26 ago 2021 - 9h00

O bolo

Com a vista embaçada de quem havia almoçado bem, depois de cumprir a jornada de trabalho com carteira assinada, segui lendo a miséria das ruas

Uma dose a mais de autoconfiança, o dobro de ingredientes para garantir que todos comessem à vontade, e o bolo de chocolate branco sobrou quase inteiro. Saboroso até, mas ainda assim uma sombra distante da maravilha que a receita prometia e que parecia tão fácil alcançar.

Agora, dividido e acondicionado em duas embalagens plásticas que dias antes vieram da padaria com chineques de banana, o bolo seguia comigo para o centro da cidade, à espera de mãos que aceitassem recebê-lo.

Um certo incômodo impediu que ele fosse oferecido aos primeiros que me abordaram nos sinais fechados. Foram muitos. Uns estavam vendendo coisas, não pedindo dinheiro ou comida – com a única nota que tinha na bolsa, comprei um pacote com seis paçocas. Outros, bem vestidos, pareciam recém-jogados nas ruas pela crise, e talvez não estivessem ainda em situação de receber sem constrangimento um pedaço de bolo feito por alguém que nunca tinham visto antes.

Com a vista embaçada de quem havia almoçado bem, depois de cumprir a jornada de trabalho com carteira assinada, segui lendo a miséria das ruas. Até que da janela aberta do carro aproximou-se um rapaz que parecia ter pouco mais de 30 anos. Vestia roupas sujas, mas em bom estado, e fazia ponto numa esquina do bairro com o metro quadrado mais caro da cidade, onde a pessoas como ele só é permitido ocupar as calçadas.

Veio de um jeito manso, que não provocou medo, mas sem meias palavras:

– Moça, não vou mentir pra você. Tô pedindo um troco pra comprar uma pinga. Hoje é meu aniversário.

Só pensei no bolo.

– Olha, não tenho dinheiro aqui. Mas tenho um bolo que eu fiz ontem. Você aceita?

Ele aceitou, meio a contragosto, e entreguei as duas embalagens, já engatando a primeira porque o sinal tinha mudado para o verde.

O remorso não demorou 100 metros. Dois pedaços de bolo e nem uma palavra sobre o aniversário. Feliz aniversário. Não, seria cinismo. Parabéns. Também não. Então, pelo menos: quantos anos você está fazendo? Mas eu não disse.

Tentei achar alívio. Talvez não fosse verdade que ele estava fazendo aniversário. Talvez fosse só um pretexto para a pinga. Talvez eu tenha feito bem de pelo menos evitar o desperdício. Talvez ele ainda não tivesse comido nada até aquela hora. Talvez… mas aquele rosto não me larga.

Me perdoe a pressa.

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