um mundo operoso e triste. Não sonhava com o futuro. Queria um canto para me libertar da volição alheia, para me desentender em paz. E fruir preguiçosamente os apelos do corpo, os saltos em slow motion da imaginação.

Assim, sob o calor das cobertas, primeiro me entregava às excitações despertadas pelas meninas da escola, pelo aperto com as mulheres no ônibus. Chegava fácil a um gozo intenso como um soco do ventre no ar. Então caía num longo desmaio pós-orgástico. E dormia.

Quando voltava à tona, começava a estudar. As paredes do quarto estavam cheias de fórmulas de física e química, esquemas de biologia, cronogramas de história, macetes criados pelos professores. Eram horas fazendo os exercícios das apostilas, me sentindo ora logrado, ora entusiasmado por achar que eram meus os clarões da ciência humana, enfiando de vez em quando o lápis no ouvido para sentir a coceira e, estrangeiro de mim, olhar a cera curiosa que saía de lá.

Ao fim da tarde, confortado por haver alguém a ordenar abismos, jantava com meus avós. Então chegava o melhor momento do dia. Eles assistiam na tevê as três novelas e o Jornal Nacional. Eu voltava para o quarto e lia os best-sellers da coleção Grandes Sucessos, que meu irmão mais velho me emprestava. Lia, indiscriminadamente, O Grande Gatsby, Horizonte Perdido, O Dia do Chacal, A Sangue Frio, O Repouso do Guerreiro, Fogo Morto, Papillon, Bel-Ami, O Caso dos Dez Negrinhos, A Romana, Taras Bulba… Durante a leitura, as fórmulas coladas às paredes desapareciam; levavam consigo o conhecimento objetivo do mundo. E a cama, o armário, as janelas, a casa, tudo se reduzia a uma casca que gestava um pássaro negro, um mergulhão imaterial, em voo de rapina sobre águas perdidas no tempo. Em poucos minutos eu partia o ovo. Voava desolado para a Ilha do Diabo; não sabia sair das alturas cruéis de Shangri-lá; pousava no sangue de uma família estupidamente assassinada em Holcomb.

Meus avós iam se deitar. Eu tinha que acordar cedo. Fechava o livro, apagava a luz. Ficava olhando as sombras das folhas das ávores se movendo como um cardume na cortina empalidecida. Lentamente, as fórmulas, as histórias e o cardume afundavam no breu, sob o calor imperceptível das pálpebras…

Vejo o rapaz dormindo, o rapaz que fui aos dezesseis, no vago haver um mundo extinto. Sei que nunca mais lerá histórias com tamanha entrega, nem viajará tardes tão longe das atribulações da morte e do amor.

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