Rio Adentro | Jornal Plural
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4 ago 2020 - 15h52

Rio Adentro

Se, no sebo, ao folhear o livro pensei em Leminski, Drummond e Lorca, agora vejo-os citados no livro

A composição do verde – da capa desenhada por Ziraldo – formando montanhas cortadas por rios lembra poemas. No sebo com o livro na mão lembrei-me de Drummond. Lembrei-me que há muitos anos – que não sei quantos – atrás li um poema de Drummond que falava de montanha. Fui à busca do mesmo: A Montanha Pulverizada.

Chego à sacada e vejo a minha serra,/ a serra de meu pai e meu avô, / de todos os Andrades que passaram / e passarão, a serra que não passa.

[…]

Esta manhã acordo e não a encontro, / britada em bilhões de lascas, / deslizando em correia transportadora / entupindo 150 vagões,/ no trem-monstro de 5 locomotivas  – trem maior do mundo, tomem nota – / foge minha serra vai, / deixando no meu corpo a paisagem / mísero pó de ferro, e este não passa.

Ao abrir o livro, o verso (que não é poema) da capa e a primeira página estão chapadas de verde. Isto reforçou a impressão inicial da capa e me trouxe à memória outros poetas: Leminski e Garcia Lorca.

Leminski: de repente / me lembro do verde / da cor verde / a mais verde que existe / a cor mais alegre / a cor mais triste / …

Lorca: Verde que te quiero verde / Verde viento. Verdes ramas. / El barco sobre la mar / y el caballo en la montaña. / …

Hoje lendo-o, sinto que estes detalhes, estes verdes, me trouxeram imagens distantes e atuais, como por exemplo, a destruição das florestas no passado e o presente como agora na Amazônia. A ruptura de barragens e as mortes, como as de Brumadinho.

O – Ziraldo, mineiro como o Jorge – ilustrador teve sua intenção, sua imaginação. O leitor/a, imaginador/a terá outra. Eu tenho a minha.

Imagino que a página que contém a dedicatória com sua simples ilustração – duas linhas traçadas: uma curta na horizontal e a mais longa em diagonal, saindo do meio da página para o canto direito do pé da página – dá a ideia de um Rio Adentro de montanhas, de um despenhadeiro. Despenhadeiro de entre montanhas ou abismo: precipício de almas.

A dedicatória é simples e tem alguma intenção do autor do livro. Diz:

G.

ESPERO QUE VOCÊ EXPORTE O MEU RIO ADENTRO. COM CARINHO E ADMIRAÇÃO.

UM FORTE ABRAÇO

                                                                                     BSB 20

                                                                                              12

                                                                                              2011

(rubrica da assinatura do autor)

O pedido do autor é que G. exporte o Rio Adentro. Exportar, segundo Houaiss, é “vender algo remetendo-o para fora do país, estado ou região que o produziu; enviar (ideias, pessoas etc) para fora de país, estado, município ou região a que pertencem”.

A dedicatória é a alguém que Jorge conhecia, uma vez que demonstrou “carinho e admiração”. Pergunto: G. entendeu a dedicatória?

O – autor – poeta Jorge Ferreira pediu à G. que exportasse o seu Rio Adentro. Pedido que me dá duas interpretações: G. é um exportador de objetos e Ferreira pediu, indiretamente, que vendesse seu livro além-região em que vivia; ou pode ter pedido que exportasse as suas ideias, a sua poesia, vendendo ou não o livro, ou seja, falando do livro, do autor, e quem sabe declamando ou citando alguns dos poemas.

Em casa com o livro sobre a mesa começo a ler – não consigo ler livros, mesmo de poesia, abrindo-o em páginas aleatórias – o prefácio de Wilson Pereira.

Pereira informa que este não é o primeiro livro de Jorge Ferreira e, que com Rio Adentro, Jorge desembarca na seara da poesia. Desembarcou mas teve como convivência poetas como Carlos Drummond de Andrade, Dantas Mota e Paulo Leminski.

Ora, é coincidência!

Se, no sebo, ao folhear o livro pensei em Leminski, Drummond e Lorca, agora vejo-os citados no livro. Leminski e Drummond no prefácio e Lorca no poema EXPLOSIVO (P. 45): Com Lorca / Tenho Granada / Em minhas mãos.

Lendo o livro imaginei que G. poderia ser “… um homem aciganado / Europeu, asiático, africano, americano / Tratava tudo e a todos como próximos do coração / Às vezes faltoso e longe dos olhos (VIAGEM p. 72)

Imaginei corretamente? G. é o homem de todos os povos e de todos os cantos?

Se sim, faltou com Jorge ao se desfazer do livro?

Jorge era – faleceu em 2013 – um gastrônomo, dono de vários bares e restaurantes em Brasília, entre os quais o Feitiço Mineiro: meus bares vão além das cidades em que vivi / Dos mais refinados aos mais simplórios / Nos subúrbios mais distantes / Todos, andarilhos errantes / Guardam meus íntimos segredos.

Wilson Pereira termina seu prefácio com: “E aqui me calo, pois melhor que explicar o rio é nele mergulhar, para sentir o rio adentro, nós adentro”.

Também me calo.

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