A ponte | Jornal Plural
Clube Kotter
14 abr 2020 - 21h39

A ponte

O dia está lindo. Umas poucas nuvens passeiam unidas pela leveza. Do meu posto à janela, nunca tinha visto a ponte Vasco da Gama com tanta nitidez

– … não facilite – mantenha-se em casa – siga as recomendações da Direção Geral da Saúde – nesta páscoa, não facilite – mantenha-se em casa – siga as recomendações da Direção Geral da Saúde – nesta páscoa…

A voz que ecoa entre os prédios, em looping, nasce do abismo. É uma voz feminina, firme mas não autoritária. Sobe dos miasmas da terra até minha gaiola no céu. Nos intervalos, ouço o vento, saboreio a calma luminosidade do dia. Um pouco constrangido, confesso a mim que o vírus me fez um favor: deteve a máquina que me fazia culpado pelo amor à vagabundagem. Não me alisto entre os adictos do trabalho. Sempre preferi andar sem destino definido, pensando a esmo. Andar agora não posso. Mas posso divagar do jeito que gosto, olhando o rabanete que murcha, o raro avião que passa, meus pés ao sol como raízes arrancadas – não sinto na nuca o dedo do dever, o hálito azedo das obrigações.

O dia está lindo. Umas poucas nuvens passeiam unidas pela leveza. Do meu posto à janela, nunca tinha visto a ponte Vasco da Gama com tanta nitidez. Posso abarcar com os olhos os muitos quilômetros de sua ondulação suave sobre o Tejo. Só um carro a atravessa, minúsculo, a caminho de Lisboa.

Da mureta do terraço, olho os edifícios iluminados pela brandura, ouço o silêncio das ruas de ninguém. Ao longe, no espaço arborizado da praça, uma pessoinha sentada num banco, imóvel. Não, não é só a ponte, todo o Barreiro está muito nítido. Ontem, alíás, a lua estava tão gorda, tão cheia de si.

É evidente que, sem os fumos da indústria humana, a natureza já se refez um pouco. Acalmou-se, respirou. Ainda medrosa do que houve, ensaia horizontes inviolados, montanhas, pássaros, cidades precisas como maquetes. Abre perspectivas que nós, em nossas gaiolas, havíamos esquecido. Nós, que toldamos o céu.

Imagino o que aconteceria se continuássemos presos pela mão invisível desse vírus, um sniper sutil que mira verdades mais vis e menores do que ele. Se tais verdades – dinheiro, família, pátria, deus, glória e demais eufemismos de solidão – caíssem como moscas sob o spray do “próximo”. Se aqueles a quem fomos indiferentes nos matassem e fossem mortos por nós, numa escala crescente, anos e anos a fio. E ao fim restassem uns poucos pálidos sobreviventes, diante de uma natureza imune, refeita, uma cornucópia de seres multifários e instintivos dizendo “sim” para estes homens esquecidos, que saem de seus esconderijos com a memória flagelada pelo “não”.

Vamos supor pouquíssimos homens, meia dúzia de criaturas esqueléticas que não comeram carne humana para evitar contrair o vírus. Viveram de restos, raspas, sombras. Por algum motivo não tombaram. Passo a passo, eles ganhariam as ruas cobertas de mato, experimentariam o assombro de serem arqueólogos de seu próprio mundo. Veriam placas de contramão apagando-se sob a ferrugem; cartazes anunciando crédito fácil para o nada; escolas abismadas em ecos de pios, grunhidos e relinchos. Chegariam a uma praça, como esta que vejo da minha gaiola no céu.

Ali, entre vacas, canários, cães e porcos comeriam folhas. Depois, perseguiriam galinhas.

Me pergunto o que essas criaturas, depois de recobrarem a força, o cálculo, a volúpia da palavra, o que essas criaturas fariam…

Ouço os passos dela atrás de mim. Eu amo seus passos lentos, de garça atenta. Sei que anda inquieta, sei que este isolamento é um espelho claro demais da nossa insuficiência. Ela põe a mão em meu ombro, olha o céu:

– Ficou tudo tão claro…

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