18 nov 2021 - 8h45

Toc toc…

Ando por aí contando de 1 a 9 sem que ninguém perceba, já que minha habilidade chegou ao ponto de não precisar repetir dois passos com o mesmo pé para alcançar o objetivo

Uma das coisas boas de escrever é a possibilidade de encontrar pessoas que vivem experiências e emoções semelhantes às nossas.

Um texto recente que publiquei aqui falando sobre o medo invencível que tenho de cachorro provocou um bom número de respostas de pessoas que, como eu, também se incomodam quando alguém minimiza nossa fobia. Mas nada se compara à comunhão que se instala quando o assunto são manias e esquisitices em geral.

Anos atrás, publiquei numa rede social um texto curto contando uma “habilidade” que tenho: consigo calcular exatamente onde começar a contar os passos, quando estou andando na rua, de maneira que o nono passo da série caia exatamente no momento de subir no meio-fio ou de pisar no batente da porta, por exemplo. E, desculpem a falta de modéstia, mas não com qualquer pé: sempre com o esquerdo.

“Consigo” é modo de dizer. A verdade é que faço questão. Ando por aí contando de 1 a 9 sem que ninguém perceba, já que minha habilidade chegou ao ponto de não precisar repetir dois passos com o mesmo pé para alcançar o objetivo – o que certamente chamaria a atenção.

A tal postagem, que era só uma tentativa de fugir um pouco do amargor dos temas políticos, foi um sucesso – não pelo que dizia, mas por ter deflagrado o que se poderia chamar de uma reconfortante competição de esquisitices.

Não vou me deter em relatos de manias prosaicas, como contar letras de palavras, subir escadas contando os degraus ou aproveitar o tempo sentado no vaso sanitário para calcular o total de azulejos do banheiro. Coisas que, suspeito, todo mundo deve fazer pelo menos de vez em quando. Vamos ficar nas mais peculiares, que por natureza são mais propícias a aliviar nossa própria sensação de esquisitice.

Foi consolador, por exemplo, saber que uma ex-colega não pendura as roupas no varal se os grampos não forem todos iguais e da mesma cor, e que outro calcula ter pisado em divisas de calçadas não mais que 10 vezes nos últimos 30 anos.

Uma amiga confessou que costuma calcular a quilometragem e o tempo de viagem, incluindo as paradas, congestionamentos e outros fatores eventuais. De um colega de profissão veio isto: “Eu certamente terei algum problema auditivo se o volume da televisão não estiver em algum número ímpar”.

Outra colega, que admiro e que considerava insuspeita, revelou-se: “Eu espero contando 1, 2, 3, seja lá o que esteja esperando, até uma água ferver; às vezes vou perto do milhar…”

“Eu não me contenho diante de placas de carros. Vou logo somando os números. Há anos faço isto”, contou uma pessoa, que não está sozinha – apareceu outra que, da janela do ônibus, vai somando todas as placas de carro e formando palavras com as letras.

Outra ainda relatou que só consegue colocar o despertador se os minutos forem números ímpares. E houve quem apresentasse um combo originalíssimo: “Eu gosto de olhar as horas quando é 15h09, que são os números do dia do meu aniversário. Amo atravessar na diagonal, e nunca, nunca piso em bueiros”.

Naquele dia fui dormir em paz. Pode não ter cura, mas é algo que nos irmana.

PS: A propósito, vale lembrar dois filmes ótimos sobre Transtorno Obssessivo Compulsivo: Melhor é impossível, com Jack Nicholson, e Toc toc, uma deliciosa comédia espanhola. Ambos recorrem ao humor para falar de TOC e nos fazem perceber que, como diz Caetano em Vaca profana, de perto ninguém é normal.

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