Interrupção | Jornal Plural
13 out 2020 - 18h51

Interrupção

A gente, que aprendeu a admirar o contorno das coisas, esquece como é legal espiar para o lado de lá da moldura

Ainda que eu goste da fluência de qualquer coisa que não quebre, não posso não lembrar que é pelo rasgo, pela fenda, pela rachadura que a luz entra – Cohen, obrigada, sempre, por isso. E observar a morte, sob a perspectiva da luz, aqui, no ocidente pretensamente cristão, é das tarefas mais arriscadas. Ela segue parada no meu ombro há alguns meses depois que tantos da minha família foram embora e redefiniu o esboço que eu vinha desenhando pra vida. A gente, que aprendeu a admirar o contorno das coisas, esquece como é legal espiar para o lado de lá da moldura. No caso da vida, a espiada não é de todo possível e fica a cargo da imaginação, quase como quando a gente dá de cara com um idioma de outro alfabeto. Que traço é aquele tão legível para o meu estrangeiro que eu não faço a menor ideia de como decifrar? E assim começam os balbucios para o encontro com o que a gente não conhece. A criança tasca um grommelot e onomatopeias, o adulto, paralisa.

Deve ser assim que quem não mora por aqui se sente ao olhar pro cê com cedilha, essa letra que se arrasta com um penduricalho nos pés, uma vírgula acompanhando seus passos e a proibindo de iniciar palavras. Aliás, tenho gostado tanto da cara das palavras que carregam essa letra que não anda sozinha. Uma gramática poderia nos contar que o cedilha é um sinal diacrítico, que serve para distinguir a pronúncia, atribuir um novo valor fonético a uma palavra e dizer de onde é que ela veio – se vejo qualquer semelhança com a morte, é porque meu idioma é também meu oráculo. Esse sinal, que poderia ser também zedilha, já que é um pequeno zê, sinaliza que a palavra nasceu árabe, africana ou indígena.

Laço, descalço, dança, cansaço, esboço, miçanga, louça, paçoca, açafrão, embaraço, mudança, sentença, pedaço, destroço. E também abraço, que saudades. Quando esse cê já nasce junto com a palavra, é de nascença. Quando ele vem como sufixo (-aço), é pra dizer que alguma coisa tá ali em abundância, mas bem que podia ser em abundança. Ricaço, alguém com mais dinheiro do que deveria, dentuço, alguém com dentes muito bonitos, beijaço, é um beijo muito bem dado. Panelaço é o que todo mundo fazia num planeta distante quando a indignação ainda existia, lá no começo do século 2020.

E cá estamos, 84 anos depois, na semana daqueles que criam muito: as crianças, esses seres que nem sonham que um adulto pode ser uma estalactite. O brinde vem com outro significado: é também a palavra usada para criação – quando o assunto é arte mesmo. É do castelhano que a gente empresta esse indicador de exagero (-antia), mas os espanhóis já deixaram isso pra lá e adotaram a palavra niño ou niña para se referir aos caçulas. Nosso brasileiro registra também o substantivo no masculino crianço, mas a língua é sábia e adotou uma quase não binariedade para designar quem nasceu agora pouco: criança, com -a mesmo no final. Gosto de pensar que, quando o aquecimento global era um problema distante, mas não tanto, El niño era nome para fenômeno climático. Depois, os furacões passaram a ter nome de mulher e a gente perdeu de vista que natureza é pra se enxergar a olho nu, feito quem escala uma montanha pela primeira vez.

Parar pra tomar ar é quase uma afronta enquanto tanta gente tenta respirar. Essa escrita aparentemente linear que nasce pequenininha, vezes furacão, vezes furação – até virar abismo –, finca pé na possibilidade de existirmos por uma via emoldurada, bonita e sempre avançando, mas esquece que nasceu toda asmática, pra além da borda. Que ar é esse que entra pelo nosso nariz assim que a gente nasce?, perguntam nossos pulmões, nossos olhos não perguntam nada. E se já cansamos de caçar respostas, cansados do voto de silêncio de quem põe fogo e da ladainha de quem autoriza, talvez seja o caso de apostar na lacuna – no espaço a ser preenchido por quem ainda quer sentir gosto de chiclete e não alcança qualquer móvel. Acreditar na promessa de quem nasce é clichê, mas parece ser a única via para que o fim dê lugar ao começo, ou, pelo menos, a outros princípios.

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