9 fev 2022 - 8h45

Aquarela

Sempre que saio do meu quarto, a primeira coisa que vejo é essa fusão de duas épocas da minha vida. Gosto de pensar que uma surge da outra, como se as andorinhas partissem da praia longínqua, inalcançável no tempo e no espaço

São três aquarelas pequenas, enquadradas em molduras finas, de um cinza discreto. Mostram vendedores ambulantes numa praia do sul de Santa Catarina. Um deles, visto de costas, tem os braços abertos como um cristo tropical, mas em vez de cruz suporta uma vara carregada de cangas. Outro, de perfil, usando um chapéu com Bob Marleys estampados na aba larga, ajeita queijo coalho na lata que leva suspensa por uma longa alça de arame. E o terceiro é um homenzinho semiescondido pelo amontoado de redes que carrega no ombro; uma pilha de chapéus de praia é sustentada por um braço que não se vê. As imagens são de um colorido intenso, meio abatido pelo excesso de luz. Mostram apenas os homens com as mercadorias e sua sombra mínima sob o sol a pino. O resto é areia, sugerida pelo branco do papel. Ou é apenas branco, e eles caminham pelo espaço indefinido, livres do chão, da representação do real que meu olho quer colocar sob seus pés. Eu também poderia imaginar que vendem suas coisas nas nuvens, oferecendo cangas e redes ao vento, mas isso já seria a imagem contaminada pelo lirismo da saudade que o amigo deixou.

Quando decidi ir embora do Brasil, trouxe as aquarelas para Portugal. Estão na parede do corredor, abaixo de três andorinhas negras de porcelana, tipicamente lusitanas. Sempre que saio do meu quarto, a primeira coisa que vejo é essa fusão de duas épocas da minha vida. Gosto de pensar que uma surge da outra, como se as andorinhas partissem da praia longínqua, inalcançável no tempo e no espaço. Como se o voo dessas aves elétricas sacudisse as tintas da memória e, ao mesmo tempo, fizesse um dos vendedores, o das redes, olhar para cima, para o misterioso ruflar do futuro.

Embora nossa amizade tenha se estendido por trinta anos, no dia em que meu amigo pintou estas cenas eu não estava lá. Mas posso dizer aproximadamente como foi. Se por acaso errar nos fatos, dificilmente erro na essência.

Ele está sentado numa velha cadeira de praia. Tem as pernas unidas; sobre elas, uma prancheta revestida de couro, na qual deitou com cuidado o papel de fibra de algodão. O estojo de tintas, sobre um banquinho, provoca vertigens que ele refreia. Chegam-lhe as vozes distantes das pessoas dispersas na larga faixa de areia, vozes que surgem e somem no limbo de sua consciência. Ele dá as primeiras pinceladas, hesitante. Em torno delas cresce o devir da imagem, ele solta os ombros, bebe um gole de cerveja. Agora as pinceladas fluem, já parecem copiar o desenho que a imaginação prefigura.

Sua mulher está ali perto, deitada embaixo de um guarda-sol, um pouco embriagada. Conversa com uma amiga. Quando fala, muda bruscamente de posição, apoia-se em outro cotovelo, senta-se. As duas falam de alguém num tom elogioso que, aqui e ali, destila alguma crítica. Às vezes comentam a beleza de uma gaivota, de um barco que cruza o horizonte, o peixe que salta. Às vezes, na ponta dos pés, vão espiar o trabalho do artista. Nesses momentos meu amigo tenta rir, contrafeito. Precisa resolver sozinho todas as dúvidas que a pintura suscita. Intuir em silêncio os contornos e cores que a composição sugere ou exige, alimentar-se dos acertos. Além disso, há muitas ameaças, a dispersão pode ser fatal. O papel, por exemplo, tem sede, absorve imediatamente as pinceladas. E o pincel é uma adaga: separa tudo que poderia ser do que passa a ser.

Meu amigo se levanta, caminha até a praia. Ajeita o chapéu de pescador. Cisca na areia com o dedão do pé.  Põe as mãos na cintura, olha o verde vítreo do mar; pensa talvez que não fará nenhuma marinha, todos fazem marinhas. É atravessado pela angústia habitual, o que estou fazendo é bom, relevante, belo sem ser tolo? Sacode a cabeça como quem se liberta de um mosquito, volta para a cadeira. As duas mulheres saíram para caminhar, lembra-se vagamente de o terem avisado. Estão longe, na curva da praia. Ele pensa em fazer uma aquarela com elas, trêmulas figuras femininas a se afastar sobre ondas de calor. Mas não, não quer se dispersar, melhor se concentrar nos ambulantes.

Volta para a cadeira, pega o pincel e, por um momento, pensa em desistir. Porém o braço (mais do que ele) mergulha o pincel na tinta.

O trabalho progride. Das mãos de meu amigo – aquelas que sete anos depois verei sem vida no sofá de sua casa, como dois remos abandonados na praia derradeira –, de suas mãos longas e morenas nascem as figuras ambulantes.

Não sabem que andarão ao meu encontro para despertar andorinhas e lembranças à beira do Tejo.

– Quero fazer uma série, só vendedor ambulante. Não só na praia, na cidade também. E nas estradas, me disse meses mais tarde.

Não fez. Restaram apenas essas três aquarelas, as outras se evolaram com ele. Mas eu gosto de vê-las como um pensamento inacabado, inacabável. Os três pontos das reticências de sua história. Porque não vejo o corte arbitrário e impotente de um ponto final na vida do meu amigo. Ela transborda qualquer fim. Derrama-se deste que faço agora.  

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